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Canudos em chamas, numa foto da época: calcula-se que 15 000 pessoas morreram |
Saudava as pessoas dizendo "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo". Respondiam-lhe dizendo "Para sempre seja louvado". Chamava os outros "meu irmão". Os outros chamavam-no "meu pai". Foi conhecido como Antônio dos Mares, uma certa época, e também como Irmão Antônio. Os mais devotos o intitulavam "Bom Jesus", Santo Antônio".
De batismo, era Antônio Vicente Mendes Maciel. Quando fixou sua fama, era Antônio Conselheiro, nome com o qual conquistou os sertões e além. O mais célebre cronista de suas aventuras, Euclides da Cunha, escreveu em Os Sertões que poderia tanto ir para a História como para o hospício. Maldade considerá-lo caso de hospício. Foi para a História, e nela cravou um marco profundo — um ferimento.
Transformou-se num dos personagens mais perturbadores da História do Brasil, figura central de um dos episódios mais extravagantes. equivocados e trágicos da nacionalidade, e também dos mais fascinantes, em que o Brasil defronta o Brasil, estranha o Brasil e choca-se frontalmente com o Brasil.
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Quase nada sobrava daquele santuário-cidadela, um povoado que sonhou ser a Jerusalém dos confins do mundo e acabou uma Pompéia sem Vesúvio, reduzida a escombros, cadáveres, sangue e cinzas.
Escreveu Euclides da Cunha: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados."
Dias antes, em 22 de setembro, morrera o Conselheiro — de disenteria, segundo alguns, talvez das complicações de um ferimento leve, segundo outra versão, talvez da desolação e da tristeza que cresciam a seu redor naqueles derradeiros momentos.
Cem anos passados, programam-se seminários, houve cerimônias na Bahia e em outras partes, e continua a pairar sobre o país a enormidade do mistério de Canudos. Mistério, ou misterioso, são palavras usadas muitas vezes por Euclides da Cunha para qualificar o local que descreve, o ambiente e a coligação de jagunços e beatos que se opunha à ordem representada pelo governo da República e o Exército nacional — ou talvez o bando de jagunços feitos beatos, ou beatos feitos jagunços.
Imagine-se a seguinte cena. Depois de um dia inteiro de combates ferozes, tiros, mortos e feridos de lado a lado, correria e cansaço infinitos, caía a noite, depunham-se as armas e fazia-se silêncio no vale onde se situava o arraial e nas montanhas ao redor. De repente. um rumor começava a insinuar-se na escuridão. Aos poucos, percebia-se que era um coro de vozes humanas, com predominância das vozes femininas, num arrastado entoar de ladainhas.
Euclides da Cunha explica: "O inimigo, embaixo, no arraial invisível — rezava". O mistério, a sensação de intercâmbio com o sobrenatural, de parte com o Absoluto, baixava sobre as desolações do sertão.
Canudos não existe mais. A vila do Conselheiro, não bastasse ter sido destruída na guerra, encontra-se submersa. afogada que foi, em 1969. pelas águas do Açude de Cocorobó. A cidadezinha que hoje toma o nome de Canudos fica a 10 km da original. Em volta do açude qual sentinelas de uma história que insiste em não morrer, vigiam os morros tornados nacionalmente conhecidos, à época da campanha como locais de onde o Exército disparava seus canhões contra o arraial insurgente, e onde os rebeldes arriscavam suas escaramuças contra as tropas regulares — o Morro da Favela, o Morro do Mário.
O Morro da Favela tomou-se tão famoso que veio a nomear um morro similar no Rio de Janeiro — por causa dos casebres parecidos com os de Canudos que nele vieram a erigir, segundo uma versão, ou porque nele se aboletaram os soldados veteranos da campanha. segundo outra. E a partir daí a palavra "favela" passou a ter um significado tão simbólico do Brasil quanto as cores verde e amarela.
Uma multidão de casas de taipa. ordenadas, ou melhor, desordenadas em volta de uma praça: eis o que era o arraial. O Exército calculou em 25.000 os seus habitantes, o que o tornaria a segunda cidade da Bahia na época, só inferior a Salvador.
Considera-se hoje o cálculo exagerado. Na praça central havia duas igrejas, uma em frente da outra — as chamadas "igreja velha" a menor, e "igreja nova" esta uma ambiciosa obra empreendida pelos conselheiristas, nunca terminada.
Aquela guerra singular tão brasileira quanto a Guerra de Troia foi grega, e tão reveladora de mitos, artimanhas e desencontros da nacionalidade, travou-se em tomo da praça das igrejas. Mais particularmente, da igreja nova em cujas torres incompletas e andaimes encarapitavam-se os sertanejos para alvejar os inimigos e que por sua vez consistia no alvo preferencial da fuzilaria e do canhoneiro dos soldados.
Quando caiu enfim a igreja nova no finzinho da guerra, houve grandes manifestações de júbilo entre os soldados e segundo o relatório de um dos comandantes militares, "uma entusiástica e violenta vaia na jagunçada".
Aproximava-se do desfecho a bizarra peleja que teve por centro uma igreja. Hoje, sobe-se ao Morro da Favela ou ao Alto do Mário e não se ouvem rezas. O amplo espaço em tomo é vazio e silencioso. Abaixo, vêem-se as águas do açude — apenas um plácido lago, às vezes cruzado por botes simples de pescadores, que num dia de sorte terminarão sua jornada fornidos de tucunarés, carpas ou tilápias. É um lago como outro qualquer, consideraria o observador, até mais feio, porque cercado de árida paisagem. Mas, se se tem consciência das ruínas que ele encobre, dos muitos cadáveres e da cidade duplamente fantasma, destruída pelo fogo e afogada nas águas, um frêmito pode percorrer o observador.
O mistério continua, António Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, no Ceará em 1830 foi professor primário, comerciante e advogado prático — rábula é a palavra — antes de se tomar beato. Não era de família pobre, mas remediada. Não era um ignorante, mas tinha suas letras. Alguns atribuem a guinada que deu na vida a uma desilusão amorosa — o abandono da mulher, Brasilina. Ele ainda se uniria a uma segunda mulher, uma fazedora de imagens conhecida pelo luminoso nome de Joana Imaginária, antes de renunciar aos amores.
Em 1874 aos 44 anos, já estava avançado na nova senda. É de quando data a primeira notícia sobre suas atividades, um registro do jornal O Rabudo, da cidade de Estância, Sergipe, dando conta de um certo Antônio dos Mares que, em andanças pelo sertão, vinha atraindo um "número espantoso" de pessoas.
Seu modesto mundo circunscrevia-se a lugares perdidos como Natuba, Cumbe, Masseté, Uauá, Jeremoabo, Itapicuru — basicamente o sertão da Bahia, com uma ou outra incursão a Sergipe.
Ele andava, andava. Rezava e vivia de esmolas e ajudava os necessitados, acompanhado de um séquito cada vez maior. Quando parava em uma cidade, oferecia-se para recuperar ou quando não houvesse, construir uma igreja ou então os muros do cemitério. Maciel tinha mania de fazer igrejas e arrumar cemitérios.
Algumas de suas obras subsistem. A cidade que hoje leva o nome de Crisópolis, fundada por ele próprio. na década de 1880, com o nome de Bom Jesus, para ali acomodar alguns dos seguidores, tem em sua praça central uma igreja de sua lavra. A igreja. que Euclides da Cunha considerou "belíssima" está pintada de novo e bem conservada.
Do séquito do Conselheiro faziam parte pelo menos dois mestres-de-obras, Manuel Faustino e Manuel Feitosa.
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Igreja de Crisópolis, feita pelo Conselheiro. "Só Deus é Grande" |
remodelada recentemente. chama-se "Antônio Conselheiro". A cotação de Maciel nunca andou tão alta, no sertão e fora dele. Euclides, entre muitos outros epítetos depreciativos, chamou-o de "messias de feira" e "bufão arrebatado numa visão do Apocalipse".
Considerava-o o "grande desventurado", e, Canudos, a objetivação daquela "insânia imensa". A cotação do Conselheiro, hoje. variará de herói — para aqueles que vêem nele um certo tipo de bravura e resistência — a um bom homem, que não queria senão a salvação eterna, para si e os adeptos.
Como se informar sobre esse cearense que procurava a paz de Deus mas acabou joguete dessa obra do Demo que são as guerras fratricidas? Durante décadas, a fonte capital — e sagrada — foi o livro de Euclides da Cunha. Hoje, impossível introduzir-se no assunto sem passar por José Calazans.
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José Calazans: a história reconstruida a partir do relato dos sertanejos |
Como começou a trabalhar na década de 40, ainda alcançou vários sobreviventes do arraial do Conselheiro. Por exemplo: Honório Vilanova, irmão do dono da principal loja de Canudos. Antônio Vilanova, um dos homens mais próximos do Conselheiro. Honório Vilanova, com o irmão e as respectivas mulheres, escapou de Canudos nos últimos dias da guerra, como vários outros conselheiristas. Veio a morrer com mais de 100 anos. Uma vez, contou a Calazans que quando conheceu Maciel em Assaré no Ceará — Honório também era cearense — este era beato. Anos mais tarde, ao reencontrá-lo na Bahia já era conselheiro. "E há diferença?" perguntou Calazans. Honório explicou então que o beato tira rezas, pede esmolas e ajuda os pobres. O conselheiro vai além: dá conselhos.
Qual seja, prega. Na hierarquia informal do sertão, a hierarquia para-eclesiástica do misticismo sertanejo, o conselheiro situa-se acima do beato.
Essas figuras de guias espirituais surgiam no interior do Nordeste muito em função da ausência de padres, explica o professor Cândido da Costa e Silva, da cadeira de História das Religiões da Universidade Federal da Bahia, autor de Roteiro da Vida e da Morte, um estudo sobre o catolicismo sertanejo. "Portanto, não existiam para contestar a Igreja ofi-cial mas para suplementá-la." O sertão não tinha padres como nas aldeias francesas, que davam assistência permanente às famílias e acompanhavam-nas ao cemitério, inclusive, levando seus mortos, prossegue o professor. Daí, os tiradores de reza e as incelências — eram figuras e fórmulas que supriam a falta de pessoal e de liturgia oficial.
A pessoa ascendia à condição de beato ou conselheiro, ainda segundo Costa e Silva, de forma natural, pelo destaque que haviam obtido na sociedade, em virtude de sua liderança, capacidade de expressão, piedade e outras qualidades. Maciel jamais ousou ir além do que permitia sua condição. Nunca se aventurou a ministrar sacramentos. Tampouco podia ser acusado de desvios de doutrina, pois não pregava senão a teologia conservadora daqueles rincões e não aconselhava senão práticas de longa tradição sertaneja, como o jejum, quanto mais jejum melhor, caminhadas longas, até se esfalfar, e carregar pedras, para pagar os pecados.
Mesmo assim a hierarquia da Igreja lhe era crescentemente hostil. Em 1887 o arcebispo de Salvador, dom Luís Antônio dos Santos cobrou providencias ao governo do Estado que por sua vez pediu socorro ao governo do Império. A idéia era internar Maciel no Hospício Dom Pedro II no Rio de Janeiro. A autoridade imperial consultada respondeu, no entanto, que não havia vaga no referido hospício.
Em seu ímpeto repressor, na verdade, a autoridade eclesiástica aliava-se à aflição dos coronéis do sertão, que se viam ameaçados duplamente no poder econômico e no poder político.
Estudiosos contemporâneos, como o brasilianista americano Ralph Della Cava, demonstraram como o Conselheiro, e também o padre Cícero, no Ceará, na mesma época, drenavam a mão-de-obra das fazendas, ao mesmo tempo que retiravam da influência dos chefetes os votos de cabresto que lhe garantiam o controle dos instrumentos do Estado.
Acresce que, quando o movimento do Conselheiro aproximava-se de seu auge, ocorreu a mudança de regime no país, de Monarquia para República, e o Conselheiro, tradicionalista como era, recusa-se a aceitar o novo regime. A República era o Anti-cristo, era a ordem de Satanás. Ousara separar a Igreja do Estado. E, entre outras disposições odiosas, instituíra o casamento civil, roubando da Igreja a exclusividade de celebrar matrimônios. Uma mulher casada no civil, segundo o professor Costa e Silva ouviu de um sertanejo. em época bem mais recente, seria uma "p... testemunhada".
O novo regime também delegara aos municípios a faculdade de instituir impostos. Certa vez, o Conselheiro encontrou os habitantes de Natuba inconformados com os impostos anunciados em editais no centro do povoado e incentivou-os a destruí-los. Foi seu primeiro gesto de desobediência civil. Em conseqüência, uma tropa policial saiu-lhe ao encalço. Depois de um choque violento, na localidade de Masseté, que resultou em três mortos de cada lado, a tropa retirou-se, mas para o Conselheiro ficou um sinal de alerta.
O clima crescentemente desfavorável pedia uma decisão. Chegara a hora de mudar de vida. Depois de vinte anos de andanças, ele se estabeleceria com sua gente num lugar onde pudesse rezar em paz, aconselhar em paz e viver em paz, ao abrigo dos agentes do insano governo dos incréus, ou dos bispos que faziam o jogo do Diabo. Nascia Canudos.

Fonte: Revista Veja 3 de setembro 1997