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sábado, 12 de outubro de 2019

ERONIDES FERREIRA DE CARVALHO

Nome: CARVALHO, Erônides de

Nome Completo: ERONIDES FERREIRA DE CARVALHO

Tipo: BIOGRAFICO

Texto Completo:

CARVALHO, Erônides de

*militar; rev. 1930; gov. prov. SE 1930; gov. SE 1935-1937; interv. SE 1937-1941; juiz TSN 1942-1943.

Erônides Ferreira de Carvalho nasceu em Canhoba, então povoado do município de Propriá (SE), no dia 25 de abril de 1895, filho de Antônio Ferreira de Carvalho e de Balbina Mendonça de Carvalho.

Realizou seus estudos básicos em Maceió, no Colégio 11 de Janeiro e no Liceu Alagoano, onde concluiu o secundário em 1910. No ano seguinte, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia e, pouco tempo depois, começou a trabalhar em atividades ligadas ao curso que freqüentava. Foi auxiliar de laboratório da cadeira de terapêutica, estagiário do Hospício São João de Deus, diretor da Beneficência Acadêmica e auxiliar de clínica hospitalar do cirurgião Antônio Borja, seu professor. Diplomou-se em 1917, defendendo a tese intitulada Do ópio em terapêutica mental, aprovada com distinção, tornando-se assim membro da Sociedade Médica dos Hospitais da Bahia.

Em novembro de 1918 foi nomeado diretor-geral interino de Higiene e Saúde Pública de Sergipe, dirigindo os trabalhos de profilaxia da epidemia que ficou conhecida como “gripe espanhola”. Diretor interino do posto de assistência pública do estado durante o ano de 1919, Erônides exerceu as funções de inspetor médico do sistema escolar entre fevereiro e outubro do ano seguinte, quando foi comissionado para representar seu estado natal no Congresso de Proteção à Infância que seria realizado no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Em virtude do adiamento desse conclave, Erônides recebeu a missão de estudar o funcionamento do Serviço de Inspeção Médica Escolar do estado de São Paulo.

Em agosto de 1921, foi nomeado para o corpo de veterinários do Serviço de Indústria Pastoril, ligado ao Ministério da Agricultura Indústria e Comércio, passando a exercer essas funções em seu estado natal. Aprovado em concurso para o Corpo de Saúde do Exército em fevereiro de 1923, foi classificado como segundo-tenente no 1º Regimento de Cavalaria Independente, localizado em Bela Vista (MT). Dois meses depois, foi transferido para o 28º Batalhão de Caçadores, em Aracaju, e, no ano seguinte, tornou-se primeiro-tenente. Nessa patente, acompanhou as tropas que, em 1926, perseguiram a Coluna Prestes em sua passagem pelo Nordeste.

Ingresso na política

A Revolução de 1930, no Nordeste, teve início na Paraíba, onde se encontrava o capitão Juarez Távora, seu principal articulador na região, e um importante grupo de oficiais ligados ao movimento tenentista. Depois da ocupação da capital paraibana, as colunas rebeldes marcharam para o sul, conseguindo adesões e depondo, sucessivamente, os governos de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. A unidade em que Erônides de Carvalho servia colocou-se ao lado dos revolucionários e, em 17 de outubro, com a deposição de Maurício Graco Cardoso, presidente de Sergipe, Erônides assumiu o governo estadual, entregando-o três dias depois ao general José de Calasans, conforme critério adotado por Juarez Távora.

No dia 24 de outubro, consolidou-se a vitória da revolução com a deposição, no Rio, do presidente Washington Luís, e em 16 de novembro Augusto Maynard Gomes — líder de duas sublevações militares em Sergipe na década de 1920 — foi nomeado interventor federal no estado.

Nos anos seguintes, descontente com a administração estadual, Erônides de Carvalho passou a fazer oposição ao interventor, consolidando essa opção quando, em fins de 1932, o Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas convocou eleições para a formação de uma Assembléia Nacional Constituinte. Nessa época, Erônides, Gonçalo Rollemberg do Prado e Augusto César Leite foram os principais articuladores da União Republicana de Sergipe, fundada em 5 de março de 1933, enquanto Maynard Gomes apoiou a criação do Partido Republicano de Sergipe, que indicou candidatos à Constituinte pela lista “Liberdade e Civismo”. Nas eleições, realizadas em maio de 1933, Erônides de Carvalho, promovido a capitão no mês anterior, tornou-se suplente de Augusto César Leite, único deputado eleito na legenda de seu partido para a bancada sergipana na Constituinte, composta de oito membros.

Entretanto, em outubro de 1934 a União Republicana de Sergipe obteve a maioria das cadeiras da Assembléia Constituinte estadual que, em março do ano seguinte, encerrou seus trabalhos elegendo Erônides de Carvalho para governador. Inconformado com esse resultado, Maynard Gomes, a princípio, recusou-se a transmitir o cargo para seu sucessor, sem contudo conseguir impedir sua posse.

No governo do estado

No início de sua gestão, Erônides de Carvalho procurou saldar o débito do estado para com o Banco do Brasil, herdado da administração anterior, cujos atos foram sistematicamente desfeitos pelo novo governo. Baseado em pareceres do ex-presidente Epitácio Pessoa e dos juristas Heráclito Sobral Pinto e Mendes Pimentel, o governador anulou os decretos de criação do Tribunal de Contas e de alteração do funcionamento do Tribunal de Justiça, então chamado de Corte de Apelação do Estado, aumentando o número de desembargadores. Realizou também melhorias na Biblioteca Pública e reaparelhou a imprensa oficial, além de construir escolas, estradas, pontes, a cidade de menores “Getúlio Vargas” e o quartel do Corpo de Bombeiros. Vinculado profissionalmente à área de saúde pública, Erônides de Carvalho ampliou significativamente a capacidade da rede hospitalar do estado e realizou uma reforma geral no sistema de esgotos da capital. Conseguiu também uma verba de trezentos contos de réis da Câmara Federal para aumentar o combate ao banditismo que agia no interior do estado, especialmente o bando de Lampião.

Em novembro de 1935, ofereceu ao presidente da República tropas da Polícia Militar de Sergipe para colaborarem na repressão ao levante comunista deflagrado nesse mês em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Rapidamente dominada, a rebelião deu lugar a uma das maiores ondas de repressão até então havidas no país submetido ao estado de sítio e, depois, ao estado de guerra até junho de 1937. Erônides determinou a realização de diligências policiais para descobrir possíveis ramificações da sublevação em Sergipe, concluindo que elementos ligados ao ex-interventor Maynard Gomes, seu adversário político, estavam envolvidos com os comunistas. Baseado nessas considerações, escreveu ao presidente Getúlio Vargas, solicitando a transferência de alguns oficiais que não gozavam de sua confiança. J. Pires Wynne, em seu livro História de Sergipe, nega a existência de qualquer vínculo entre Maynard Gomes e os comunistas, lembrando que, mais tarde, ele integrou o Tribunal de Segurança Nacional, encarregado de julgar os envolvidos no levante de 1935.

Em março de 1936, Erônides de Carvalho viajou para o Rio de Janeiro a fim de obter auxílio para o combate aos efeitos das secas e enchentes que assolavam regiões do estado, bem como para a realização de obras na barra de Aracaju, conseguindo a quantia de seiscentos contos para iniciar a dragagem. Em 1937, posicionou-se a favor da candidatura de José Américo de Almeida às eleições presidenciais previstas para o ano seguinte. Apesar de apoiar oficiosamente esse candidato, Vargas já articulava um golpe de Estado de caráter continuísta e, no início de outubro desse ano, conseguiu autorização do Congresso para decretar novamente o estado de guerra sob a alegação de que havia sido descoberto o chamado Plano Cohen, pretensamente elaborado pelos comunistas visando à tomada violenta do poder. Conforme comprovação posterior, tratava-se de um documento forjado, utilizado pelo governo e sua alta cúpula militar para favorecer a concretização do projeto golpista.

Erônides de Carvalho foi nomeado executor, em Sergipe, dos poderes excepcionais conferidos ao Executivo durante a vigência do estado de guerra, o mesmo acontecendo com todos os outros governadores estaduais, à exceção dos de São Paulo, Rio Grande do Sul e do prefeito do Distrito Federal. Em fins desse mês, o deputado Francisco Negrão de Lima, secretário-geral do comitê diretor da campanha eleitoral de José Américo, visitou vários estados do Norte e Nordeste, inclusive Sergipe, em missão secreta com o objetivo de arregimentar, em nome do governo federal, o apoio dos governadores ao golpe de Estado que, em 10 de novembro, implantou o Estado Novo, decretando a suspensão das eleições e o fechamento do Legislativo e dos partidos políticos.

Partidário do novo regime, Erônides foi confirmado no posto, convertido em interventor federal em Sergipe. Na nova fase de sua gestão, vários estudantes foram presos e condenados pelo Tribunal de Segurança Nacional, encarregado do julgamento dos opositores do Estado Novo.

Substituído pelo capitão Mílton Pereira de Azevedo em junho de 1941, Erônides de Carvalho declinou do convite para se tornar adido comercial brasileiro em um país africano, sendo então nomeado, em março de 1942, para a vaga de Maynard Gomes no Tribunal de Segurança Nacional, representando o Exército. Integrou o corpo de juízes desse tribunal até agosto de 1943, ano em que foi promovido a major médico, transferido para a reserva e nomeado tabelião do 14º Ofício de Notas da Justiça, no Rio de Janeiro.

Em 1945, com a reorganização da vida política nacional, tornou-se presidente do diretório regional de Sergipe e membro do diretório nacional do Partido Social Democrático (PSD).

Em fevereiro de 1952, foi promovido a tenente-coronel na reserva.

Faleceu no Rio de Janeiro em 19 de março de 1969.

Foi casado com Ivete de Melo Góis.

Publicou discursos e relatórios técnicos sobre saúde pública. Seu correligionário Augusto César Leite escreveu Em defesa do governador Erônides de Carvalho (1937).

Robert Pechman

FONTES: ARQ. GETÚLIO VARGAS; ARQ. MIN. EXÉRC.; ARQ. PÚBL. EST. SE; ASSEMB. NAC. CONST. 1934. Anais; CABRAL, O. História; Correio da Manhã (15/6/39); Diário do Congresso Nacional; Encic. Mirador; GUARANÁ, M. Dic.; INST. NAC. LIVRO. Índice; PEIXOTO, A. Getúlio; POPPINO, R. Federal; SILVA, H. 1937; WYNNE, J. História.


terça-feira, 10 de setembro de 2019

A morte de Lampião

Capítulo VI A morte de Lampião Aquêle ôlho terrível que nos fitava no fundo da história do sertão...

Apresentação em tema: "Capítulo VI A morte de Lampião Aquêle ôlho terrível que nos fitava no fundo da história do sertão..."— Transcrição da apresentação:

2 Capítulo VI A morte de Lampião Aquêle ôlho terrível que nos fitava no fundo da história do sertão...
3 Lampião põe Luis Carlos Prestes para correr do Ceará Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, que juntamente com seu braço direito Cristino da Silva Cleto, o Capitão Corisco, que receberam a missão do padre C í cero Romão Batista através de seu porta voz Floro Bartolomeu, de combater a coluna Prestes. Prestes, quando soube que o Capitão do nordeste se encontrava preparado para o enfrentamento, mudou a rota e partiu em retirada sendo perseguido por Lampião que o obrigou a fugir, a fim de não ter que passar pelo vexame de ser derrotado e humilhado pelo Capitão do Sertão. CoriscoLampião
4 Alguns argumentos em prol do envenenamento Depoimento espontâneo e corajoso do coronel JOSÉ ALENCAR DE CARVALHO (Senhorzinho Alencar), oficial reformado da Polícia Militar de Pernambuco, que durante dez anos enfrentou Lampião em combates memoráveis: — "Essa questão de envenenar Lampião era velha. Vendo, dia a dia, agravar-se o problema do cangaço, os chefes de volantes queriam acabar com o terrível bandoleiro de qualquer maneira.. A ordem que vinha de cima (Getúlio), era para liquidar com ele. Desconfiado, ligeiro, ágil como cabrito novo, Lampião escapava sempre dos cercos da polícia. Daí a solução rápida, embora ilegal: a morte pelo envenenamento. E muitos chefes de volantes pensaram assim:
5 - MANUEL NETO, dos mais heróicos combatentes contra o cangaceirismo, procurou comprar coiteiros para envenenar Lampião. “Eu mesmo, certa vez, prometi vultosa fortuna a uma velha, da inteira confiança de Virgulino, se ela fizesse o Rei do Cangaço beber de um vinho que eu lhe dera ". - Dois episódios em que o coronel Alencar, provando que ninguém jamais pegou Lampião desprevenido, corrobora o propósito geral de matá-lo com veneno: a) "Sabendo que ele (Lampião) tinha desejos de pegar um seu inimigo, fiz do mesmo uma espécie de cobaia. Coloquei-o na fazenda de certo parente de onde ele passou a mandar insultos e recados a Lampião, convidando-o a brigar. A resposta do bandoleiro foi esta: — "Você está muito fácil. Aguardo uma oportunidade mais difícil". Como se adivinhasse que ali perto eu me achava, pronto para atacá-lo pela retaguarda.
6 b) "De outra vez, no encalço de Lampião, encontrei-me com um vaqueiro que disse saber onde ele estava escondido. Numa casa abandonada, a dez léguas dali, ele tratava de Antônio Rosa, um de seus cabras de confiança, atacado de febre. Guiados pelo vaqueiro, andamos toda a noite. Ao amanhecer, estávamos diante da casa. Mas, que surpresa! As árvores próximas estavam crivadas de balas. Xique-xiques e mandacarus decepados por forte tiroteio. Soube, tempos depois, que a sentinela de Lampião, despertada alta noite por um barulho que vinha do mato, alertou o bando. Abriram tiroteio cerrado e terminaram por fugir. A causa do barulho: um bode que pastava nas proximidades. Foi um simples bode, mas podia ser a volante. Lampião não facilitava nunca". 2. Em PARIPIRANGA, BA, a polícia envenenara toda a comida que Lampião, acampado perto dali, mandara comprar. Somente no dia seguinte iria ele mandar dividir esses mantimentos com os cabras. De manhã, porém, a polícia, em erro de tática, vexou-se em atacá-lo, travando-se tiroteio. Descoberto que a comida estava envenenada, Lampião bateu em retirada deixando-a aos soldados...
7 3. Pouco tempo antes de Angico havia João Bezerra afirmado a Mane Neto que iria exterminar Lampião a veneno. Pondo de lado o despeito de Mane Neto em não ter podido jamais matar nenhum dos irmãos Ferreiras, os quais, ao contrário, lhe mataram quinze nazarenos, sendo nove familiares, o certo é que, na polêmica mantida na imprensa entre esses dois oficiais, terminou João Bezerra confirmando que "nenhum governo estipulou a espécie de morte que seria aplicada a Lampião". Depois veio ele querendo escamotear dizendo: — "Envenenar Lampião teria sido um prazer, se tivesse tido essa grande oportunidade!" 4. PEDRO CÂNDIDO esteve badalando que botou veneno (Cf. Adendo II).
8 5. O cangaceiro Zé Sereno, em entrevista ao Correio da manhã, do Rio de Janeiro, a 28 de julho de 1971, caderno Anexo, recordando a tragédia de Angico, assim se exprime: — "O, coiteiro (Pedro Cândido) chegou com os alimentos envenenados a mando da volante, menos três litros de pinga que, normalmente, ele próprio, o coiteiro, deveria ingerir em pequenas doses para provar sua confiança (...) minha suspeita com Pedro de Cândido confirmou-se depois que ele se foi (...) Apanhei um LITRO DE VERMUTE Cinzano e notei um pequeno buraco na rolha, pro­vavelmente feito por uma seringa. Chamei Lampião e disse-lhe: — “O SENHOR É CEGO DE UM OLHO, MAS PODE VER QUE ESTA BEBIDA ESTÁ ENVENENADA"'.
9 6. Padre José Kehrle ouviu o SOLDADO VICENTE, integrante da volante de Angico, afirmar — "Até com juramento!" — que Lampião fora envenenado. 7. José Francisco do Nascimento, vulgo ZEZINHO BARBA AZUL, casado em Catende, PE, donde é natural, atualmente residindo em Caruaru. Origem curiosa de seu apelido: deixou a mulher que prevaricara e foi arranjando outras até completar o número de seis, incluindo a esposa. Com o caso da perda da esposa, perdera também o medo do que quer que seja e adquiriu a tal coragem motivada pelo estado de desespero em que ficara. Em certas ocasiões, chegou a brigar com Lampião perto, enquanto seus "colegas de farda se mijavam de medo"! Afirmando enfim, "com toda a certeza", que Lampião não foi morto a bala.
10 8. O coronel SENHORZINHO ALENCAR, após ouvir minucioso relato de um ex-volante de Angico e de examinar cuidadosamente o fato, declarou de público: — "Acredito firmemente na hipótese do envenenamento de Lampião". 9. O tenente ANICETO RODRIGUES, um dos principais componentes da Tragédia de Angico, igualmente levantou suspeição (daí por que João Bezerra omite seu nome no livro Como dei cabo de Lampião). 10. O coronel LUCENA, fugindo a um inquérito, que seria contundente, para decidir a questão, saiu-se com esta: — "É tarde demais!" (cf. mais adiante, Adendo II b).
11 11. Os onze cadáveres foram encontrados numa área apenas de vinte e cinco metros quadrados, não havendo sinal de terem sido arrastados por ali. Indício de que, reunidos para o café, foram ao menos mais da metade dos cangaceiros, caindo envenenados dentro desse reduzido espaço. Em luta teriam sido mortos sim, mas dispersos. Por isso o coronel MANUEL NETO em carta aberta na imprensa: — "Não acreditei e continuo desacreditando, porém, na possibilidade de haver sido Lampião e seu grupo, abatidos como porcos, num único combate e no mesmo chiqueiro, registrando-se, apenas, uma baixa na tropa que o enfrentou". E concluía: "Lampião não era um covarde, um inexperiente para se deixar abater tão facilmente...“ 12. Assim, também, o historiador sertanejo ULISSES LINS, tão escrupuloso da verdade: "... para que todos fossem mortos a bala, fora necessário todos juntos... como passarinhos na bebida..."
12 13. Outro historiador, RODRIGUES DE CARVALHO, no seu livro Serrote preto, é pelo envenenamento. 14. ANTÔNIO SILVINO, velho cangaceiro muito experimentado, não acreditou em combate e até pilheriou dizendo que Lampião e seus homens estavam "dormindo"... 15. URUBUS MORTOS. Sob a orientação dos professores drs. José Joaquim de Almeida e Aníbal Firmo Bruno, formou-se, na Faculdade de Direito do Recife, uma comissão de estudantes segundanistas do curso de bacharelado, a qual, para conseguir facilidades em Alagoas, tomou o nome de Comissão Acadêmica Coronel Lucena, com a finalidade de visitar e estudar os resultados da Tragédia de Angico in loco. Compunha-se a caravana de seis acadêmicos: Edson Cantarelli Caribe (presidente), Wandenkolk Wanderley, Plínio Inácio de Sousa, Haroldo de Melo, Décio de Sousa Valença e Alfredo Pessoa de Lima. A este incumbia apresentar ao interventor de Pernambuco o relatório da missão. Agamenon Magalhães arranjou as passagens, ida e volta, de trem, a Maceió. Edson voltou de Quipapá, alegando não poder fazer face a certas despesas, enquanto os outros prosseguiram, chegando, no mesmo dia 3, a Maceió, onde entraram, de imediato, em entendimento com as autoridades.
13 Partiram dali em caminhão que levava tropa. Viagem sacrificosa e morosa por estradas carroçáveis, em péssimas condições de conservação, no itinerário de Santana de Ipanema, Pão de Açúcar (onde dormiram na casa do delegado Tenório) e Entremontes, e daí para Angico, em canoa e a pé, como ainda hoje. Nove dias fazia que os cadáveres estavam insepultos! Não se contendo de indignação o ardoroso Alfredo Pessoa de Lima improvisou ali mesmo uma espécie de discurso libelo muito comovente censurando aquele "crime da polícia". Deixando de lado o Relatório desse acadêmico (trechos publicados no Caderno acadêmico, setembro de 1942, p. 97-111), vazado em rebuscada linguagem eivada de pruridos das teorias lombrosianas tão em moda na época, o que mais importa é seu depoimento pessoal como testemunha ocular: — "Lampião e seus sequazes foram envenenados. A prova peremptória está nos urubus mortos junto aos corpos putre jactos". Outro acadêmico que, junto com Décio Valença, vencendo a repugnância, se aproximou mais do local para observar melhor. Wandenkolk Wanderley, chegou à mesma conclusão. Mais de vinte anos depois, esse destemeroso advogado criminalista, provocado em debate, declarava:
14 — "Eu vi com meus próprios olhos, visitando o local, alguns urubus mortos, cinco ou seis, caídos junto aos corpos dos cangaceiros. Devorando as víceras dos bandoleiros (ou os alimentos envenenados), eles também se envenenaram pelo arsênico". E, concluindo: — "A versão dada pela polícia do então tenente João Bezerra não passaria de conversa preparada para iludir crianças. O tal combate não se teria registrado, uma vez que os cangaceiros não podiam mais resistir. Chegando ao esconderijo de Lampião, os soldados teriam encontrado homens moribundos, morrendo sob o efeito do arsênico. Tiveram apenas o trabalho de acabar de matá-los, degolando-os em seguida".
15 16. Mas, antes dessa comissão de acadêmicos, quem primeiro esteve no coito de Angico foram o repórter Melquiades da Rocha e o fotógrafo Maurício Moura, enviados do jornal A noite, do Rio, os quais encontraram os corpos decepados e os urubus mortos. Mais interessante ainda é que encontraram um vidro contendo pó amarelo. O médico do 2º Batalhão de Policia de Alagoas, dr. Arsênio Moreira, verificou que era estricnina. Remetido para o Rio, o chefe do gabinete de Investigações e pesquisas científicas da Polícia, Antônio Carlos Vila Nova (atual diretor da Polícia Técnica de Brasília, ano de 1962), confirmou o veneno — estricnina! O frasco, talvez, caído inadvertidamente do bolso de Pedro Cândido. Daí sua grande preocupação se o plano falhasse.
16 17. "VOX POPULI"... O autor deste trabalho, nomeado vigário de Tacaratu de 1942 a 1945, percorrendo aquela região toda — de Itacuruba ao vale do Ipanema, das catingas do Navio e Moxotó às ribeirinhas cidades de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu e Própria, dos vastos sertões baianos, a começar de Juazeiro, passando por Curaçá, Chorrochó, Jeremoabo e Glória, ao pequeno sertão sergipano — não encontrou outra opinião senão esta: — Lampião morreu envenenado! 18. O prefeito de Pão de Açúcar, AL, Joaquim Rezende, afirmou ao cantor Sílvio Caldas que Lampião fora envenenado em Angico, antes do tiroteio. 19. Ainda está vivo o ex-cangaceiro Chá Preto, Eldi Antônio de Oliveira, co-participe da Tragédia, para afirmar que Lampião foi envenenado.
17 20. O celebrado historiador polemista, Otacílio Anselmo, autor de Padre Cícero — mito e realidade, está escrevendo um livro, fundamentado em longo e cuidadoso trabalho de pesquisa e centenas de depoimentos fidedignos, provando que Lampião foi envenenado. Revelando ainda que o laudo médico da morte de Lampião — inicialmente — atestou a presença de veneno e deu como causa mortis o envenenamento! O resultado desse exame, no entanto, foi mantido em sigilo! (Supondo o autor que para não prejudicar o Turismo). Não teria havido, porém, outro motivo mais forte? Não teria sido por razão política — de exaltação das autoridades e da polícia? 21. O sargento Manuel Bento declarou que "foi a maior covardia do tenente Bezerra fazer o que fez com Lampião, que era homem para morrer brigando no campo e não envenenado".
18 Depoimento básico sobre o envenenamento Um testemunho de máxima importância no ato supremo da Tragédia de Angico. Suficiente por si só, caso não bastasse os outros, que urdiram o texto deste capítulo — o mais intrincado e difícil de escrever — e os vinte e um argumentos anteriores em prol do envenenamento (Adendo II). Os cangaceiros do coito sobreviventes, distantes do local onde tombaram as vítimas, na surpresa e confusão do momento, quase nada sabem dizer. Conseguiu o autor anotar o depoimento, abaixo fielmente trasladado, mediante compromisso de não comprometer o declarante. Agora, trinta anos depois, com a prescrição legal, quase tudo pode ser revelado.
19 Do padre Magalhães, vigário de Geremoabo, esta declaração pessoal ao autor: — "Posso afirmar ex-fide que Lampião morreu envenenado". Ex-fide, expressão jurídico-canônica ajuramentaria, como se dissesse: "Juro diante de Deus", diferente do sentido jurídico-civil, que é apenas atestatório. O mesmo pode dizer o autor a respeito do presente depoimento. As circunstâncias de ordem psicológica e sacramentai conferem ao depoimento valor incontestável, dir-se-ia absoluto, e invalidam o princípio jurídico do testis unius. Tão impressionante depoimento tornou-se o ponto de partida determinante do interesse das pesquisas do autor sobre Lampião.
20 O sono de Lampião Lampião nunca dormia com o grupo. Desconfiado por natureza, ficava separado, sozinho. Um dos cabras de sua inteira confiança, muitas vezes escolhido na hora, chamado por ele de "sentinela-do-sono", lhe montava guarda. Perigos de fora e, pior ainda, de dentro havia, se se oferecesse fácil ocasião. Espreitavam-lhe a ambição de lhe tomar a chefia geral do cangaço, a glória de ser seu matador, o prêmio de cinqüenta contos de réis oferecido por sua cabeça... Numa comunidade humana tudo pode acontecer. A vigilância teria de ser "eterna".
21 O sono de Lampião Aliás, o bando não dormia todo junto, não. Por ordem tática de Lampião, formavam-se grupos de dois ou três, espalhados, não longe uns dos outros. Assim, difícil o aniquilamento sob um ataque de surpresa. Desde Maria Bonita, quando o cangaço foi aberto às mulheres, essas normas se tornaram mais severas, principalmente quanto aos casais. Nenhuma promiscuidade. A moral era rigorosíssima!
22 O começo Quando ele se apresentou era moço ainda, mas de cenho fechado no apardavasco da pele e com ar de espanto. No antes, porém, era "menino saído". De família humilde, mas honrada, vivendo dos roçados e de umas poucas de criações, além da vaquinha amojada com bezerrinho, e do cavalo de fazer feira. Os irmãos, antes e depois dele, não vingaram sequer um mês. Apenas lhe fazia par a irmãzinha, mais nova do que ele, então na adolescência. Um dia, desses que surgem repetindo a mesma história, um triste acontecido virou o juízo e a pacatez do moço. Na ocasião em que a menina se achava sozinha em casa, veio, sorrateiro, um tarado soldado da polícia e boliu com ela, à força. Acobertado pela farda e pela justiça, nem um padre nosso teve de penitência, continuando nas suas funções e maldades. Pouco depois, o irmão vingava a honra da família, esfaqueando o miserável cujo nos braços de uma mulher separada. Agora sim, a justiça enxergou e descobriu o criminoso — ele! E dos piores, porque matara uma "autoridade"! Caçado pela polícia, foi recebido por Lampião, que lhe trocou o nome por um de guerra — Paturi, a fim de evitar perseguições à sua família e forjou-o cangaceiro de sua confiança.
24 O relato Eis o seu depoimento, aliás muito cru, tomado naqueles idos de 1942, quatro anos da morte de Lampião fazendo. Foram eliminadas repetições inúteis e digressões supérfluas. O linguajar, fonético e sintático, corrigido, deixa, entretanto, transparecer, raramente entre aspas, palavras e expressões comuns no sertão. Pausadamente e, por vezes, angustiado, assim falou: "Naquela derradeira noite do Capitão, eu fui escolhido para sentinela-do-sono. Tarde da noite, o Capitão e Maria Bonita, que estavam nas melodias, assopraram o candeeiro para dormir. Noite fria, serenando, estiando, serenando, assim...
25 Quando foi de madrugada, ainda escuro, Maria Bonita saiu da barraca, acendeu o fogo para ferver água na panela de barro. Botou dentro pó de café e pequenos tacos de rapadura. Logo o Capitão apareceu, de manga de camisa, escovando os dentes, de junto de uma pedra grande defronte da barraca. Alguns cangaceiros foram se achegando, sem armas, caneco na mão, para o café ali fumaçando. Devia começar primeiro pelo Capitão, era o chefe. Ele encheu o caneco e bebeu ligeiro, sem carne assada e farinha, sem nada, puro. Adespois os outros foram fazendo o mesmo. A gente tinha de viajar logo.
26 A hora do café...
27 De repente, o Capitão soltou o caneco no chão. Parece que sentiu gastura, porque passou a mão rodando pela barriga. Deu uns passos largos, sem prumo e caiu na rede ainda armada na barraca. Deitou só o corpo, as pernas caídas do lado de fora. Eu ajutorando Maria Bonita a juntar os troços, que a gente ia sair cedo, vi tudo. Ela se queixava de dor de cabeça e os beiços queimando. Dizia que foi adepois que 'exprementou' o café para ver se estava bom de doce, um tiquinho de nada molhado e 'ponido' na palma da mão para lamber. Aí, eu avisei a Maria Bonita. Ela, deixando a bacia, correu para ver. Eu corri também. Chegou logo Luís Pedro e Vila Nova. Num instante, o Capitão virou a bola do olho para riba, ficando só o branco, e abriu a boca. Uma gosma suja, com escuma, saía escorrendo do canto da boca. Luís Pedro olhou o pulso e o coração e disse: — 'Tá morto!' Chorando, ele tapou com as mãos os olhos do Capitão e apanhou o chapéu dele. Aí eu disse: — 'É veneno!' Maria Bonita, aperriada, sacudiu a cabeça dele e os ombros. E ele sem ação, morto de mesmo. Tive, na hora, o maior desgosto de minha vida, os olhos chorando. Maria Bonita, coitadinha!, toda agitada e desesperada, gritou: — 'Virgulino morreu!' Eu gritei repetido: — 'O Capitão morreu! O Capitão morreu!'
28 Mergulhão, que estava deitado no pé da caraibeira, levantou-se todo espantado e perguntou alto: — 'O Capitão morreu?' Aí eu vi logo cangaceiros cair ali, de todo jeito, para frente, para trás, para os lados, de dejunto da panela de café. Maginei comigo mesmo: — 'O veneno era forte que era danado!‘ Eu acho que algum macaco da volante emboscada, com os gritos e os mexidos no coito, passou fogo em Amoroso. Ele tinha ido ver água talvez para o Capitão banhar o rosto. E quaje igual, outro tiro, que pegou Mergulhão. Atrás veio logo uma trovoada de bala! Aquele despotismo que nem deu tempo mais de pensar! Aí era o causo de se salve quem puder, como diz o outro. Assim de surpresa, bala para todo lado e naquele cafus, como era que a gente podia tomar posição e brigar? Aí me soquei dentro de um buraco comprido e baixo, que eu sabia. Lampião
29 Ficava no pé do morro, 'próchimo' da gruta e atrás da barraca do Capitão. O buraco só dava para caber o corpo pragatado, a barriga no chão, sem poder se virar mais, muito apertado. Na frente tinha moita de mato tapando. Fiquei aí, os braços incomodados, não tinha posição para botar eles. Mesmo querendo, eu não podia sair dali. Do lado de fora era bala por todo canto zinindo. Adespois, as pernas ficaram 'drumentes', moles, bambas só mulambo. Fiquei sem mexer. Mexia só os olhos e o baticum do coração. O resto estava morto. Vi a hora das balas me pegarem. Deixa que chegaram a açoitar a moita. Foi Deus e a Santíssima Virgem que me livraram. Dali de bem de riba, eu fiquei pombeando tudo pela brecha que fiz na moita.
30 O horror era grande! As balas vinha de magote. Foi torada de bala a rede do Capitão, que caiu com todo o peso no chão. O pano da coberta da barraca avoou, ficando só as varas. Vi Mergulhão cair. Adespois foi Maria Bonita caindo, as mãos cheias de sangue apertando a barriga. Luís Pedro deu uns tiros, mais arriou logo. Vila Nova correu. Não deu tempo de ninguém brigar. Não teve 'loita', não. Possa ser que mais algum cabra de lá de riba do riacho desse besteira de tiro, sem palpite, à toa. A gente e o riacho todinho se acabando na bala. Não posso dizer nem o que foi. Era a confusão do inferno! Mas, não demorou muito tempo, não. Foi ligeiro, ligeiro... coisa de meia hora.
31 Quando tudo parou de atirar, começou a chegar macaco de todo lado, quer dizer, de riba do alto das Perdidas e beirando o pé da Imburana, passando 'dadonde' eu estava, coisa de duas braças. Eles vinham se achegando devagar, com medo. Um volante, sem ser alto, caboclo forte, mancando da perna, desceu das Perdidas. Parecia o comandante, porque dava ordens. Mais tarde, já livre dali, eu soube que era o tenente João Bezerra. Junto com ele caminhavam três macacos, deviam ser ordenanças. Alguns macacos subiram um pouco o riacho, disparando a espingarda nos matos para espantar se tinha gente. O comandante foi direto para a barraca do Capitão, como que determinado e sabendo. Eu vi quando ele cascavilhou os troços e pegou o papo-de-ema e a mochila com cinco quilos de ouro que o Capitão ia mandar para sua filha. Me arrependo ainda não ter pegado aquelas coisas, também na hora nem me alembrei.
32 Os macacos, quinem urubus, deram em riba dos cangaceiros caídos, atrás do saqueio de dinheiro, ouros, jóias, outras coisas mais. Não tinham paciência de tirar os anéis dos dedos, cortavam logo os dedos. Sentado numa pedra, o comandante deu a ordem: — 'Cortem as cabeças dos cangaceiros!' Aí foi um alvoroço, todo o mundo gritando: — 'Cortar as cabeças!... Cortar as cabeças!...' Não sei como não morri vendo aquele horror! Parecia um bando de bicho do mato, de feras selvagens, dando gargalhadas e chamando toda nação de nome feio. Levantavam as cabeças dos mortos, segurando pelos cabelos, botavam o pescoço escanchado numa pedra — ficava uma coisa feia: a boca escancarada, os olhos arregalados! — e metiam o facão. Um macaco furando, furando, de pedacinho, com a ponta da faca no redor do pescoço de um cabra até separar do corpo. Outro rolou o facão no pescoço e, quando puxou a cabeça, saiu a guela de dentro do corpo. Foi uma mangação danada! Nenhuma cabeça era cortada de uma só vez. Davam mais de um golpe.
33 Vi uma coisa horrível, que nunca um cangaceiro fez e só bicho faz: os macacos lamberem o sangue da folha do facão melado! A cabeça cortada era levantada pelo cabelo e mostrada, todos dando risada de gosto, mangando e dizendo nomes feios. Tinha cangaceiro meio vivo, mexendo os olhos e falando. Cortaram assim mesmo a cabeça deles com vida! A sangreira era medonha! Tudo melado: macaco, facão, pedra, chão, água, roupa, 'tudim'. Eu vi tudo, já era dia claro, de dia. Naquele meio, veio a ordem do comandante para acabar depressa. Ele estava sentado numa pedra, o pé amarrado, e muito zangado, acho que era de dor. Eu tive dó quando um macaco levantou a cabeça de Maria Bonita, dependurada pelos cabelos compridos. O outro macaco, que tinha o facão na mão, perguntou meio espantado: — 'Inda tá viva, bandida? Cadê o dinheiro?' Ela respondeu bem fraquinho: — 'Não tenho, não'. — 'Então, lá vai...' E cortou o pescoço dela com duas 'facãozadas'. O corpo ficou batendo no chão como de galinha sangrada, e as pernas se descobrindo. Aí eles arregaçaram a saia dela para espiar o resto e começaram a bolir com as mãos, dizendo lérias.
34 Tive tanta raiva que veio vontade de sair e avançar naqueles dois sujeitos safados, desculpe a má palavra. Chegou a vez do Capitão. Um macaco conheceu e disse: — 'É o peste do cego!' Danou uma coronhada de fuzil na cabeça e foi avisar o comandante. O outro ficou cortando o pescoço do Capitão em riba de uma pedra. Quando acabou, a cabeça escorregou e rolou pela ladeira da pedra até o chão. Ele pegou ela e levou para mostrar ao comandante, que ficou cercado de macaco examinando e falando. Tudo acabado, botaram as cabeças em três sacos, as bocas amarradas num pau. Sim, botaram, também, um corpo com cabeça dentro de uma rede dependurada noutro pau. Tudo mode ser carregado, nos ombros de dois. Adespois os macacos foram se lavar nas poças mais de riba, de água limpa. Começaram a ir embora. O comandante numa cadeirinha feita dos braços de dois macacos. Levaram todo o saque. Foram subindo, um atrás do outro, feito formiga, pelo caminho do alto das Perdidas.
35 Fiquei ali deitado o dia todo. A cabeça zoava todinha, o corpo doía, quinem tinha apanhado uma pisa de cacete. Faltei coragem para sair dali. Eu via macaco pulando até pelos galhos mais altos dos pés-de-pau. Não tinha fome, não. Mas a sede era de matar, aperriando. Senti uma agonia doida. Mas, esperei, esperei... O silêncio muito grande. Os passarinhos assustados não voltaram mais. Fechava os olhos e enterrava a cara no chão com medo de ver as almas daqueles defuntos aparecerem sem cabeça. Fiquei tão assombrado que sentia algumas vezes o gume do facão passar no meu pescoço. Rezei tanto a Nossa Senhora do Desterro que cheguei a suar de pingar. Tardinha, fui saindo com medo de assombração e de tudo. Caminhava de quatro pés, não podia ficar de pé causo das pernas feito molambo e tremendo. Eu queria ficar fora da vista daquele açougue de carne de cristão. Subindo o riacho cheguei no dependo do alto, os joelhos esfolados. Me aprumei, fui andando, assim cambaleando, areado, até poder sair correndo, ligeiro ou devagar, a noite inteirinha, até chegar na casa de meus pais. Tava mais morto do que vivo.
36 Passei aquele dia deitado tomando tudo o que era de meizinha que minha mãe preparava e me dava. Comida de panela comi bem pouquinho. De noite, já no outro dia, meu pai me levou para casa de um tio meu, viúvo, que morava sozinho, lugar mais seguro, um esquisito. Estou lá este tempo todim, fazendo planta, dando limpa, xaxando terra nos pés, colhendo legume e capucho de algodão. Também no cuido das criações. Sem sair pra nenhum lugar. Somente agora saí praqui causo minha mãe mandou pedir perdão a Deus. Adespois desta conversa eu quero que seu vigário escute meus pecados na confissão e me comungue na missa".
37 O fim Satisfazendo a curiosidade do leitor: Esse moço, que escapara da morte para contar a história, logo depois, feito embarcadiço de um vapor do rio São Francisco, rumou para o Sul, sem documentos, de nome novamente trocado, para começar nova vida. E desapareceu... No local onde Lampião caiu morto, o capitão João Bezerra fez erguer uma grande cruz latina, de ferro, com três metros de tamanho, hastes binadas, cravada em peanha natural, de pedra. Seu autor teve uma concepção original, que tornou a cruz única no gênero.
38 Mandou colocar duas estreitas barras de ferro unindo as extremidades de cada braço ao topo da haste vertical, formando assim dois triângulos- retângulos, em cujas hipotenusas foram levantadas dez pequenas cruzes, também de ferro, com o nome dos companheiros de Lampião mortos com ele, e distribuídas, a começar do topo, na seguinte ordem: do lado esquerdo — Maria Bonita, Elétrico, Mergulhão, Desconhecido (depois se descobriu tratar-se de Mangueira), Diferente (este fugiu; o morto era Moeda); do lado direito — Luís Pedro, Quinta-Feira, Cajarana, Caixa- de-Fósforo, Enedina. Particularidades interessantes e coincidentes: — a cruz de Maria Bonita fica à esquerda — o lado do coração! — a de Luís Pedro, à direita — o lado da confiança! A inscrição reza assim: — "Aqui jaz o Rei do Cangaço, Capitão Lampião, com dez companheiros. Combate a 28 de julho de 1938. Lembrança do capitão João Bezerra. Colocação da cruz em 30 de outubro de 1961". A essa inscrição poderia aquele oficial acrescentar as palavras suas, ditadas, anos mais tarde, pela análise sincera e pelo critério sereno e honesto de seu espírito amadurecido a respeito do Rei do Cangaço:
39 Anjico Angico A Cruz de Lampião
40 — "Se ele (Lampião) fosse vivo hoje, eu não permitiria que ninguém encostasse o dedo nele. Hoje eu não acho que ele era bandido". Tenente João Bezerra
41 "Ainda se ouvem os gritos do seu feroz combater, na toada das rendeiras, na voz do cego das feiras, o peito quente do povo espera o seu renascer" (Cancioneiro de Lampião). Lampião morreu... Ficou ali sua cruz de ferro. Cruz simbólica e significativa de uma Época no Tempo... de um Rei no Reinado do Sertão! Cruz eternamente solitária de um Homem — mito e legenda — força telúrica e épica —surgido das estranhas profecias do Conselheiro e em cujo peito de ferro foi fincada a Fé e confiado um Destino!...
42 Lampião e Maria Bonita Lá ia ela, ao lado do Capitão, caminhando ou a galope, sempre bela, coleante, amorosa e redondinha. Orgulhosa como um pavão a ombrear com o macho temível. Sorrindo sempre, mesmo na hora de praticar amor. E sempre seguida de perto por um cachorro negro e comprido que o Capitão lhe dera de presente, o Zé Rufinho, nome com que a bonita Maria batizara o animal, em debochada homenagem ao sanguinário e destemido comandante de polícia José Rufinho, que estava constantemente nos calcanhares dos dois amantes famígeros. Lampião, Maria Bonita e Zé Rufinho
43 Depois do bando de Lampião assassinado pela volante alagoana do Tenente João Bezerra a 28 de julho de 1938, expostos na escaldaria na Prefeitura de Piranhas, Alagoas, em composição atribuída a Lisboa.
44 Corisco - Herdeiro e vingador de Lampião...Corisco levou dois dedos à boca, tirou um som curto; ao ouvi-lo, os cabras invadiram a varanda. Foi um terremoto. No meio do barulho que faziam esses homens sedentos de vingança, ouviu-se a voz de Corisco: - Matem todos! Então, foi um verdadeiro inferno: uma calamidade. As facas reluziram à luz dos lampiões. Só escapou o delator, porque tinha fugido para Alagoas. A varanda estava juncada de corpos e o sangue continuava a correr. Depois, os cabras partiram...
45 POESIA Menina vou te contar a história de um cangaceiro, bicho bom do pé ligeiro, lobisomem do sertão. Comia moça donzela, reparava a injustiça, estrangulava macaco por crime de traição, entrava nos povoados e deixava em petição de miséria o prepotente vergado na punição.
46 Desocupado, erradio, vagueou como um papão, por muitos anos a fio não buscou a salvação, tinha grande protetor, o padre Cícero Romão, no lugar onde chegava era vigário e juiz, amancebado casava e livrava o infeliz que nas grades da cadeia vivia curtindo peia, delegado de polícia escapava por um triz.
47 Nos doze pares de França foi buscar inspiração, seu chapéu era igualzinho ao do rei Napoleão, o imperador Carlos Magno houvera de ter paixão, valente como Olivério, brigava como Roldão, dos tempos mais recuados, só Osório e Cipião podiam ser comparados ao guerreiro Lampião.
48 Nestes autos vou narrar a vida de Lampião, quem tiver oiças, escute e faça do coração a via do entendimento, pois nada vale a razão, sangue e terra se misturam em perpétua comunhão, na linguagem do mistério dou a minha tradução, o demônio sobrevive no descendente de Adão, quem de si não o afugenta apodrece na prisão, o homem não nasce bom, já nasce na expiação, se o anjo prevalecesse já teria morto o Cão. Nertan Macêdo
49 Uma Revista feita com o amor de Maria Bonita e a coragem de Lampião

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