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quinta-feira, 15 de junho de 2017

LAMPIÃO E O CRUZAMENTO DE INFORMAÇÕES



LAMPIÃO E O CRUZAMENTO DE INFORMAÇÕES
Por Raul Meneleu

O cruzamento de informações às vezes me leva a leituras que não tem nada a ver com o que pesquiso. No final desse alfarrábio sob o título O Castiçal, está a matéria de Leonardo Mota, que não tem nada a ver com o que estava vendo. Resolvi reler (é a terceira vez) o famoso livro do Padre Frederico Bezerra Maciel "LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO" - agora o fazendo, buscando maiores informações sobre eventos relatados. 

Logo no início, na introdução, deparo com um fato registrado pelo autor, a respeito do encontro casual que teve com um ex-cangaceiro de Lampião, na cidade do Recife, capital de Pernambuco. Ele nos conta através de seu livro que em dias não precisos do ano de 1969, em determinada fila de parada de ônibus do Recife, ele encontrou "um caboclo alto, setentão, desempenado, chapéu de massa de copa achatada, abas largas e longo barbicacho, não apresilhado ao queixo, mas solto sobre o peito, terno de brim cinza mal passado, alpercatas de rabicho, sobraçando surrada pasta de couro envernizado de preto. Era ele homem despachado e muito falante. Principalmente de coisas do sertão. Chamava-se José Pereira da Cunha.

De sua boca, saíam, de espontâneo e aos borbotões, tipos e costumes sertanejos. Desfilavam coronéis e políticos, oficiais de polícia e cangaceiros famosos, capangas e rebeldes, todos explodindo em questões, decididas em emboscadas e tiroteios, vinganças e mortes: Sinhô Pereira, Lampião, Zé Pereira de Princesa, Capitão Zé Caetano, Major Teófanes, a briga entre Pereiras e Carvalhos, a Coluna Prestes... De entremeio, a vida e os cenários das localidades abertas nas vastidões das catingas varzeadas, ou demorando assentadas nas serras verdejantes: Vila Bela, Princesa, Triunfo, Água Branca... A fim de entrevistá-lo, convidei-o a passar dias inteiros comigo, em minha residência. Não foi fácil a entrevista, dado o enfraquecimento de sua memória, confundindo datas, misturando fatos.

Em resumo, a sua biografia:

1890. 10 de agosto, nascimento na vila de São Francisco, hoje Pajeú, no município Vila Bela (Serra Talhada). Primo legítimo do ten.cel. reformado Manuel Neto, seu muito amigo, cuja relação de parentesco demonstrou.

1911. 3 de fevereiro, durante um forró, matou, em própria defesa, um rival seu, numa questão de amor. Preso, cumpriu sentença.

1918. Durante dois anos esteve como empregado e cabra de Zé Saturnino, seu parente pelo lado paterno.

1920. Tomou parte, em março, na terrível batalha da Lagoa da Lage, contra Antônio Matilde. Desavindo-se com Zé Saturnino, entrou no grupo de cangaço de Sinhô Pereira, também seu parente pelo lado materno. Participou, então, de vários tiroteios, sendo seu batismo de fogo na vila de São Francisco.

1922. Quando Sinhô Pereira, tendo de abandonar o cangaço, passou o grupo a Lampião, trocou o nome para José Roberto e ficou com o novo chefe, que lhe impôs o apelido de "Ventania", aliás, bem definindo seu espírito volúvel, aventureiro, oportunista. Participou do espetacular assalto à Água Branca, da batalha de Serra Grande...

1926. Em começos de janeiro, deixou o cangaço. Entre 8 e 9 de março, desprecatado caminhava por um trecho de estrada do sertão paraibano, quando foi agarrado pelo destacamento do Capitão Negrão, da Coluna Prestes, e nela forçadamente integrado. Compartilhou das etapas sangrentas de Piancó e Umburanas... e nas catingas do Navio, compartiu dos "açoites danados", com bala, aplicados "por não sei quem", mas, ao depois veio a saber que "era Lampião".

Na travessia do rio São Francisco conseguiu fugir. Passou certo tempo na serra de Triunfo, nos laboros da agricultura. Seguiu para Pilões de Orós, no Ceará, onde trabalhou, como cassaco, na construção de uma estrada de rodagem. Daí, "me danei no oco do mundo", disse ele, sem rota nem documento algum, a pé por miseráveis caminhos e arrastadores, de canoa pelos rios e a nado pelos igarapés, dormindo trepado nas árvores por medo de onças, comendo o que conseguia.

No rio Amazonas pegou um "gaiola" e foi bater em Letícia, no Peru. Até aí já fazia três meses vinha viajando. Como não entendesse a fala (talvez o quíchua) dos viventes que encontrou no lado peruano, voltou imediatamente à Tabatinga, no lado brasileiro, onde em um navio argentino e a troco de um "trabalho de bicho" desceu o Amazonas, indo bater em Rosário, na Argentina. Ali aprendeu a arte da ortopedia. No navio brasileiro "Santarém" embarcou, chegando ao Recife no começo de outubro de 1930.

1930. Vivia, sossegado, trabalhando em uma oficina instalada na Praça Joaquim Nabuco, quando foi surpreendido por soldados que o pegaram a fim de ajudar no ataque ao sublevado Quartel do Dérbi. Através de interessantes peripécias, chegou ao cômico de se autopromover a sargento e, por fim, a ser nomeado investigador de polícia, cargo de que foi logo demitido por estripulias.

1935. Na cabeça de ponte de Afogados, em Recife, defendeu a ordem e a lei, durante o levante comunista.

1940. Até esta data, continuou empregado na mesma oficina, passando daí em diante a trabalhar por conta própria em sua residência, vindo a falecer a 10 de agosto de 1972.

Procurei investigar o que havia de verossímil em tudo isso."

Daí então o Padre Frederico, queria focar sua história somente em Lampião e como dissesse: "deixo esse cangaceiro Ventania, para os pesquisadores tomarem conta e nos diz: "Logo, porém, desisti ante o que, rapidamente, notei: esse cangaceiro representava apenas uma gota d'água no mundo de Lampião. O interessante mesmo era Lampião. Nisso quando, me lembrei de uma grossa pasta de depoimentos e anotações tomados em nove anos vividos no sertão.

Propriamente não começou assim...

Mas, sim, de quando eu tinha doze anos de idade. Daí até os quinze anos, tinha eu lido três vezes "Os Sertões", de Euclides da Cunha. Livro que lastrou, em definitivo, as tendências do meu espírito: estudos históricos, sociais, psicológicos, literários...
De passagem: entre as muitas leituras que, naquela época, fazia na apreciável biblioteca de meu pai, acrescente-se a magnífica coleção da Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco. Outro fator concomitante, de influência decisiva: a figura — fantasma e lenda — de Lampião, sempre pairando ameaçador sobre a cidade de Pesqueira, naqueles tempos boca do sertão. Intrigantes dúvidas assaltavam-me o espírito de adolescente:

— quem seria aquele homem tão valente e poderoso? — herói ou bandido? — por que ficou ele assim? — por que o perseguem? Impressionava-me, vivamente, quando trens ex-pressos passavam, à ilharga da cidade, apitando doidamente, cheios de forças volantes, equipadas, lançando, de corneta, toques de guerra — a Guerra de Lampião!... "

Para encurtar a história e me levando mais a frente, o que me interessou nesse relato foi quando na biografia iniciante do velho cangaceiro Ventania, o Padre foca em 1920 e diz que ele tomou parte, em março, na terrível batalha da Lagoa da Lage, contra Antônio Matilde e PAN! Recebo aquele estalo. Está aí o meu interesse maior! Que batalha da "Lagoa da Lage" era essa?

Vou para o computador e digito "batalha da Lagoa da Lage" e surge uma informação indicando o livro "A derradeira gesta: Lampião e nazarenos guerreando no sertão" de Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros. Abro o livro e leio:

"Como os sertanejos tanto temiam a força do destino e as reviravoltas da vida, Antonio Matilde, que em 1910 se juntara a Casimiro Honório para, em nome da lei, destruir José de Souza, dez anos depois, viúvo, casando-se com uma prima de Virgulino Ferreira, tratara de um irmão deste quando ferido num dos primeiros confrontos com José Saturnino.

Ligado por parentesco ao povo dos Ferreira, Matilde sofreu vexames por parte de uma volante que ia na batida de Sinhô Pereira. Em 1920, agora como um fora da lei, engrossa, com Virgulino e Antonio Ferreira (já residentes em Alagoas) o grupo que volta a Pernambuco para a vingança contra José Saturnino e os Nogueira, que viviam entre o Pajeú e a ribeira do São Domingos. Incendiando as fazendas Serra Vermelha, Lemos e Pedreira, os grupos de Virgulino Ferreira e de Antonio Matilde mataram muito gado de José Saturnino, do cunhado e do sogro, os Nogueira. Saturnino apelou para seu tio - o velho Casimiro Honório, que se deslocou do Navio com a cabroeira, em socorro do sobrinho, na região do Pajeú. Dessa maneira o mais famoso valentão do Navio confrontou-se com os Ferreira impondo-lhes fragorosa derrota no Combate da Lagoa da Lage.

Na ocasião Honório falou aos parentes da tristeza de combater o "Compadre Matilde", antigo companheiro de lutas contra José de Souza, mas se submeteu ao código das obrigações de parentesco, indo em defesa do sobrinho. Nessa batalha aplicou os conhecimentos de guerrilha, atacando ferozmente os oponentes, tendo da luta saído ferido Antonio Matilde, que abandonou o cangaço e se mudou para a Paraíba não mais voltando a Pernambuco.

Esse também foi o último combate de Casimiro Honório, que morreu dois anos depois, em 1922, sem ter o sangue derramado, dormindo eternamente à sombra das catingueiras; o espírito tangendo o gado, o aboio solto no vento, os calos das mãos rugosas se desfazendo no encrespamento das águas do riacho do Navio.

O valente José de Souza teve um fim muito adverso, embora não tenha tombado no campo do combate que consumiu sua juventude, enfrentando Casimiro Honório. Essa história fica para outra hora.

Nesse ínterim enquanto lia partes do livro A DERRADEIRA GESTA para encontrar o Combate da Lagoa da Lage, encontrei um indicativo da autora, ao jornalista e escritor Leonardo Mota, que transcrevo abaixo, mostrando alguns acontecimentos que marcaram a perversidade de Lampião, e que existem contraditórios, embora saibamos que algumas sejam verdadeiras. Se não fosse trágico e cômico ao mesmo tempo, daria boas risadas. Vamos ao artigo de Leota, como o chamava carinhosamente a escritora Rachel de Queiroz

O CASTIÇAL
Leonardo Mota

Quando Lampião ocupou a povoação baiana de Abóboras, teve a fantasia de exigir que lhe trouxessem e a seus cabras onze mulheres amigadas. A localidade não contava com tal número de concubinas, pois graças à ação dos padres no confessionário e no púlpito, vão rareando os amancebados.

Ele satisfez-se com as três ou quatro que lhe foram levadas e condescendeu em deixar em paz as matronas e donzelas. Formou, em seguida, um samba orgíaco, todos os figurantes em trajes paradisíacos, como é de seu gosto.

Os bandidos, sem exceção de um só, ficaram completamente bêbados. A povoação possui algumas dezenas de homens válidos, vigorosos. Se oito ou dez desses homens se dispusessem, já não digo a matar os onze cangaceiros, mas a amarrá-los e prendê-los, isso teria sido conseguido, pois no estado de embriaguez em que os criminosos se encontravam, quase nula reação haveriam de opor. Mas, este nome LAMPIÃO é o espantalho de milhões de almas no sertão nortista!

Pouparam-no em Abóboras. Dias depois, no lugar "Carro Quebrado", ele praticava a infâmia de fuzilar nove homens indefesos que trabalhavam numa estrada de rodagem. E liquidava, a faca, os sete soldados do destacamento de Queimadas, de cujo comércio extorquiu vinte e quatro contos de réis. Nessa última façanha ignóbil, culminou a sua perversidade. Apanhados de surpresa, os soldados se lhe haviam rendido, sem resistência. Lampião meteu-os num cubículo e, ao escurecer, de um em um, os fez retirar para o oitão da cadeia.

— Sabe que vai morrer? Perguntava ao que chegava. O infeliz pedia-lhe compaixão, em súplicas da maior humildade, em rogos da maior angústia. Fingindo-se apiedado, ele ordenava:

— Pois, então, tire as suas perneiras, que eu preciso delas.

Quando o desgraçado se curvava para as desabotoar, traiçoeira punhalada pelas costas o prostrava. E Volta Sêca ia sangrando na garganta os apunhalados. (Um parêntese. Volta Sêca é o benjamim da horda, quase uma criança. Não tem dezoito anos. Verdadeiro criminoso nato, vive carrancudo, alegrando-se apenas quando dá expansão aos instintos sanguinários. Chama a Lampião de "padrinho" e este o considera o seu "menino de con-fiança").

Ainda em Queimadas, após haver dado liberdade aos presos sentenciados, Lampião insultou estupidamente o Juiz togado, a quem chamou de "negro" e obrigou a servir-lhe água e café ... Virgolino nada põe à boca, sem que obrigue a pessoa que lhe apresenta a comida ou bebida a servir-se primeiro.

— Veneno pra eu véve por aí banzando! costuma repetir, precavido contra qualquer traição. No sertão pernambucano, uma mulher pretendeu envenená-lo. Lampião convidou-a a beber da cachaça em primeiro lugar. Ela desculpou-se, alegando que estava purgada. Virgolino tirou do embornal urna colher de prata e meteu-a no copo. A colher enegrece. Lampião percebe a cilada, agarra pelos cabelos a ousada sertaneja, amarra-a ao tronco de uma árvore, embebe-lhe de querosene as vestes e queima-a viva, desfechando-lhe, por fim, um tiro de misericórdia no seio estorricado.

A fruir a sua liberdade, com a sorte inaudita de sempre despistar os que o procuram, gosta ele de fazer picardias aos agentes do Governo. Na noite em que surpreendeu com a sua presença os frequentadores do cinema de Capela, em Sergipe, dirigiu-se, a desoras, ao Posto Telefônico e obrigou o respectivo funcionário a chamar, na Capital, o Chefe de Polícia do Estado. Informaram de Aracaju que, àquela hora, quase madrugada, o mencionado auxiliar do Presidente Manuel Dantas estava a dormir em sua residência, sendo impossível a ligação solicitada. Lampião riu-se e deixou-lhe um recado atrevido e grosseirão, atenuado com o reparo trocista de que a polícia dormia, enquanto ele velava e fazia ronda...

São inumeráveis os fatos em que Virgolino tem patenteado a hediondez da sua alma de monstro. Entre essas práticas infames se inclui a de cortar os beiços dos assassinados, "pra que os defuntos fiquem se rindo"...

O antigo Deputado Federal, Dr. Vergne de Abreu, que esteve no sertão baiano, quando Lampião ali praticava atrocidades inconcebíveis, dá-nos conta, no livro "Os Dramas Dolorosos do Nordeste", de alguns fatos horripilantes, quais sejam o de Virgolino haver castrado quatro rapazes em Tucano, e o de Lampião e quinze cabras haverem, em Baixão do Carolino, cevado sua lubricidade numa virgem, a qual veio a falecer no dia seguinte. O suplício dezesseis vezes sofrido pela infeliz donzela foi testemunhado por sua mãe velhinha, a cujas exortações de piedade para a filha desditosa foram insensíveis os dezesseis demônios.

Outra infâmia de Virgolino foi surrar na fazenda "Fundão" o octogenário Joaquim José dos Santana, em cujas costas o perverso tatuou uma cruz, a punhal, depois de ter cortado os tendões dos pulsos do ancião, para que o mesmo ficasse irremediavelmente aleijado. No sertão baiano, mandou Lampião preparar um ferro, uma marca de gado, com as iniciais V L (Virgolino Lampião) entrelaçadas. Quando uma donzela lhe resistia à luxúria, ele mandava aquecer o ferro. E quando o ferro estava em brasas, ele ferrava nas coxas e nádegas, como reses suas, as virgens sacrificadas, "éguas brabas", no seu repulsivo falar. No interior do município de Curaçá, ele ferrou duas moças que logo lhe não satisfizeram o desejo. Uma delas era noiva e enlouqueceu. Um cabra de Lampião contaminou de mal venéreo a viúva, mãe de ambas.

Dias depois, as três desgraçadas tabaroas chegavam à cidade de Juazeiro. Foi uma cena pungente: a viúva dizia-se desonrada e pedia um remédio pra... morrer; a louca proferia coisas desconexas, em que se baralhavam os nomes do noivo e de Lampião; a outra mocinha, debulhada em lágrimas, chorava o seu infortúnio irreparável.

Do longo capítulo que sobre Lampião escrevi no livro "Sertão Alegre", consta a proeza de Virgolino haver assaltado uma casa em que se festejava um casamento, e obrigado os noivos a dançarem despidos, completamente despidos, na sua presença.

Houve, no Rio, quem duvidasse da autenticidade de semelhante episódio. Objetou-se que, figura legendária, a Lampião deviam ser atribuídas muitas façanhas que jamais lhe passaram pela mente. Entretanto, o fato em apreço é absolutamente verdadeiro. A ele se referiu tambem o poeta popular José Cordeiro, pondo esta confissão na boca de Virgolino:

No distrito Cajazeiras,
Perto do lugar Tatus,
Em um casamentos eu fiz
Os noivos dançarem nus,
E no meio do pagode
Mandei apagar a luz. . .

Eu me encontrava, em agosto do ano passado, nos sertões da Bahia, quando ao "Diário de Notícias", de São Salvador, o Cel. Antônio Soares Monte Santo, fazendeiro em Canudos, concedia uma entrevista sobre acontecimentos desenrolados durante a estada de Lampião em terras baianas. Transcrevo-lhe este trecho:

"— Foi em Pedra Branca. Ali assaltou ele uma casa de família. Armou o samba. Fez quatro mocinhas despirem-se. E tocaram a sanfona. Houve bebidas e o sacrifício das infelizes sertanejas. — Horrível! — Mas verdadeiro. E não foi tudo. Uma emboscada atraiu o subdelegado. Este quis manter-se como autoridade. Foi batido, violentado, vítima de um atentado infame que o levou quase morto ao hospital de Juazeiro".

O primeiro tópico por mim grifado mostra que Lampião é useiro e vezeiro na canalhice de obrigar donzelas a se desnudarem publicamente. O segundo alude a um atentado infame, que certamente o jornalista não se animou a registrar. Faço-o eu, para que se não perca esse documento do espírito demoníaco do até hoje impune flagelador dos sertões: — Lampião forçou o subdelegado de Pedra Banca a ficar nu em pelo, introduziu-lhe uma vela no ânus, acendeu-a depois e, obrigando a vítima a passear pela sala, deixou que a vela quase se consumisse, queimando o pobre homem, em meio às gargalhadas e chacotas da cabroeira encachaçada.

Como não há narrativa trágica que o tabaréu não sublinhe comicamente, o sertanejo que primeiro me garantiu a veracidade desse fato, cuja confirmação tive mais tarde, balançava a cabeça e me dizia:

— Patrão, vamincê vigie só a que é que nossos governos deixam sujeito o pobre sertanejo! vigie só de que é que Lampião anda fazendo castiçal...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A BELEZA DA SANTA CAPELA

Como é bom e agradável que o povo de Deus viva unido como se todos fossem irmãos! - SALMOS 133:1 (NTLH)

Mas quem é o povo de Deus? Você saberia identifica-los? Onde se reúnem? Será que todos os humanos são "povo de Deus"? Ou apenas só os que professam o cristianismo?

Complicado né? Pois se houver alguém que diz que o "povo de Deus" sãos os de sua igreja, vai ter que provar. Você é capaz de provar com bons argumentos?

Quantos "livros sagrados" você conhece? O de sua religião é mais sagrado? É mais autêntico? Foi o único inspirado por Deus?


As imagens mostradas, registrei por ocasião da visita que fizemos à Santa Capela, A Sainte-Chapelle é uma capela gótica situada na Île de la Cité em Paris, construída no século XIII por Luís IX (São Luís). Foi projetada em 1241, iniciada em 1246 e concluída muito rapidamente, sendo consagrada em Abril de 1248. O seu patrono foi o devoto rei francês Luís IX, que a construiu para servir de capela do palácio real.

O restante do palácio desapareceu completamente, sendo substituído pelo atual Palácio da Justiça. Depois de terminada, a Sainte-Chapelle carecia de santificação pela presença de relíquias apropriadas e, assim, obteve-se a coroa de espinhos de Cristo, obtidas do imperador latino de Constantinopla, Balduíno II, pela exorbitante soma de 135.000 libras. Para ter uma ideia de relatividade, a construção de toda a capela custou 45.000 libras.

Além de outras relíquias, acrescentou-se ainda um fragmento da Vera Cruz e, desta forma, o edifício tornou-se um precioso relicário. Consiste de duas capelas sobrepostas, a inferior reservada aos funcionários e moradores do palácio, e a superior para a família real. A ideia de uma capela palaciana se baseou na Igreja da Virgem de Pharos, anexa ao Grande Palácio de Constantinopla, onde estavam as relíquias saqueadas pelo Império Latino durante a ocupação da capital do Império Bizantino (1204 - 1261). - Fonte: Wikipedia.

Aproveitei em muito essa visita, com um misto de curiosidade e admiração pelo monumento histórico, não pude deixar de notar a divisão imposta aos que a frequentavam quando existia reuniões religiosas, ou Missas, A Igreja consiste de duas capelas sobrepostas, a inferior reservada aos funcionários e moradores do palácio, e a superior para a família real. Havia divisão. Também foram comercialmente compradas relíquias para tal ter o ar de sagrado.

Não sendo um religioso, pude observar essas contradições, mas como ser humano que deseja aumentar seus conhecimentos, me manifesto como leigo que lê e ouve, reparando e meditando no que se passa no mundo. Esforçando-me a digerir da melhor forma possível essa curiosidade e privilégio de visitar templos como esse.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Instituto Tobias Barreto



Em pesquisas sobre vultos e personagens sergipanos que conviveram com o Cangaço fui à Biblioteca da Universidade Tiradentes, que tem padrão de primeiro mundo, visitei o Instituto Tobias Barreto, cujo acervo doado por seu fundador Luiz Antonio Barreto, faz parte da enorme e moderna biblioteca da universidade. Já tinha pesquisado e escrito sobre artigos de Luiz Antonio Barreto, que vocês podem ver aqui. 

Fui muito bem recebido pela Professora Rosângela, que após ouvir o meu interesse, o assunto que me tinha levado à biblioteca, gentilmente me levou ao local onde poderia obter os dados procurados. Subimos pela rampa, embora tenha elevadores, para que eu pudesse conhecer melhor o prédio da Biblioteca e seus diversos setores, fomos ao Instituto Tobias Barreto, fundado por esse outro grande Sergipano, Luiz Antonio Barreto.

Quem nos recebeu foi a Bibliotecária do Instituto, Senhora Alda Teresa Nunes, que após as apresentações de praxe, nos despedimos da Professora Rosângela e passamos a conversar sobre os assuntos que me tinha levado ao encontro do acervo de Luiz Antonio Barreto

Foi uma manhã maravilhosa, onde o conhecimento da Professora Alda Nunes aflorou de maneira poderosa. Marcamos outra visita, onde Ela irá conversar com a Curadora do Instituto Tobias Barreto e obras de Luiz Antonio Barreto, sua digníssima esposa, a Senhora Railane Barreto, para que possamos verificar determinados assuntos que não ficaram claros na pesquisa. 

Com um acervo que inclui mais de 25 mil itens na forma de livros, fotografias, arquivos digitais e audiovisuais, o ITB (Instituto Tobias Barreto) foi reinaugurado no dia 7 de novembro, às 19h, no segundo andar da biblioteca central da Unit (Universidade Tiradentes), na Farolândia.

Luiz A. Barreto - Pintura Charles Henry
Tobias Barreto (foto Wikipedia)
O instituto mantém registros históricos nacionais e até latino-americanos, mas boa parte do acervo é voltada para a história local. São trabalhos acadêmicos, livros, fotografias do cotidiano sergipano – e até trabalhos de pesquisa feitos pelo próprio instituto, sob a mão de Luiz Antonio Barreto, seu fundador, jornalista, filósofo, sociólogo, historiador, escritor e imortal da Academia Sergipana de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia, falecido em abril de 2012.

Luiz Antonio Barreto (foto Infonet)

Luíz Antônio Barreto (1944-2012) foi diretor do Instituto Tobias Barreto e membro da Academia Sergipana de Letras. Ele foi secretário de Estado da Cultura,secretário de Aracaju da Educação, diretor da Galeria Álvaro Santos, secretário de Educação, assessor do Instituto Nacional do Livro (INL), superintendente e diretor do Instituto de Documentação Joaquim Nabuco, Diretor da Fundação Augusto Franco e Diretor do instituto de Filosofia Luso-Brasileira (Portugal).

Como jornalista, trabalhou no Correio de Aracaju,O Sergipe Jornal, Folha Popular, A Cruzada, Correio de Sergipe, Jornal da Cidade, Gazeta de Sergipe e Revista Perspectiva. Um dos focos do ITB, é a conservação e divulgação da obra de Tobias Barreto. “Um ponto importante do novo espaço do instituto é que o memorial de Tobias Barreto vai ser fixo”, disse o historiador Luiz Antonio Barreto por ocasião da reinauguração do Instituto Tobias Barreto.

Tobias Barreto de Meneses (Vila de Campos do Rio Real (atual cidade de Tobias Barreto, Sergipe), 7 de junho de 1839 — Recife, 26 de junho de 1889) foi um filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro e fervoroso integrante da Escola do Recife, um movimento filosófico de grande força calcado no monismo e evolucionismo europeu. Foi o fundador do condoreirismo brasileiro e patrono da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Mestre Pastinha e a Capoeira Angola

Também chamada de capoeira mãe, o jogo de Angola, é a origem da capoeira, é a modalidade de capoeira que mais se aproxima daquela que seria a “capoeira dos escravos”. A Capoeira Angola é muito manhosa e precisa saber jogar, para entrar numa roda. Cheia de preceitos e regras a serem seguidas, chega a parecer mais uma cerimônia ritualística do que um jogo ou uma luta. Seu toque lento e cadenciado, suas ladainhas tristes e sofridas, conseguem fazer qualquer pessoa se apaixonar por esse jogo. A capoeria Angola é a mais antiga forma de jogar capoeira que existe hoje. Graças a Mestre Pastinha, que praticamente viveu sua vida pela capoeira, ela foi preservada de tal forma que ainda hoje encontramos escolas onde se jogam como se jogava no seculo IX. E todos os mestres “angoleiros” – como são chamados – fazem questão de manter essas tradições e repassa-las aos seus alunos, para que ela não perca as suas raízes. Dentro da capoeira angola não há espaço para inovações ou mudanças porque se isso ocorresse estaria ferindo as suas características deixando de ser o jogo uma manifestação cultural que deu início à tudo o que se refere a capoeira hoje. Por tanto a capoeira angola deve ser mantida como ela é e sempre foi. Por isso de ser chamada de a capoeira Mãe.


A origem do nome

Provavelmente o nome capoeira angola (não se confuda com “capoeira angolana” que nada mais seria do que a capoeira introduzida em Angola por brasileiros) tenha surgido pelo fato de o principal porto onde atracavam os navios negreiros se localizava em Angola e para os portugueses, qualquer negro trazido ao Brasil era normalmente considerado de Angola. Isso deve ter permanecido até depois da abolição, quando os negros assim libertos mas colocados em condição desfavorável, tiveram que escolher entre trabalhar para os seus antigos donos, agora patrões, ou cair na marginalidade. E assim, ainda depois da abolição continuaram a ser tratados como “negros de Angola”. Provavelmente nesse período os ex-escravos já praticavam o que daria origem a capoeira angola com não muito, mas já com alguma liberdade, pelas ruas e campos. Coisa que aos olhos dos colonizadores seria visto como uma vadiagem ou um jogo de negros, jogo dos negros de Angola ou simplesmente jogo de Angola. Como o termo capoeira já existia desde a época dos quilombos para designar um escravo que fugia, um escravo podia muito bem ser chamado de “capoeira de Angola.”
A capoeira angola é quase ritualística, cheia de preceitos que devem ser obedecidos com muita atenção. No jogo de angola, os movimentos são lentos, mas traiçoeiros. É um jogo de muita malícia, onde se entende por malícia, a capacidade do capoeira de enganar o seu parceiro fingindo aplicar um golpe e na verdade aplicar outro onde menos se espera e no momento em que menos se espera também. Dentro da capoeira angola esses fatores são fundamentais que só com a experiência se pode conseguir.
Mestre Pastinha dizia que o bom capoeira não suja a roupa e nem perde o chapéu. Não precisa acertar efetivamente o companheiro, mas deve-se parar o pé no momento certo mostrando a este a superioridade em atingi-lo caso assim desejasse.

A bateria de instrumentos apresentada aqui como era na academia de Mestre Pastinha.
- Três berimbaus: gunga, médio e viola;
- Um ou dois pandeiros;
- Um atabaque;
- Um reco-reco;
- Um agogô;

É obrigatoriamente cantada por quem toca o berimbau gunga que geralmente é o mestre. São canções em ritmo de lamento, lembram sempre alguma história, um mestre ou algum fato importante. Serve como introdução para o início do jogo. Durante a ladainha não se bate palmas e não se toca nenhum instrumento com exceção dos berimbaus que entram pela ordem: gunga, médio e depois o viola.

Após a ladainha, o mestre canta a chula que é uma cantiga de pequenas estrofes, onde todos os instrumentos entram e o coro responde. É uma louvação a Deus ou aos mestres presentes e aos que já faleceram. É o famoso “Viva meu Deus / Iê viva meu Deus camará.” A chula é uma preparação para o “corrido.” Quando a chula atinge os versos “Da volta ao mundo camará” os dois capoeiras se cumprimentam saúdam o berimbau com um movimento chamado de “queda de rins” e começam a jogar.

Os corridos são canções no formato pergunta e resposta onde uma pessoa canta e o coro responde.

Durante o jogo podem ocorrer as chamadas, movimentos que servem para testar o parceiro com quem está jogando. Quando se faz uma chamada o parceiro deve ter o máximo de cuidado, pois a chamada é uma armadilha onde se visa surpreender o parceiro. Os Mestres mais experientes fazem chamados como forma de distrair o companheiro e atingi-lo de surpresa. Há vários tipos de chamada: de frente, de costas, sapinho e outras. Se o parceiro não quiser responder a chamada ele deve ir até o pé do berimbau e chamar o seu camarada para uma nova saída.
Na capoeira angola não se compra o jogo, isto é, deve-se esperar que os dois jogadores saiam da roda para que outros dois comecem um novo jogo.

Na Bahia era costume os mestres Angoleiros se encontrarem aos domingos na porta de igrejas para jogar a capoeira. Esses mestres vestiam-se de terno de linho branco e chapéu, como se fossem vestidos para algum evento importante, o que na verdade realmente o era. Era o momento em que sua cultura estava sendo praticada e perpetuada.

Mestre Pastinha foi o maior divulgador da capoeira angola. Praticamente viveu sua vida inteira pela capoeira. Implementou métodos de ensino, fundou a primeira academia de capoeira chamada de C.E.C.A, o Centro Esportivo de Capoeira Angola e foi convidado para ir até a África mostrar a nossa arte. Pastinha partiu deste mundo em 13 de novembro de 1981, deixando muitos discípulos entre eles, Natividade, Bola Sete, Boca Rica, Gildo Alfinete, Meio Quilo, Colmenero, João Pequeno, João Grande, Malvadeza, Curió, entre outros, que continuaram a ensinar e fizeram com que o jogo permanecesse até hoje tradicionalmente como era antigamente com todas as suas tradições e rituais e como na verdade deve ser.

A lição do velho Benedito

Conforme as palavras do próprio mestre que dizia ter aprendido a capoeira com a sorte...

Mestre Pastinha
"Quando eu tinha uns dez anos - eu era franzininho - um outro menino mais taludo do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua - ir na venda fazer compra, por exemplo - e a gente se pegava em briga.

Só sei que acabava apanhando dele, sempre”. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano de nome Benedito, que sempre assistia as lutas de pastinha disse: “Vem cá, meu filho. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. Foi isso que o velho me disse e eu fui".

Este foi o início de mestre Pastinha na capoeira. Vicente Ferreira Pastinha nasceu em cinco de abril de 1889. Fruto da união entre um espanhol, José Señor Pastinha e de uma baiana, Eugênia Maria de Carvalho, nasceu na Rua do Tijolo em Salvador, Bahia.

Depois que o menino conheceu o velho Benedito, passou a frequentar a sua casa todos os dias, treinando e aprendendo as mandingas dos escravos, até que certa vez se encontrou com seu rival mas desta vez foi diferente. Pastinha acabou levando a melhor deixando o menino no chão e sem entender nada. Dizem os relatos que acabaram tornando-se amigos depois.

Durante esse período, o menino pastinha também frequenta o Liceu de Artes e Ofício, onde aprende entre outras coisas a arte da pintura. Em 1902 Pastinha entra para e escola de aprendizes marinheiros, onde passaria oito anos de sua vida. Lá ele ensina a arte da Capoeira aos seus colegas e aprende também a arte da esgrima e a tocar violão. Em 1910, deu baixa na marinha, com 21 anos, resolvido a se dedicar à pintura e ao ensino da capoeira (às escondidas porque a capoeira ainda era proibida pelo código penal), neste período começa a ensinar o seu primeiro aluno: “Raimundo Aberrê”, que conforme mestre Pastinha ia todos os dias à sua casa aprender a capoeira. De 1913 a 1934, Mestre Pastinha se afasta da capoeira devido à forte repressão da época que mantinha a sua prática na ilegalidade. Nesse tempo, mestre Pastinha que sempre desejou viver da sua arte, teve que trabalhar como, pintor, pedreiro, entregador de jornais e até tomou conta de casa de jogos. Este último relatado por ele próprio: 

“Passei a tomar conta de casa de jogo. Para manter a ordem. Mas mesmo sendo capoeirista eu não descuidava de um facãozinho de doze polegadas e de dois cortes que trazia comigo. Jogador profissional daquele tempo andava sempre armado. Assim quem estava sem arma nenhuma no meio deles bancava o besta. Vi muita arruaça, algum sangue, mas não gosto de contar causos de briga minha.”

A primeira academia

Em 1941 Mestre Pastinha é convidado pelo seu antigo aluno Aberrê a assisti-lo numa roda no bairro da Gengibirra, onde segundo o mestre, era um ponto de encontro dos maiores mestres de capoeira da Bahia. “Lá só havia mestre, não tinha alunos” – dizia Pastinha. Aberrê disse que perguntaram quem tinha sido seu mestre e ele dizendo o nome de Pastinha mandaram chamá-lo ao qual Aberrê imediatamente o fez. Ao chegar à roda, Pastinha foi apresentado para um mestre conhecido como “Amorzinho”, um guarda civil que tomava conta da roda e imediatamente entregou o berimbau e a responsabilidade para o mestre. Estavam lançadas as sementes do que seria a primeira escola de Capoeira Angola. Foi fundado então o CECA, Centro Esportivo de Capoeira Angola, nome dado pelo próprio mestre, localizado no Largo do Cruzeiro de São Francisco. Após a morte de Amorzinho, em 1943, o centro foi abandonado por todos os mestres, mas mesmo assim Pastinha continuou.

Em fevereiro de 1944 há uma reorganização e em 23 de março do mesmo ano vão para o Centro Operário da Bahia. Em 1949, num domingo Pastinha foi convidado por dois camaradas para ver um terreno na fábrica de sabonetes Sicool no Bigode, onde recebeu o apoio e auxilio dos moradores. O centro ali se instalou e foram feitas as primeiras camisas em preto e amarelo, cores inspiradas no Clube Atlético Ypiranga, clube muito querido pelo mestre e pelas classes sociais mais populares de Salvador. Uma das curiosidades dessa época é que Mestre Pastinha, avaliando cada um dos seus alunos, fazia um desenho na camisa, conforme os seus movimentos mais característicos.

Enfim o reconhecimento

Finalmente em 1° de outubro de 1952 o CECA foi oficializado. Veja o artigo original abaixo:

“O Centro Esportivo de Capoeira Angola, fundado a 1° de Outubro de 1952, com sede na cidade de Salvador, Estado da Bahia, é constituído de número limitado de sócios, tem a finalidade de ensinar, difundir e desenvolver teórica e praticamente a capoeira de estilo genuinamente “Angola”, que nos foi legada pelos primitivos africanos aportados aqui na Bahia de Todos os Santos.”

Em maio de 1955, o CECA muda de endereço e vai para o Largo do Pelourinho n° 19, onde permaneceu por 16 anos. Durante esse tempo Mestre Pastinha ficou muito conhecido chegando a ser entrevistado por jornais e revistas importantes da época. Sua academia recebia visitas ilustres como, Jorge Amado, o ilustrador Carybé, o filósofo Jean Paulo Sartre, o ator Jean Paul Belmondo, além de turistas de todo o Brasil.

Em cinco de julho de 1957, Mestre Pastinha apresenta a capoeira angola com seus alunos no festival Bahiarte, na Lagoa do Abaeté onde ocorre o seu primeiro encontro com Mestre Bimba. Os dois demonstraram passividade e respeito um pelo outro, deixando transparecer que a rivalidade entre os angoleiros e regionais, era criada pelos alunos e não pelos Mestres. O CECA ainda foi apresentado em vários outros estados, como, Pernambuco, Minas-Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

Mestre Pastinha e Jorge Amado
Em 1964 o Mestre publica o seu livro intitulado “Capoeira Angola”, onde o escritor Jorge Amado teve o prazer de escrever:

“... mestre da Capoeira de Angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda a sua picardia, é um dos seus ilustres, um dos seus abas, de seus chefes. É o primeiro em sua arte. Senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal. Em sua escola no pelourinho, Mestre Pastinha constrói cultura brasileira, da mais real e da melhor...” 

Além do livro, o mestre gravou também um disco com cinco faixas. O disco intitulado “Pastinha Eternamente”, conta com depoimentos na voz do próprio mestre e músicas de capoeira, cantadas por Mestre Traíra. Este disco é simplesmente uma raridade e está disponível para download na internet. No final do post disponibilizarei o link para o download. 

Em abril de 1966, integrou a delegação brasileira no 1° Festival de Artes Negras, no Senegal, Dakar na África, onde recebe várias homenagens e confirma que na África não existe qualquer coisa que se pareça com a nossa capoeira. Com todo esse destaque Mestre Pastinha começa a receber o apoio de várias instituições governamentais até que em 1971 o destino (ou o sistema) lhe pregaria uma grande peça.

O golpe, a ingratidão,  o descaso

Em 1971 aos oitenta e dois anos de idade, Pastinha já quase cego por causa de uma catarata, é obrigado pela prefeitura a se retirar do casarão, que entraria em reformas, com a promessa de que assim que estivesse pronto poderia voltar. E voltou?
Mestre Pastinha teve então que se mudar. Foi morar na Rua Alfredo Brito n° 14 no Pelourinho, em um quarto escuro, úmido e sem janelas. Único lugar que dava para pagar com o mísero salário que recebia da prefeitura, já que não podia contar mais com o dinheiro das aulas. Ainda na mudança, foram perdidos muitos móveis, quadros que o mestre pintava e fotografias, que juntos hoje, constituiriam um grande acervo cultural da nossa história.
Para piorar o prédio foi doado para o Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho que posteriormente o vendeu para o SENAC que transformou o prédio em um restaurante. 
Este foi um dos maiores absurdos praticados contra a nossa cultura. Mestre Pastinha foi usado, enganado e abandonado.

Tristeza

Após a mudança e a perda de sua academia, Pastinha entra em uma profunda depressão e em 1979 com 90 anos é vítima de um derrame cerebral, que o levou a ficar internado por um ano em um hospital público. Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado.
  
No dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, o Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da capoeira angola, mas o mestre da filosofia popular. O menino fraco e magrinho que conquistou o respeito e admiração do mais forte.


A estrela ainda brilha

Mestre Pastinha foi um dos maiores ícones da cultura do Brasil. Dedicou sua vida inteira em favor da nossa cultura, ajudou a tirar a capoeira da ilegalidade e a colocá-la no seu devido lugar como prática esportiva e cultural, preservou e divulgou a nossa arte até fora do país, ensinou jovens e adultos a enxergar a vida de uma forma simples, mas nobre. Mestre Pastinha foi uma estrela que veio para a terra em forma de homem, para nos ensinar a filosofia da simplicidade, mas teve que voltar ao céu, pois o seu brilho já não cabia mais aqui em um lugar tão pequeno. Um homem que transformou e formou crianças em grandes adultos e fez os mais velhos brincarem como crianças, literalmente de pernas pro ar.

Os frutos

Os mais antigos discípulos do mestre em atividade são: Mestre João Pequeno, que reabriu o CECA um ano depois da morte de Pastinha, no Forte de Santo Antônio do Carmo e Mestre João Grande, que reside em Nova York desde 1990, onde ensina capoeira para pessoas do mundo todo.
Hoje a memória de Mestre Pastinha continua viva nas rodas de capoeira que se espalharam pelos quatro cantos do mundo. E em cada uma dessas rodas, onde são entoadas as ladainhas da Capoeira Angola, Mestre Pastinha está lá.

Obras póstumas

Em 2000 foi lançado em VHS um documentário sobre a vida do mestre chamado “Pastinha uma vida pela capoeira”, sendo relançado em DVD em 2009 com extras inéditos e disponível em vários idiomas. O DVD pode ser encontrado em lojas de artigos para capoeira e nas melhores livrarias.

Artigos relacionados:

Pensamentos de Mestre Pastinha em sua visão filosófica.

da arte da Capoeira Angola. Aqui estão alguns fragmentos de documentários e entrevistas com o mestre, que revelam o conhecimento e o amor que ele manteve pela Capoeira e pela nossa cultura durante toda sua vida. Simplesmente um dos maiores ícones da história.

“Eu me chamo Vicente Ferreira Pastinha. Eu nasci pra capoeira, só deixo a capoeira quando eu morrer. Eu amo o jogo da capoeira. E não há outra coisa melhor na minha vida do que a capoeira.” 

“Eu sou um dos exemplos do passado. Aqui tem muitos veteranos, velhos mesmo, capoeirista veterano, mais idoso do que eu. Menino das meninas dos meus olhos... Capoeirista.”

"Ninguém pode mostrar tudo o que tem às entregas e revelações. Têm que ser feito aos poucos. Isso serve na capoeira, na família e na vida. Há momentos em que não podem ser divididos com ninguém e nestes momentos existem segredos que não podem ser contados à todas as pessoas".

“Capoeira é muito mais do que uma luta, capoeira é ritmo, é música, é malandragem, é poesia, é um jogo, é religião. (...) A capoeira é tudo que a boca come”.

“Pratico a verdadeira Capoeira Angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos. A lei de Angola que herdei de meus avós é a lei da lealdade. A Capoeira Angola, a que aprendi, não deixei mudar aqui na Academia. Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles agora são os meus.”

“O que eu gosto de lembrar sempre é que a capoeira apareceu no Brasil como luta contra a escravidão. Nas músicas que ficaram até hoje se percebe isso. Entenda quem quiser, está tudo ai nesses versos o que a gente guardou daqueles tempos.”

“Mas o que serve para a defesa também serve para o ataque. A Capoeira é tão agressiva quanto perigosa. Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar, eu me lembrava do Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira e queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo.”

“Quem não sabe lutar é sempre apanhado desprevenido. Agora que o ritmo está mais apressado, sinto a agilidade desses dois homens e imagino raiva, medo, despeito, desespero empurrando esses pés... uma vez vi um capoeirista afugentar uma patrulha inteira.”

“Não se pode esquecer do berimbau. Berimbau é o primitivo mestre. Ensina pelo som. Dá vibração e ginga ao corpo da gente. o Conjunto de percussão com o berimbau não é arranjo moderno, não, é coisa dos princípios. Bom capoeirista, além de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar.”

“Meus meninos são diplomados. Saem daqui da Academia sabendo tudo. Sabendo que a luta é muito maliciosa e cheia de manhas, que a gente tem de ter calma. Que não é uma luta atacante, ela espera.
Capoeirista nunca dizia a ninguém que lutava. Era homem astuto e ardiloso, como a própria luta, que se disfarçou com a dança para sobreviver depois que chegou de Angola. Capoeirista é mesmo muito disfarçado. Contra a força só isso mesmo. Está certo.” 

“O Capoeirista é um curioso, tem mentalidade para muita coisa, sabendo aproveitar de tudo o que o ambiente lhe pode proporcionar. E a Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa. O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada um.”

“Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um.” 

“E jogar precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão. Quando eu jogo, até pensam que o velho está bêbado, porque fico todo mole desengonçado, parecendo que vou cair. Mas ninguém ainda me botou no chão, nem vai botar.” 

“Os negros usavam a capoeira para defender a sua liberdade. No entanto, malandros e gente infeliz descobriram nesses golpes um jeito de assaltar os outros, vingar-se de inimigos e enfrentar a polícia. Foi um tempo triste da capoeira.” 

“Eu conheci, eu vi. Nas bandas das docas... luta violenta, ninguém a pôde conter. Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da Capoeira, mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica? E a faca? E os canhões? E as bombas? A capoeira angola parece uma dança, mas não é não. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência.”

"Capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, e sim aquele que se deixa movimentar pela alma".

“Tudo o que penso da capoeira está naquele quadro que está na porta da academia. Em cima só estar três palavras:”

“Angola, capoeira, mãe. E embaixo, o pensamento: ‘Mandinga de escravo em ânsia de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.

FONTE: https://capoeiraexports.blogspot.com.br

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A história das princesas Mariana, Jarina e Rondina


Documentario das Três Irmãs da Turquia. A história das princesas Mariana, Jarina e Rondina da família de Encantados da Turquia.


No estado do Maranhão, nas ilhas dos lençóis, local este abençoado por Deus, e visitado por turistas do mundo todo, é contada uma lenda vinda do oriente médio e região Ibérica.

Conta-se que Dom Sebastião de Portugal na guerra de Alcácer Kibir, confrontou no Verão de 1578, os Mouros de Marrocos, onde foi derrotado e seu corpo desapareceu .
Em Al Kasr Al Kebir, existe uma aldeia que se chama Suakem, foi exatamente o local da batalha , lá se encontra um obelisco em homenagem e memória de El Rei Dom Sebastião de Portugal .

Entre as influências culturais dos Ibéricos e mouros muçulmanos, que por cá se instalaram, estas histórias e lendas foram florescendo no popular 

maranhense.


O Turcos continuaram com seus postos nas cidades do litoral. O conto do Maranhão, é que o Sultão Turco Darsalam, mantinha a esperança de reconquista das regiões perdidas. Sultão Darsalam resolve manter a chama do Sultanato salva com suas Filhas, as princesas Turcas (conhecidas no Brasil): Princesa Mariana – Princesa Erondina – Princesa Jarina.


Que foram embarcadas para um reino amigo, na Mauritânia, mas nunca chegaram e os emissários esperaram por dias, meses e anos . 


Pela viagem conta-se que as princesas passaram pelo estreito de Gibraltar, conhecido como um portal sagrado a outras esferas, deixando o mundo real e material para entrar no mundo encantado . 

No “Rio das Amazonas”, foram despertadas do sono profundo, e encontraram a sacerdotisa Tapuya que chorava a perca de seus filhos: “ Minhas lágrimas são o Rio .....Eu sou a barreira do Mar , Eu sou a Pororoca , Defendo meu povo contra a maldade que chega do mar, mas vocês princesas Turcas podem entrar nestas Terras. " (Recepção da Pororoca )


Os contadores dizem que elas entraram em uma região elevada onde quem entra jamais pode sair.

Estes portais e dimensões existem no popular do Maranhão em:

• Matas

• Espelhos de água
• Rochas
• Cavernas
• Vários locais e países
• Ninguém sabe o local certo, que pode mudar a todo instante quando assim deseja.


Alguns estudiosos do Brasil, se baseiam na existência de alguns fatos históricos que afirmam que, no inicio de 1500 o Espanhol Vicente, visitou o litoral atlântico do Pará e levou uma grande quantidade de escravos indígenas para a Europa, talvez por estes motivos a Sacerdotisa indígena que recebeu as Princesas Turcas, chorava e chora até hoje transformada em Pororoca.

Entre os povos da Amazônia a Pororoca representa 
“Defesa contra estrangeiros“, estes que desejam invadir a cultura e a influência da mata.

Conta-se que a Princesa Jarina, não estava contente com as matas do Pará e se escondeu na Corte de El Rei Dom Sebastião de Portugal, já encantado na Ilha dos Lençóis e a Ilha Maiaú.

Entre a lenda e a realidade cultural se encontra as misturas e verdades históricas.

O Palácio de Dom Sebastião, se encontra a 160 Km de São Luís no arquipélago de Maiaú.

O conto afirma que este palácio é feito de Ouro celestial, cristais, esmeraldas e pedras preciosas. Exatamente no dia 4 de Agosto, data que coincide com a Batalha de Kiber, El Rei surge quando anoitece em seu cavalo com arreios de Ouro e Prata , com espada e uniforme de Gala .

O Brasil recebeu influências de povos importantes, e civilizações mundiais, e com estas influências se encontra as lendas e personagens do popular universal.
Anthony Mohammad
Gazeta de Beirute


VEJAM O DOCUMENTÁRIO




terça-feira, 11 de abril de 2017

OS MISTÉRIOS DE MAAT.

Maat ou Ma'at é a deusa da verdade, da justiça, da retidão e da ordem. .É a deusa responsável pela manutenção da ordem cósmica e social. Maat é associada à determinação final e funciona tanto como deusa como quanto conceito.
O templo dedicado a Maat está no complexo de Karnak e estudiosos tem evidências que existiam outros em Deir el-Medina e Mênfis.
Ela é representada como uma jovem mulher ostentando uma pluma de avestruz na cabeça, a qual era pesada contra o coração (alma) do morto no julgamento de Osíris. A pesagem do coração era feita em uma balança utilizando de contra-peso a pena de Maat.
Não importava se a pessoa fosse pobre ou rica, todas teriam que passar pelas mesmas etapas no mundo dos mortos. Primeiramente a pessoa morta precisava convencer o barqueiro Aken a levá-la pelo rio da morte.
Então eles tinham que passar por doze portões que são vigiados por demônios e serpentes. Era um dos motivos de serem enterrados amuletos de proteção junto com o morto, que ajudariam a protegê-lo nessa hora.
Depois o morto precisava convencer os 42 juízes de que não tinha cometido nenhum dos 42 pecados. Só depois dessas etapas o morto entraria no tribunal de Osíris.
Maat também tinha um importante papel na hora de decidir se o morto entraria no submundo ou não. Para o morto alcançar o submundo, ele precisava fazer a chamada “confissão negativa” que era uma lista das coisas que o mesmo teria evitado de fazer em vida.
Dentre eles estavam; Não matei, não roubei, não cometi adultério, não menti entre outros que ao total davam 42 confissões. Caso fosse aprovado nessas confissões o morto era considerado “Verdadeiro da palavra” (Maat Kheru – Expressão bem popular do antigo Egito) e poderia passar a uma nova sala onde passaria por uma balança.
Acreditava-se que o coração era o centro da mente e da vontade. O coração, então, deveria pesar menos que a pena, para que o mesmo pudesse ter a vida eterna, caso o coração fosse mais pesado que a pena de Maat o morto era devorado por uma espécie de devorador de almas, chamado de Ammit.
E quando isso acontecia o morto deixava de existir, o que para os egípcios era algo de um enorme temor. O coração assumiu o equivalente ao significado da nossa palavra consciência.
A verdade não é uma invenção moderna. Tal como a conhecemos, ela existe onde há consciência; uma está envolvida na outra. Mas de onde vem a verdade, a retidão e a justiça, e o que podemos chamar de código de ética?
Parece que nossa civilização e nossa cultura têm uma dívida para com o Egito Antigo.De todas as culturas ou países conhecidos, o Egito tem os mais antigos registros históricos, remontando a mais de cinco mil anos.
A palavra Maat significa não só verdade mas também retidão e justiça. Seu símbolo do Maat era a pluma de avestruz. A pluma, como símbolo, é encontrada em toda parte do Egito . nos túmulos e nas paredes e colunas dos templos.
A pluma pretende transmitir a ideia de que “a verdade existirá”. A pluma era transportada nas cerimônias egípcias, muitas vezes sobre um cajado.
Um dos textos das pirâmides diz: “O céu está satisfeito e a terra regozija-se quando ouvem que o Rei Pépi II pôs Maat no lugar da falsidade e da desordem”. Os historiadores modernos concluem que a justiça era a essência do governo, inseparável do rei e, portanto, o objetivo reconhecido da preocupação de um funcionário.
Ele não só estava envolvido na concepção de justiça como também na ética. Dizia-se que os inúmeros deuses dos egípcios viviam pelo Maat. Isto quer dizer que os poderes encontrados na natureza funcionavam de acordo com a ordem da criação.
O conceito de Maat confirma a antiga crença egípcia de que o universo é imutável, e que todos os opostos aparentes devem manter-se mutuamente num estado de equilíbrio.
Ele subentende vigorosamente uma permanência; estimula o homem a esforçar-se por alcançar a virtude até que não tenha mais falhas. A harmonia e a ordem estabelecida de Maat, assim como a permanência, estão subentendidas nisso.
Um homem só teria êxito na vida, se vivesse harmoniosamente de acordo com o conceito de Maat e em sintonia com a sociedade e a natureza. A retidão produzia alegria; o contrário trazia o infortúnio.
Este era um conceito profundo para os egípcios antigos, um conceito que ultrapassava o âmbito da ética, poderíamos dizer, e que na verdade afetava a existência do homem e seu relacionamento com a sociedade e a natureza.
James Henry Breasted escreveu que da verdade, da retidão, do conceito de justiça de Maat veio a consciência e o caráter. Akhenaton destacou repetidamente o conceito de retidão de Maat. Ele desenvolveu o reconhecimento da supremacia de Maat como retidão e justiça numa ordem moral nacional sob um único deus.
O significado de Maat se desenvolve a ponto de abarcar todos os aspectos da existência, incluindo o equilíbrio básico do universo, o relacionamento entre suas partes constituintes, o ciclo das estações, movimentos celestes e observações religiosas, bem como negociações justas, honestidade e confiança nas interações sociais.
A harmonia cósmica era conseguida através de uma vida ritual e pública correta. Qualquer distúrbio na harmonia cósmica poderia ter consequências para o indivíduo, assim como para o estado: um rei ímpio poderia trazer fome ao povo. Daí se dizer que a função do rei era honrar Maat, distribuindo justiça na terra através de um governo benevolente e justo.
Maat, portanto, era, ao mesmo tempo, uma deusa e um conceito filosófico dos mais importantes na vida dos egípcios. Nas esferas celestes, ou na terra, ou na estrutura psicológica dos seres humanos, Maat devia ser praticada como principio de vida e cultuada como atributo divino na terra para realizar essa harmonia. Maat devia orientar os passos dos homens e dos deuses.
Ir.’. Bruno Bezerra de Macedo MM - ARLS Adolfo Bezerra de Menezes n° 100 filiada a Grande Loja do Estado do Ceará GLMECE
Grupo Memórias e Reflexões Maçônicas. Adm. Rogério Romani
Pub/Rimmôn