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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O VOO DO CARCARÁ



O VOO DO CARCARÁ NA ABERTURA DO CARIRI CANGAÇO FLORESTA 2017



*Rangel Alves da Costa



Quando, na noite de abertura do Cariri Cangaço Floresta 2017, a mestre de cerimônia Ana Gleide Souza Leal anunciou uma evolução com bailarinos, creio que denominada “O Voo do Carcará”, logo meu pensamento arribou céus acima para, pelas caatingas e carrascais ensolarados, avistar aquela ave tão emblemática e tão sertaneja.
Carcará, bicho carnicento, ave agourenta, bico de punhal afiado, rasgante em rasante, seu fio da mardade sem fim. Tu, devorador de agonias, devastador de sopros de vida, furador dos olhos de borregos, bezerrinhos e crias sem mais força de nada. Em rasante chega, matreiro, oculto, traiçoeiro feito a moléstia, dos escondidos além dispara com sua lâmina no bico. Fio da gota serena és tu marvado carcará!
Vai-te pra lá bicho dos quintos, assombramento que se regozija dos sofrimentos e das desvalias. Das secas fazendo o prato, das fraquezas estiradas fazendo sua gula. Sozinho faz sua guerra, tudo destrói, fura, pinica, faz a sangria, deixa a vida esvaída pelos campos esturricados. Que se imagine trazendo nas sombras o urubu, o gavião, a mãe-da-lua?
Mas ali na calçada do Batalhão, no espaço largo da cerimônia, apenas a poesia. E não haveria alegoria mais acertada que aquele voo do carcará. Ora o carcará é bicho com a mais acabada feição do sertão sofrido, do sertão padecente, do sertão chorando sua dor pelos esquecimentos das nuvens prenhes de chuvas. Ali era festa, ali era alegria, ali era comemoração, mas não se poderia esquecer aquele outro sertão. E o outro sertão estava ali no voo do carcará.
Dois bailarinos. Um rapaz e uma moça, dois belos sertanejos. Quando anunciados e chamados por Ana Gleide, os passos pela calçada até que ele se deitou. Ele deitou em posição dorsal, ela sentou-se sobre o seu peito e assim permaneceram alguns instantes. Quando a voz de Zé Ramalho começou a ecoar, então a música Carcará (de João do Vale e José Cândido) abriu as porteiras daquela misteriosa arapuca. O carcará estava solto. Ou os carcarás estavam soltos. E voaram. E voaram. E fizeram da noite florestana, ante uma plateia tomada de encantamento, um ensolarado céu nordestino, ainda que em noite de lua e flor.
Na evolução dos bailarinos, seguindo de canto a outro, ora se esgueirando ora se fartando de avidez, o carcará procurando o melhor momento para alçar seu voo. E que coisa mais linda: o voo do carcará. Dois carcarás em pleno voo na noite florestana. Ele, o bailarino, rente ao chão sertanejo, e ela, a bailarina, planando pelo céu sertanejo. Braços abertos, asas abertas, um horizonte à frente, e o voo. Eles magistralmente voaram em simbolismo, maravilhosamente voaram na fantasia por todos conhecida. E temida.
Os sertões aplaudiram aqueles carcarás da noite florestana. Mas o sertanejo puxou na memória outros significados menos festivos. O bicho carcará em voo rasante, voraz, veloz, medonho, cego, porém certeiro, em direção à cria já em seu último suspiro. Fura os olhos do bicho, do resto de luz faz jorrar o sangue, do sopro de vida faz surgir o último suspiro. E depois futuca mais, bica, apunhala, retorce até desnudar as vísceras. Mas o sertanejo não estava ali para entristecer, somente para aplaudir aquela magnífica apresentação.
Ainda os vejo em voo, voando, voando. Ainda ouço o som vindo naquela direção: “Carcará lá no sertão é um bicho que avoa que nem avião. É um pássaro malvado, tem o bico volteado que nem gavião. Carcará quando vê roça queimada sai voando, cantando, Carcará vai fazer sua caçada. Carcará come inté cobra queimada. Quando chega o tempo da invernada o sertão não tem mais roça queimada Carcará mesmo assim num passa fome. Os burrego que nasce na baixada Carcará pega, mata e come. Carcará num vai morrer de fome. Carcará, mais coragem do que home. Carcará...”.
Ainda voa. Pelos sertões ainda voa. E na noite florestana deu um voo tão magnífico que ainda relembro o bater de suas asas. Carcará.


* Escritor

blograngel-sertao.blogspot.com