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domingo, 31 de janeiro de 2016

O Céu chorando é lindo!

 Raul Meneleu
Choveu...
O céu chorando,
lágrimas escorreu,
na terra ressequida, que bebeu...
essa declaração de amor.

Chorou...
com emoção,
sofreguidão,
sorveu água pura que escorreu,
entre seu rego  acolhedor.

Aceitou...
essas lágrimas puras de amor,
chuva bem vinda ressuscitou,
a vida que estava dormindo,
e o sertão brotou.

Amor...
flores diversas,
desencantaram,
fauna sorrindo gemeu,
gozo santo de amor.

Louvor...
a esse ato divino,
até aos homens encantou,
tal declaração de amor,
que a natureza ofertou.

A chuva ressuscita a vida que dorme o sono da morte, até ela vir, e quando vem, o sertão brota.

sábado, 30 de janeiro de 2016

A condenação dos pintos e a justiça brasileira

Um conto persa

Certo dia, um ladrão, em ocasião propícia, foi informado de que o rico Djelal-ed-Din, mercador em Chiraz, havia conduzido para casa uma considerável soma destinada às festas com o casamento da sua filha, Zuleika, e resolveu apropriar-se de uma parte desse tesouro. 

Para entrar na casa era preciso, porém, saltar um muro muito alto e, nessa ginástica, o salteador caiu e fraturou uma perna. Arrastando-se, ele foi queixar-se ao cádi, o juiz local, que mandou chamar à sua presença o rico Djelal-ed-Din.

— Por que, filho de um cão, fizeste um muro tão alto em torno do seu jardim, que este pobre ladrão quebrou uma perna ao tentar saltá-lo? – indagou o magistrado.

— Sombra de Deus sobre a terra, que seja eu sacrificado sobre o altar da tua prosperidade! Mas se o muro que cerca o meu jardim é tão alto, a culpa não é minha; é que o empreiteiro o levantou mais do que eu desejava. Ele me cobrou tal preço por esse trabalho que tive de vender parte dos meus bens para pagá-lo, chegando quase a arruinar-me.

— Que se faça vir à minha presença o empreiteiro! – ordenou o cádi.

— Por que, filho de um cão, por que construíste um muro tão alto em torno do jardim de Djelal-ed-Din, de modo que ele teve as maiores dificuldades em pagar-te, e que esse desventurado ladrão, ao saltá-lo, quebrou a perna? – gritou-lhe.

— Sombra de Deus sobre a terra, que seja eu imolado sobre o altar da tua prosperidade! Mas foi meu pedreiro que assim elevou o muro, no qual empregou tanto material que, não obstante o preço que cobrei de Djelal-ed-Din, fiquei quase na miséria.

— Que se faça vir o pedreiro à minha presença! – respondeu o juiz.

— Por que, filho de um cão, elevaste o muro de tal forma, que teu patrão, o empreiteiro, se arruinou, não obstante o preço cobrado de Djelal-ed-Din, o qual, por seu turno, viu o seu patrimônio diminuído por essa enorme despesa, e de modo que esse infortunado ladrão quebrou uma perna?

— Sombra de Deus sobre a terra, que eu seja sacrificado no altar da prosperidade! Mas quando eu estava construindo esse muro, vi no jardim uma mulher tão bela, com o rosto descoberto, que fiquei fascinado e perdi a razão. E pus tijolo sobre tijolo, sem me aperceber, e se tivesse mais material, mais teria posto no atordoamento daquele espetáculo de mulher!

— Que me tragam essa mulher! – determinou o cádi.

— Por que, mulher impura, foste tu passear no jardim de Djelal-ed-Din, com o rosto descoberto como uma amaldiçoada, mostrando a tua face a este humilde operário, que, tendo por isso perdido a calma, construiu um muro tão alto que arruinou o seu empreiteiro, empobreceu Djelal-ed-Din, e provocou o deplorável acidente de que se queixa esse desventurado ladrão?

— Sombra de Deus sobre a terra, que eu seja sacrificada no altar da tua prosperidade! Mas eu pensava não me tornar criminosa, eu Zuleika, filha de Djelal-ed-Din, dando inocentemente, no jardim do meu pai, comida aos meus pintos!

— Que tragam os pintos à minha presença! – ordenou o juiz!

E mandou torcer o pescoço dos pintos.

O mundo do Islã

Islamismo: uma em cada cinco pessoas pratica hoje o Islã. A mistura entre fé e política coloca a religião em xeque em todo o mundo


Cinco vezes por dia, o chamado à oração ecoa na alma dos muçulmanos em várias partes do mundo – de Shangai a Chicago, de Jacarta a Timbuktu. Transmitida por alto-falantes metálicos em cidades populosas ou elevando-se como um murmúrio entoado por condutores de camelos prostrados na areia, a prece começa com a mesma frase em árabe usada há quase 1,4 mil anos, um melódico tributo do Islã ao Criador. “Allah... u akbar”, entoam os fiéis. “Allahhh... u akbar!” (Deus é grande!)

Cerca de 1,3 bilhão de pessoas – um em cada cinco seres humanos – atendem a esse chamado no mundo moderno. As crescentes conversões fazem do islamismo a religião de propagação mais acelerada em todo o planeta – com 80% de fiéis vivendo hoje fora do mundo árabe. O Islã, para essas pessoas, é uma ligação íntima e pessoal com o mesmo Deus reverenciado por judeus e cristãos. Uma fonte de força e esperança em um mundo conturbado.

O termo “islã” vem do árabe, significa “submissão a Deus” e tem suas raízes etimológicas firmemente plantadas na idéia de salam (paz). Tal significado pode surpreender os não muçulmanos, que tiveram suas percepções sobre essa fé deturpadas por grupos terroristas e seus atos medonhos perpetrados em nome de Alá. “A paz é a essência do Islã”, afirma o príncipe El Hassan bin Talal, da Jordânia, irmão do falecido rei Hussein e considerado descendente do profeta Mohammad (Maomé). O príncipe El Hassan chefia atualmente a Conferência Mundial sobre Religião e Paz e não mede esforços para construir pontes de entendimento entre o mundo muçulmano e o Ocidente. “Respeitar a santidade da vida é o alicerce de nossa fé e de todas as grandes fés”, explica.

Assim como o judaísmo e o cristianismo, o islamismo identifica suas origens em Abraão*, um pastor nômade com quem Deus (Allah, em árabe) fez alianças que sedimentaram a base das três fés monoteístas. Os muçulmanos reverenciam outros profetas hebreus, incluindo Moisés, e consideram ainda o Antigo e o Novo Testamento partes integrantes de sua tradição. Discordam dos cristãos quanto à natureza divina de Jesus, mas o glorificam como um mensageiro especialmente estimado de Deus, pois o supremo mensageiro, para os sectários do islamismo, é Maomé.

Nascido por volta de 570 em Meca, na atual Arábia Saudita, Mohammad, órfão, foi criado pelo avô e pelo tio. Tornou-se um modesto mas respeitado negociante que rejeitou o disseminado politeísmo de sua época e se voltou para o Deus único venerado pelas comunidades cristã e judaica da região. Com cerca de 40 anos de idade, Maomé recolheu-se a uma caverna nas montanhas próximas a Meca para meditar. Ali, crêem os muçulmanos, ele recebeu a visita do arcanjo Gabriel, que se pôs a recitar-lhe a palavra de Deus. Até sua morte, 23 anos depois, Maomé transmitiu essas revelações a um crescente grupo de seguidores. Muitos deles escreveram suas palavras ou as gravaram na memória. Esses versos, compilados pouco depois da morte do profeta, tornaram-se o Corão (ou “recitação”), e são considerados pelos muçulmanos a palavra de Deus literal – e um refinamento das escrituras judaicas e cristãs.

O corão consiste em 114 suratas, ou capítulos, que abrangem desde a natureza de Deus – compassiva e misericordiosa – até as leis que governam os assuntos mundanos dos homens. Ordena o Corão, por exemplo: não usurpe a propriedade de outro por meios injustos e não cace animais durante uma peregrinação. “Sua mensagem básica é uma receita para a harmonia na vida cotidiana”, diz o xeque Anwar al-Awlaki, o imã (líder espiritual), da Mesquita Dar al-Hijara, próxima a Washington, D.C. “No Corão, Deus ordena que sejamos clementes uns com os outros, que a ética norteie nossa vida. Esses conceitos, obviamente, não são novos. O livro apenas confirma muitos dos ensinamentos já expressos na Bíblia. De muitas maneiras, a mensagem de Deus no Corão resume-se a ‘tratemos as pessoas melhor do que elas nos tratam’.”

Para os muçulmanos, o Corão é também uma pedra de toque poética, uma fonte da mais pura língua árabe, memorizada pelos escolares e recitada pelos adultos muçulmanos em todas as ocasiões importantes – casamentos, funerais, dias santos. Em uma religião que proíbe estátuas e ícones, o livro é a manifestação física da fé, e pequenas cópias puídas andam no bolso da gente comum em todo o mundo muçulmano.

Da mesma maneira que os versos da Bíblia podem ser retirados do contexto e usados para promover uma causa de fanáticos, também o Corão está sujeito a deturpações. Um verso que aconselha as mulheres a se vestir e se comportar com recato é interpretado como um bom conselho prático, mas outras leituras fornecem ao Talibã uma justificativa para aprisionar as mulheres em casa. Versos que recomendam a jihad (luta) contra os inimigos de Deus podem ser entendidos como uma elegia à batalha íntima de cada indivíduo em busca da pureza e da iluminação do espírito. Por outro lado, outros mencionam a luta armada de Maomé contra seus inimigos e dão aos radicais da atualidade um pretexto, por mais desvirtuado que seja, para travar uma guerra santa contra infiéis.

Tais interpretações não podem ser invalidadas, já que o Islã é uma fé que não possui uma hierarquia estabelecida. Não existe um papa muçulmano nem se excomungam os hereges. Assim, embora um imã possa dar orientações e instruções a seus congregados, em última análise a autoridade do Islã está em seu livro santo – o que, em suma, deixa aos indivíduos a liberdade para interpretar a palavra de Deus à sua maneira. O próprio Corão reconhece esse dilema na surata III:7: “Nele há versículos fundamentais, que são a base do livro, havendo outros alegóricos. Aqueles cujo coração abriga a dúvida seguem os alegóricos, a fim de causarem dissensões [...] Ninguém senão Deus conhece sua verdadeira interpretação”.

Deus proibiu a coerção religiosa, mas ordenou a Maomé que declarasse sua nova fé a todo o povo de sua região – uma tarefa nada fácil diante das violentas guerras tribais e da idolatria que grassavam em Meca no século 7, boa parte delas centrada na Caaba. Esse santuário em forma cúbica foi usado em rituais pagãos em honra a várias deidades. Maomé e seus seguidores foram ridicularizados e sofreram violentos ataques por sua crença em um Deus único que não se podia enxergar.

Após uma década de perseguição, eles migraram para Medina, a cerca de 300 quilômetros de Meca. O profeta veio a governar a cidade e, vários anos depois, ele e um pequeno exército de fiéis retornaram a Meca, destruíram os ídolos da Caaba e dedicaram o lugar ao Deus de Abraão. Desde então, peregrinos reverenciam o local como o mais sagrado santuário do Islã. Todos os anos, reencenam a jornada de Maomé a Meca no hajj, a peregrinação que atrai 2,5 milhões de muçulmanos de todo o mundo para circundar a Caaba.

Um dos cinco pilares do Islã (junto com o jejum no mês sagrado do Ramadã, a oração, a caridade e a profissão de fé), o hajj é exigido de todo muçulmano que tem condições de fazê-la ao menos uma vez na vida. “Agora sou um hajji!”, exulta Hamoudi bin Nweijah al Bedoul, um beduíno de meia-idade, habitante dos desertos rochosos a sudeste do mar Morto. Sua reação foi típica do muçulmano que retorna da peregrinação pela primeira vez. “Fomos eu, minha mãe e um milhão de pessoas iguaizinhas a nós. Viajamos de ônibus por uma semana, o caminho inteiro até Meca. Minha mãe chorou o tempo todo na volta.”

Quando o profeta morreu, em 632, o Islã já se consolidara por todas as terras áridas da península Arábica, levando paz e união às tribos pela primeira vez. Um século após a morte de Maomé, os exércitos islâmicos, fortalecidos pela fé inexpugnável, haviam conquistado uma vasta faixa de território que se estendia desde a Índia até a costa espanhola e portuguesa no oceano Atlântico, incluindo o norte da África e o Oriente Médio.

O mundo muçulmano assentou-se nos alicerces intelectuais das culturas romana e persa, patrocinando uma explosão de saber que não teve paralelos antes da Renascença. Segundo o historiador Bernard Lewis, da Universidade Princeton, entre os heróis não celebrados do Islã estão seus tradutores, que foram responsáveis pela preservação de textos gregos clássicos do mundo antigo. Eles adequaram versões para o árabe nas áreas de matemática, astronomia, física, química, medicina, farmacologia, geografia, agronomia e uma ampla gama de outros assuntos, entre eles, notavelmente, a filosofia. Enquanto a Europa definhava na Baixa Idade Média, eruditos e pensadores muçulmanos davam ao mundo um grande centro de saber islâmico – Al-Azhar, no Cairo – e aprimoravam tudo, da arquitetura ao uso dos números. Ao mesmo tempo, comerciantes islamitas navegavam e divulgavam sua fé para o sul da Ásia, a China e a costa oriental da África.

Florescente no fim do primeiro milênio, o reino do Islã foi posto à prova quando a Europa Ocidental despertou e reagiu, lançando uma série de Cruzadas armadas para reaver o controle da Terra Santa, incluindo os santuários cristãos de Jerusalém. Embora fragmentados e subjugados de início, os muçulmanos se reergueram e por fim derrotaram os exércitos cristãos, cujo legado sangrento – a matança indiscriminada de milhares de inocentes, muçulmanos, cristãos e judeus de Jerusalém – até hoje está vivo na mente de boa parte dos habitantes do Oriente Médio.

Enquanto a Europa ascendia à glória durante a Renascença, o mundo islâmico continuava a prosperar após a criação do Império Otomano, em fins da década de 1200. Esse Estado poderoso só foi soçobrar no final da Primeira Guerra Mundial, e o resultado foi a subdivisão de suas terras, em grande parte muçulmanas. Formaram-se nesse momento histórico os países do Oriente Médio que conhecemos hoje.

A maioria das nações islâmicas é pobre, embora algumas sejam ricas em recursos petrolíferos. Poucas sociedades muçulmanas desfrutam as liberdades civis hoje corriqueiras nas nações ocidentais, como a de expressão e o direito de votar em uma eleição justa. E suas populações crescem a olhos vistos: de cada dez habitantes, quatro têm menos de 15 anos.

Insatisfeitos e privados de seus direitos, há décadas os muçulmanos têm se voltado para a religião e para os movimentos políticos de sua religião a fim de afirmar sua identidade e reaver o poder sobre sua própria vida. No mundo árabe, muitos estão zangados com os Estados Unidos por seu apoio a Israel, sua presença militar na Arábia Saudita – terra de lugares santos – e suas contínuas sanções econômicas contra o Iraque, vistas por muitos como inócuas para Saddam Hussein mas perversas para o povo iraquiano, seus irmãos de fé. Além disso, as sociedades islâmicas têm uma antiga relação de amor e ódio com a cultura popular americana, e atualmente esses sentimentos intensos podem estar mais próximos da repulsa do que do respeito. “Para muitos muçulmanos, especialmente nas sociedades tradicionais, a cultura americana se parece demais com um despudorado paganismo, um culto que venera o dinheiro e o sexo”, explica o imã Anwar al-Awlaki. “Para essas pessoas, o Islã é um oásis de veneráveis valores de família.”

Alguns países muçulmanos, como Irã e Arábia Saudita, hoje baseiam seu governo na sharia, as leis e os ensinamentos corânicos, eles próprios sujeitos a debate e interpretação. Outros, como Malásia e Jordânia, combinam esses princípios de justiça tradicionais com formas mais modernas de governo e sociedade.

Para a maioria dos 1,3 bilhão de muçulmanos, o Islã não é um sistema político. É um modo de vida, uma disciplina baseada em ver o mundo com os olhos da fé. “O Islã me deu algo que estava faltando em minha vida”, conta Jennifer Calvo, de Washington, D.C. Ela tem 28 anos e parece ter saído de um quadro de Botticelli, com traços aquilinos e deslumbrantes olhos azuis, destacados por um lenço branco na cabeça meticulosamente preso dentro de sua túnica longa até os pés. Jennifer foi criada como católica e é enfermeira com formação universitária. “Eu ficava deprimida demais tentando me moldar à nossa cultura insana e à sua imagem de como deve ser uma mulher, com a ênfase que damos à boa aparência – cabelos, maquiagem, roupas – e com nossa avidez por bens materiais. Isso fazia com que me sentisse vazia o tempo todo”, resume ela.

Dois anos atrás, como muitas pessoas têm feito há 1,4 mil anos, Jennifer tornou-se muçulmana simplesmente proferindo as palavras: “La ilaha illa Allah, Mohammad rasul Allah” (Não há Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta). “Agora tudo é bem mais simples”, declara Jennifer. “Somos só eu e Deus. Pela primeira vez na vida, estou em paz.” Para ela e para a maioria dos seguidores do islamismo na Terra, é esse o sentimento básico transmitido pelos melódicos chamados diários à oração. Ajoelhar-se diante de Deus cinco vezes por dia, em uníssono, voltados para Meca de onde quer que estejam. Assim eles encontram a sua paz.

Fonte da matéria: National Geographic EDIÇÃO 21/JANEIRO DE 2002

A cobra no sonho


Dia 20/03/2015 pela manhã, tive o seguinte sonho: ouvi ser dito que os indios só atacavam pessoas que saíssem da faixa delimitada na floresta (eu via e ia verificar).

Via a faixa sem árvores e algumas pessoas nela. Uns acampando e outros reunidos dançando em volta de si em rodas imitando índios.

Avistei um índio com uma grande cobra nas mãos, subindo em uma pequena montanha, protegendo-a de duas grandes cobras que a atacavam (ela dava a aparência de uma moréia). Soltando-a por não mais ter condições de protege-la, ela foi mordida na cabeça, vindo a morrer.

Eu olhava para seu cadáver e de repente saiam dezenas de cobras brancas de dentro dela e corriam para a mata.

As pessoas não apercebiam-se disso e continuavam seus afazeres que a meu ver, tinha relação com religiosidades.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sonhos de dormir


Impressionante essa questão de sonhos. Você sonha com cada coisa que tem certeza de nunca ter passado. Pelo menos nessa vida atual em que vive. Vou relatar um sonho que tive hoje pela manhã, depois das quatro. E porque sei que foi depois das quatro? Simples, tinha levantado por essa hora, para ir ao banheiro, e como sempre faço, liguei a luz do mesmo e olhei para o relógio.

Tive dois sonhos, interligados, irei relatar apenas o segundo, pois no primeiro, fico envergonhado em dizer o que foi. Então vamos ao segundo, que foi a sequencia do primeiro. Estava eu saindo do ambiente em que tive o primeiro sonho e como que desnorteado buscava não sei o que, deparei-me em um imenso local, construção de vários pavimentos, e entre eles, um quarto tipo hospital, onde uma pessoa amiga que não sei dizer quem era, estava sendo atendida por outras, que acho que eram enfermeiros. 

De repente encontro em comitiva, uma grande personalidade, que também não sei quem era, e um dos participantes dessa comitiva lhe dizia, "você tem que visita-lo agora, ele já está partindo!" - esse partir eu não sei dizer que tipo de partida era, e agora que estou escrevendo, fiz a análise e bem que com quase certeza, partia na morte, pois se estava em um quarto de hospital?

Saindo dali apressadamente em busca de não sei o que, abri uma grande porta dessas tipo Palácio de Versailhes, dessas tipo imponente e alta, com detalhes bem acabados e pintados de ouro e nesse local bem amplo e iluminado, deparei-me com uma banda de músicas e passei abobalhadamente entre ela e a assistência onde vi muitas crianças.

Estava eu com uma camisa amarela, com dizeres que não sei quais eram. Senti os cabelos molhados, pois no sonho em que não quero contar, tinha tomado banho e como não tinha encontrado a camisa branca que estava vestido, tomei emprestada uma, que me foi dada pela pessoa que estava comigo nesse sonho que não quero narrar.

Fui passeando e agora em uma linda praça, dentro da construção primorosa tipo Versailhes, encontrei uma criança que falava comigo como se me conhecesse e admirasse, logo após esse encontro, senti um braço leve e caliente me segurar, entrelaçando-o entre o meu direito, uma senhora bastante jovem que não era bonita e nem feia para meus padrões me falar com uma voz doce e prazerosa o que não entendi o que estava dizendo, mas isso me acalmava.

Ela perguntou meu nome e eu lhe disse, Raul, e acrescentei, "ao contrário é luar, pois sou uma pessoa romântica" e dei uma risadinha. Perguntei seu nome e senti que ela não gostava do seu, pois bem baixinho e olhando para o chão, falou: Atlântida. Achei (e acho) esse nome lindo, e daí olhei para o lado e vi um rapaz que ela disse que era seu marido. perguntei-lhe seu nome e ele me falou com uma voz também suave, que se chamava Luiz Jorge, e eu estupidamente disse a esse casal de desconhecidos: beleza! São Jorge em seu cavalo branco, mergulha fundo nas águas de Atlântida, e arrematei que era brincaira, e que eu era um estúpido por dizer essa besteira.

O sonho termina ai, fiquei um pouco assustado e preferi acordar.

Escrevendo esses sonhos agora, lembrei que teve um terceiro, e isso é que é interessante pois vez em quando tenho esse sonho: eu chegando em uma rodoviária bastante limpa e cuidada, tentando comprar passagem, não sei para quando e nem para qual destino, mas que nesse sonho, acredito que estou indo pra casa.

NOTA DA FOTO: Os apanhadores, ou caçadores, de sonhos têm sua origem em um povo nativo americano que, ao longo da década de 60, começou a popularizar esses objetos confeccionados à mão para vendê-los aos turistas em suas reservas. Os apanhadores de sonhos devem ser colocados nas cabeceiras das camas ou sobre os berços das crianças. Sua finalidade é de fazer desaparecer os pesadelos ou visões ruins que as pessoas podem ter de vez em quando. s apanhadores filtram nosso descanso noturno. Assim, enquanto dormimos, os pesadelos ou sensações ruins ficam presos nessa “teia de aranha” central. Enquanto os sonhos bons e as sensações positivas descem pelas penas inferiores, para discorrer pouco a pouco até nós. Quando amanhece, as luzes mornas do sol fazem com que os pesadelos desapareçam para sempre do apanhador de sonhos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Irmandades religiosas no Brasil: luta e resistência negra

Entende-se por movimento negro no Brasil as diversas maneiras de atuação por parte dos negros diante da ordem racista vivenciada no dia a dia. Neste caso, a Irmandade do Rosário dos Pretos, em Salvador, configura-se como uma das formas assumida pelo movimento negro ao longo de sua história de resistência. Constituindo-se enquanto grupo, esta irmandade religiosa compostas por negros em muito atuou como canal de acesso ao meio social brasileiro, bem como um espaço de reconstrução da identidade étnico-racial.

Independentemente da diversidade cultural encontrada no Brasil, no início de sua formação era impossível viver outra forma de manifestação religiosa que não fosse a católica. Para Portugal, a formação social do Brasil implicou, dentre outras coisas, na unificação moral e política das raças aqui presentes contra os “hereges” protestantes, representados em  figuras diversas.

Aos poucos, vários grupos étnicos, na tentativa de ocupar uma posição de prestígio na sociedade brasileira,começaram a experimentar em vários lugares públicos uma certa “intimidade”, com os santos católicos, forma  esta de se refugiar das punições estabelecidas pela estrutura social vigente na época.

No caso específico das experiências negras, apesar de terem se moldado à forma católica, traços culturais africanos se mantém ou re-significaram. Enquanto a colônia interpreta os cultos afro-brasileiros como uma forma profana de se adorar aos Deuses, informando ao Santo Ofício naquele tempo que se tratava de “folclore”, nada diferente dos dias atuais, onde é tratada como diversão e não como sagrado,  a população negra conseguiu preservar fatores centrais de continuidade de sua ancestralidade.

Estudos sobre o culto afro no Brasil fazem alguns pesquisadores  intuirem que, na experiência particular entre os elementos culturais africanos e os símbolos do catolicismo fatores estruturais  incidiram no fenômeno do “sincretismo”. Dessa maneira , as conformidades existentes entre os santos da Igreja Católica e os orixás do Candomblé além de terem ocorrido por força da imposição católica da época,decorreriam também das influências estruturais imbricadas nos símbolos religiosos.

Dentro desse contexto, a presença de negros nas várias confrarias religiosas é um dos indicadores desta postura da Igreja Católica, mesmo porque, não é de admirar-se que nessas condições o homem de cor reagisse no Brasil exatamente como nos Estados Unidos e que transformasse esse catolicismo do qual se queria fazer como um meio de controle social e de integração numa sociedade que o maltratava, num instrumento, pelo contrário, de solidariedade étnica e de reivindicação social.


Para a Igreja Católica, as irmandades foram um dos meios mais eficazes de converter ou até mesmo submeter diversos grupos étnicos, tais como índios, mouros e negros, ao catolicismo. Alguns estudiosos afirmam que, no Brasil, várias irmandades estiveram por muito tempo sob o controle da coroa portuguesa, submetidas à fiscalização do setor eclesiástico. 

As confrarias religiosas já existiam em Portugal desde o século XIII e dividiam-se em irmandades e ordens terceiras. Ao longo de suas existências, muitas irmandades negras foram elevadas à categoria de ordem terceira, como foi o caso da Irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho. Atividades como empréstimo de dinheiro a juros para os membros integrantes das confrarias foram revividos no Brasil, primeiro por irmandades mais ricas, constituída por brancos  e depois copiada por outras irmandades.

É importante destacar que as irmandades religiosas compostas por negros, além de assumirem a assistência médica e jurídica, o socorro em momentos de crise financeira, e os funerais tanto de membros dessas associações quanto de seus familiares, também se responsabilizavam pela compra de alforrias de outros escravos.

A partir do compromisso, lei que estabelece os estatutos da organização e da sua aprovação pelas autoridades eclesiásticas, estas associações eram reconhecidas no meio social. Era obrigação de todos os membros dessas confrarias seguir à risca os seus mandamentos.

Contavam como requisitos básicos na sua estruturação a categoria sócio-econômica e a cor da pele. As Irmandades do Rosário, trazidas pelos jesuítas, foram as mais numerosas em todo o Brasil colonial, tradicionalmente dividida entre as de crioulos (negros nascidos no Brasil), mulatos e de africanos. Estas, como as demais confrarias religiosas, estruturavam-se em torno de uma mesa presidida obrigatoriamente por alguém da “raça”. Dentro dessa exigência, deveria ser escolhido um juiz ou presidente, no caso das irmandades, e um prior no caso das ordens terceiras.

A Irmandade do Rosário dos Pretos foi erguida e confirmada na Sé Catedral,  no inicio do século XVIII, entre 1703-1704. Os membros da confraria conseguiram levantar a sua própria capela às Portas do Carmo. Era de fundamental importância a obtenção de um espaço próprio para que fossem realizados tanto os rituais religiosos como as atividades sociais dirigidas ao negro. 

Durante grande parte do século XVIII, depois de sucessivas tentativas para a concessão de um terreno por  D. João V, é que se dá a construção da igreja, concluída em 1812. Ainda hoje, situada no Pelourinho, apresenta-se como um dos principais símbolos para a população negra da cidade.

Para se fazer parte da irmandade algumas qualidades básicas eram exigidas aos membros que se candidatassem para fazer parte da mesa das confrarias. De acordo com o compromisso de 1820, era preciso ser pessoa livre, para estar  apto, exercer e satisfazer os atos de Irmandade, livre de  qualquer infâmia a que está sujeita a condição servil.

Ressaltava que pessoas " sujeitas" poderiam exercer os cargos de mordomo da festa, desde quando pudessem cumprir suas obrigações e satisfazer as exigências econômicas de costume,assim como, serem Irmãos da Mesa desde quando tivessem bom procedimento e seu cativeiro fosse suave.

No entanto, acentuava que em nenhum caso, poderiam ser escravos, os elementos responsáveis pela direção da Irmandade, ou seja, juizes, escrivães, tesoureiro, etc. Os membros da mesa do Rosário dos Pretos deveriam, principalmente, ter boa conduta e ser reconhecidos socialmente, a fim de assegurar a confiança entre os demais integrantes da confraria.

Além dessas qualidades, os confrades deveriam possuir boas condições econômicas, pois era, sobretudo, através das contribuições materiais dos seus membros que as irmandades realizavam seus rituais fúnebres e festivos, ornamentavam sua capela, garantindo a ascensão social e econômica da irmandade e de seus membros.

Por conta disto, ainda hoje, a Igreja do Rosário dos Pretos no Pelourinho, apresenta-se como um dos lugares ou territórios no qual são revividas experiências culturais negras, constituindo-se fator de identificação para os movimentos negros, mesmo diante da  nova realidade religiosa. 

Durante a escravidão, as irmandades e outras expressões negras, representaram ponto central de encontro de cidadãos negros. A diversidade de elementos culturais africanos presentes no Brasil influenciou, a composição dessas organizações. É desse modo que percebemos o significado da Irmandade do Rosário dos Pretos do Pelourinho, enquanto movimento social da população negra, no passado, que ainda ressoa na atualidade.

Contribuição de Luciane Reis

As Irmandades Religiosas de Salvador Até o Século XIX

Foram várias às Irmandades religiosas na Bahia. Constituído para servir os irmãos e orientá-los nos seus problemas. Funcionava com objetivos sociais e de grande poder nas igrejas de suas confrarias.
Relaciono abaixo as mais concorridas:

Igreja da Barroquinha 

- Igreja de São Roque: Irmandade da Boa Morte, Rainha dos Anjos, composta de uma devoção das irmãs do  Martírios. Já existia desde 1851. E na mesma igreja tinha a Irmandade de Nossa Senhora da Angústia – composta de devotos brancos nacionais.

Igreja do Pelourinho 

– Nossa Senhora do Rosário – Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Quando foi feito o alicerce, no inicio do século XVI, os irmãos da confraria mandou vir de Portugal uma coleção de azulejos, cada parte colocado nas paredes laterais, representam; circuncisão, adoração dos Reis Magos, Rosário de São Domingos.

“A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Quinze Mistérios dos Homens Pretos, foi festejada em 1811 na antiga Matriz de São Pedro (demolida) fundamentalmente religiosa católica, foi fundada em 1701 pelos irmãos proprietários de uma quadra no cemitério do Campo Santo, na área pobre, fora dos muros, nas encostas. Possui, no centro, pequeno monumento com um cruzeiro. É também conhecido como “cemitério dos escravos”. 

Capela dos 15 Mistérios edificada na esquina da Praça dos Quinze Mistérios no mesmo Bairro de Santo Antonio Além do Carmo.
Capela dos 15 Mistrérios e a Confraria de Nossa Senhora dos 15 Mistérios dos Irmãos Pretos.

Irmandade de Santo Antonio de Categerona, fundada em 1699 na Igreja de São Pedro (demolida) como também tinha a Irmandade de São Pedro Velho – devotos brancos e as Irmandade de S. Sacramento e Irmandade do Senhor do Mártires fundada em 1764.
Constituiram em 1689 até 1746 a Irmandade do Rosário dos Pretos.

Enquanto era associação étnica, formada pelos africanos benguelas, vindo  da região sul de Angola, que dividiam com os jejes da região do Daomé os cargos da mesa diretora Por desentendimento com o vigário. Teria iniciado a construção da Capela na rua grande de São João Pereira Guimarães, ficando conhecida como Irmandade do Rosário de João Pereira em 1784.

Igreja de São Francisco – Irmandade de São Benedito já existia o culto de São Benedito antes de 1623 – Devotos brancos que criaram a Irmandade de José de Ribamar na  Igreja do Corpo Santo fundada em 30 de agosto de 1891.

Igreja da Conceição da Praia – Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Praia – devotos, os portugueses.

Igreja de Brotas – Irmandade do Senhor da Cruz – devotos, os pardos.

Igreja de Nossa Senhora da Sant’Anna – devotos, todos os crentes.

Irmandade do Santíssimo, Passos e Carmo. Na Igreja do Carmo – Santo Antonio Além do Carmo – exclusivamente de brancos.

Irmandade de Santa Efigênia e de Santo Elesbão – devotos, os pretos e pardos.

Irmandade do Senhor Bom Jesus da Redenção – composta de pretos africanos da Capela de São Pedro Gonçalves S. Telmo, vulgarmente conhecido como Igreja do Corpo Santo. Devotos, escravos marinheiros.

Filial da Matriz da Igreja da Conceição da Praia, dita no livro como a 2ª igreja construída na Bahia. ( Fonte do livro: Padre Manuel Dendê Bus – Figura do movimento libertador de 1822 – vigário da Conceição da Praia.)

Em 3 de maio de 1752, alguns negros gêges instituíram na Igreja do Corpo Santo, filiada a Igreja Matriz da Conceição da Praia. A Irmandade do Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção com a aprovação de D. José Botello de Matos, 8º Arcebispo da Bahia. Criou-se assim a Irmandade de Nª. Sª. Do Rosário dos Pretos da Praia. 

Era gosto dos devotos constituirem Irmandades nas Igrejas. Todas as Irmandades tinham que seguir às ordens do Arcebispado, mesmo que as confrarias fossem regidas por estatutos. As Irmandades arrecadavam dízimos dos seus participantes para reverter nas próprias necessidades dos irmãos. Era o que acontecia nas Irmandades em que figuravam os negros escravos ou forros. Mas, muitas confrarias sucumbiram no decorrer dos anos, pelo simples fatos do poder financeiro dos associados caírem e houve também a descrença de vários componentes das Irmandades com a Igreja. 

Perdeu-se a verdadeira característica que fora a abolição dos escravos e a importância que os irmãos tinham na sociedade, isto só aconteceu depois da libertação total dos escravos.

Como a Bahia era a Capital mais católica do país, restou muitos católicos brancos e poucos católicos negros. Só aqueles negros que foram criados e trabalharam nas instituições religiosas católicas é que mantiveram as suas crenças na Igreja. Outros voltaram as suas crenças de origens e a maioria ficaram com as duas religiões a católica e a africana.

Hoje temos pouquíssimas confrarias, a mais famosa ainda é a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. Continua na Igreja do Rosário na ladeira do Pelourinho, sua morada maior aonde se abraça todos os santos negros descendentes de africanos.

É BOM SABER: No dia 20 de março de 1788 na Quinta feira Santa teve incêndio na Igreja da ORDEM 3ª DO CARMO. O incêndio foi total da Igreja e com ela todas as alfaias e mais objetos que ornavam o primeiro templo. A Venerável Ordem 3ª do Carmo foi constituida em 19 de outubro de 1636 sua padroeira Santa Tereza de Jesus. A Igreja foi lançado a 1ª pedra no alicerce da Sacristia em 30 de outubro de 1709 e não se sabe quando finalizou a obra. (Fonte: Estatuto da V.O.3ª do Carmo)

Contribuição de Álvaro B.Marques

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O que significa "Curtir" algo no Facebook?


Notas e Rabiscos: Raul Meneleu

Clicar em Curtir embaixo de uma publicação no Facebook é um modo fácil de dizer às pessoas que você tomou conhecimento sem deixar comentários. A pessoa que publicou receberá uma notificação informando que você curtiu a publicação.

Sei que muitas vezes não vejo a publicação dos amigos; não é maldade, recebo infindáveis posteres e esses já localizaram-se a centenas de distância das postagens iniciais e nisso não sou bom de escacaviar. Mas comumente eu curto todas postagens dos amigos, para que eles vejam que eu não estou passivo e nem fazendo "bico doce".

Sei que infelizmente alguns fazem comigo o velho "bico doce", mesmo estando na minha lista de amigos. Mas nem me ligo nisso, pois acho que tais não me são chegados, e se fazem isso no Facebook, farão também na vida real quando passarem por mim nas calçadas da vida. Estou preparado para isso.

Também tenho amigos (a maioria) que "curte" o que posto. Sei também que tem aqueles que sequer veem pois me "marcam" como não "seguindo" e sequer meus posteres entram em suas páginas (apenas sabem quando curto algum poster seu ou de outros que ele interage).

Mas querem saber... o importante para o "papai" aqui, é ser o que sou; político, religioso, esportista, leitor de coisas boas, ouvinte de belas músicas, apreciador da natureza e dos causos humanos, ser curioso naquilo que me chama atenção; enfim, tenho sempre a ganhar quando leio os links indicados.

A verdade é que muitas pessoas levam isso muito em conta, sendo que o “Curtir” cada vez mais serve como um indicador de conteúdo útil ou interessante. Mas sinceramente, você que é meu "amigo fantasma" e não se liga em curtir o que posto, fique descansado, descanse bem, pois curtir tudo o que aparece no seu Facebook não é uma ideia muito boa, tem pessoas com grande interesses comerciais nisso.

Mas como não vendo nada nessa minha página, veja se pelo menos vez em quando, dê um "like" para eu saber que você está vivo!

A prisão de Antônio Silvino - Cherchez la femme

Notas e Rabiscos: Raul Meneleu

Leonardo Mota
Leonardo Mota (Pedra Branca, Ceará, 10 de maio de 1891 - 2 de janeiro de 1948) foi um escritor, professor, advogado, promotor de justiça, secretário de governo, tabelião, jornalista e historiador. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Ceará no ano de 1916.

Membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, Leota (era assim que gostava de ser chamado), "cresci nas banhas e encurtei no nome." Era um nome requisitado para proferir palestras para platéias de estudiosos e interessados folcloristas. Era também um animador de rodas de amigos e intelectuais da antiga praça do Ferreira (coração da cidade de Fortaleza), para essa platéia declamava versos e contava histórias e pequenas anedotas.

Então vamos a mais uma das estórias de Leota: "No Tempo de Lampião"

O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.

Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.

O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…

José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.

Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaretinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:

- Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…

No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.

Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.

Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.

Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.

Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:

- Meu pai, por caridade, descubra logo!

Joaquim Pedro roga que não lhe batam e justifica-se, alegando que logo não disse a verdade por temer a vingança de Silvino, no caso de a polícia o não prender ou matar. E confessa que o celerado está escondido não longe dali.

Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.

Sob as ameaças de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precauções imagináveis, a tropa se aproxima da malta criminosa.

Antônio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debruçava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:

- Espera aí, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta mão!

Mas o fogo irrompeu violento e sem intermitências, dos dois lados.

Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Teófanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.

Coisa bem diversa se passava. Silvino fora atingido por uma bala nas espáduas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.

Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo não tinha o gosto de botar-lhe as mãos em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabeça.

Impressionado ainda mais com o trágico fim do último assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, João Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da denúncia, lhes não perdoaria.

De repente, batem à porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate é Antônio Silvino, João Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. É sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.

Ao se abrir a porta, aparece, à luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino está escorado no portal.

- Capitão, que horror é este?

- Mataram-me… arqueja aquele que, acovardado, começava a expiar crimes sem conta.

Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a polícia. Vai alguém a Taquaretinga, mas não encontra lá os soldados. Na confusão em que todos se viam, ninguém a princípio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. À mulher de João Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate à porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que é Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro dá contas de sua incumbência: vem avisar que Antônio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, está em casa de João Vicente e quer entregar-se à prisão. O Alferes Teófanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, porém, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se dispõe a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos cós e advertido de que receberá uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.

Carcada com cautelas a morada de João Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a mísera situação daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sertão! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se não fizesse o menor mal a Antônio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.

Fôra destronado o Átila bronco que, durante dois decênios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava não ser passarinho que morasse entre grades… Por trinta anos ia se fechar atrás dele o portão da Penitenciária de Recife!

Foi à tenacidade do Sargento Alvino, à sua argúcia e vontade firme de vingança que se deveu a prisão de Antônio Silvino. Forçoso é, porém, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscrição duma mulher.

Acontecerá o mesmo, algum dia, a Lampião? Até na ruína dos cangaceiros terá aplicabilidade o cherchez la femme?*

Cherchez la femme é uma frase em francês cuja tradução literal é "procure a mulher". A expressão vem do livro de 1854 Les Mohicans de Paris de Alexandre Dumas, pai. [1] Na passagem original, lê-se

Il y a une femme dans toute les affaires; aussitôt qu'on me fait un rapport, je dis: 'Cherchez la femme'.

Cuja tradução para português é:

Há sempre uma mulher envolvida em todos os casos. Assim que me trazem um relatório, digo logo: 'Procurem a mulher'.

A frase resume um lugar-comum das histórias de detetive: não importa qual seja o problema, o motivo é quase sempre uma mulher. É normalmente usado com o sentido de 'procure a raiz do problema'.