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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O abolicionista amaldiçoado

Amos Adams Lawrence
O abolicionista Amos Adams Lawrence (31 de julho de 1814 - 22 de agosto 1886), nascido em Boston, Suffolk County nos estado de Massachusetts, USA, que foi recentemente amaldiçoado nos protestos Charlottesville, no Estado americano da Virgínia, por uma manifestação de supremacistas brancos, canalizou grande parte de sua fortuna para uma batalha que ele achava que a América não podia perder; a libertação dos escravos.

Anthony Burns
Em 24 de maio de 1854, Anthony Burns, um jovem afro-americano, foi capturado no caminho para casa do trabalho. Ele escapou da escravidão na Virgínia e se dirigiu a Boston, onde ele estava empregado em uma loja de roupas masculinas. Seu dono o rastreou e o deteve. Sob o Ato Fugitivo do Escravo de 1850 e a Constituição dos Estados Unidos, Burns não tinha nenhum direito.

Para o povo de Boston, sua captura foi uma indignação. Sete mil cidadãos tentaram deixá-lo sair da prisão, e os melhores advogados de Boston tentaram fazer um caso para sua liberdade, tudo em vão. Em 2 de junho, Burns foi escoltada para um navio em espera e retornou à escravidão.

Este episódio inteiro teve um impacto profundo em muitos Bostonianos, mas um em particular: Amos Adams Lawrence. O episódio de Burns provavelmente foi a primeira vez que Lawrence ficou cara a cara com os males da escravidão e, pouco depois, Burns foi devolvido à escravidão, ele escreveu para o tio que "fomos dormir uma noite, antiquado, conservador, Compromisso Union Whigs e despertou os abolicionistas loucos. "(O Partido Whig foi dividido por escravidão neste momento, em 1854, quando o Partido Republicano foi organizado, os Whigs já não eram uma força forte na política dos EUA.)

Lawrence era um abolicionista bastante improvável. Ele nasceu em uma das mais ricas famílias com sangue azul em Boston e teve todos os benefícios que a riqueza de sua família poderia fornecer, atendendo a Franklin Academy, uma escola de internado de elite e depois Harvard. Verdade, a família Lawrence tinha uma forte ética filantrópica. O tio de Amos, Abbott Lawrence, doou US $ 50.000 para Harvard em 1847 - que na época era a maior doação individual concedida a qualquer faculdade nos Estados Unidos - para estabelecer Lawrence Scientific School, e o pai de Amos, também chamado Amos, se aposentou aos 45 anos Devolva o restante da sua vida à filantropia. Em 1854, Amos Adams Lawrence escreveu em seu diário privado que precisava ganhar dinheiro em suas práticas comerciais para apoiar instituições de caridade que eram importantes para ele.

Mas essas práticas comerciais tornaram improvável uma instituição de caridade anti-escravidão. Sua família fez sua fortuna na indústria têxtil, e o próprio Lawrence criou um nicho de negócios como um comerciante de comissão vendendo tecidos manufacturados produzidos na Nova Inglaterra. A maioria dos têxteis que Lawrence e sua família produziam e vendiam eram feitas de algodão, que era plantado, colhido, descartado, embalado e enviado por escravos. Este fato apresenta um enigma interessante. O episódio de Burns fez de Lawrence, como ele escreveu, "um implacável abolicionista", mas, até onde sabemos, o fato de seu negócio depender das mesmas pessoas que ele estava tentando libertar não parecia incomodá-lo.

Lawrence rapidamente teve a oportunidade de traduzir seu novo abolicionismo em ação. Em 30 de maio de 1854, no meio do caso Burns, o presidente Franklin Pierce assinou a lei do Kansas-Nebraska Act, que estabeleceu o Kansas e Nebraska como territórios, mas permitiu que cada um decida por si próprio, sob o conceito de soberania popular, se eles Queria escravidão ou não. Para muitos abolicionistas, isso foi uma indignação, porque abriu a possibilidade de outro estado escravo entrar na união. Além disso, com o estado escravo do Missouri logo ao lado, o lado pro-escravidão parecia ter uma vantagem indevida.

Esta foi a chance de Lawrence. Um amigo apresentou-o a Eli Thayer, que acabara de organizar a Emigrant Aid Company para encorajar os colonos antiescravados a emigrar para o Kansas com o objetivo de tornar o território um estado livre. Lawrence tornou-se o tesoureiro da empresa e imediatamente começou a mergulhar no bolso para cobrir as despesas. Quando os primeiros pioneiros anti-escravidão chegaram ao Kansas, eles decidiram chamar sua nova comunidade "Lawrence", sabendo que sem a ajuda financeira de seus benfeitores, seu empreendimento provavelmente não teria sido possível.

Lawrence estava freqüentemente frustrado de que os líderes da empresa não eram agressivos o suficiente para arrecadar dinheiro, mas continuou silenciosamente a cobrir as contas. Em um ponto, ele confiou a seu diário, quando as contas da Emigrant Aid Company vieram, ele não teve o suficiente de seu próprio dinheiro na mão, então ele vendeu ações em seus negócios para cobrir as despesas. 

44-calibre Sharps percussão
Sempre que havia necessidade de um financiamento especial no Kansas, Lawrence daria e pedia que os outros também o fizessem. Lawrence e seus irmãos, por exemplo, contribuíram para a compra de rifles Sharps - as armas mais avançadas do dia - para os cidadãos de Lawrence.

Uma cópia de Harper mostrando a incursão de Quantrill em Lawrence, Kansas, 21 de agosto de 1863 (Imagem cortesia da Biblioteca do Congresso)
Eles precisavam dessas armas. Como Lawrence, Kansas, era o centro do movimento anti-escravidão, tornou-se o bullseye do alvo da gente pro-escravista. No final de 1855, Missourians alinhou o planejamento para atacar Lawrence no que foi chamado de Guerra de Wakarusa. Nada aconteceu naquela época, e os Missourianos voltaram para casa. Mas menos de um ano depois veio o "Saque de Lawrence", em que os Missourians pro-escravidão queimaram muito da cidade no chão. Amos Lawrence continuou a apoiar o esforço para tornar o Kansas um estado livre. Em 1857, Lawrence novamente cavou no bolso e doou US $ 12.696 para estabelecer um fundo "para o avanço da educação religiosa e intelectual dos jovens no Kansas".

Eventualmente, em 1861, Kansas foi admitido na União como um estado livre. A cidade de Lawrence desempenhou um papel importante neste desenvolvimento, e vários de seus residentes se tornaram líderes no governo do início do governo. Mas as feridas do período territorial continuaram a diminuir. Em agosto de 1863, durante a Guerra Civil, Lawrence queimou novamente: Willian Clarke Quantrill, um chefe de guerrilha confederado, liderou sua banda de fúria na cidade, matou mais de 200 homens e meninos e incendiou o lugar.

Apenas alguns meses antes, Lawrence recebeu aprovação da nova legislatura estadual para construir a Universidade do Kansas em sua cidade. Os cidadãos precisavam arrecadar US $ 15.000 para fazer com que isso acontecesse, e a incursão quase apagou todos. Mais uma vez, Amos Lawrence veio ao resgate, cavando no bolso por US $ 10.000 para garantir que Lawrence, Kansas se tornasse o lar da universidade estadual.

Em 1884, Amos Lawrence finalmente visitou a cidade que carregava seu nome. Cidadãos lançaram o tapete vermelho para homenagear seu homônimo. Ele foi honrado pela universidade que ele criou. Ele foi convidado como o convidado de honra para vários outros eventos. Mas Lawrence sempre foi uma pessoa muito particular, e o hoopla em sua visita era demais. Ele ficou por um par de dias, depois voltou para casa em Boston. Ele nunca mais visitou.

Para os habitantes do Lawrence moderno, Amos Lawrence desapareceu da memória. Um repórter escrevendo sobre ele em um recente artigo de jornal local não sabia que ele havia visitado a cidade. Mas o apoio e o dinheiro de Lawrence eram essenciais para fazer do Kansas um estado livre. Quando Lawrence respondeu ao tratamento brutal de Burns, ele mostrou como um cidadão pode ficar chocado por complacência e ação - e assim fez história.

Por Robert K. Sutton, Zócalo Public Square
Smithsonian.com 
16 de agosto de 2017 

Robert K. Sutton  é o ex-historiador-chefe do Serviço de Parques Nacionais. Ele é autor de  Stark Mad Abolitionists: Lawrence, Kansas, e a Batalha sobre Escravidão na Era da Guerra Civil  (Nova York: Skyhorse Press, 2017) . Ele escreveu isso para  O que significa ser americano , um projeto da Smithsonian e Zócalo Public Square.

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terça-feira, 15 de agosto de 2017

LAMPIÃO e a inversão de valores

Quando tinha por volta de 10 anos de idade, já gostava de ouvir as histórias que minha avó paterna contava. Chamava-se Leonízia. Era a nossa vovó Santa, esse apelido, ela tinha desde pequena. Quando ela sentava em sua cadeira de balanço na varanda de nossa casa, corríamos a sentar em sua volta, para ouvir suas histórias de vida, envolvendo sua família e casos de outras pessoas. Vibrava quando ela contava a respeito da invasão de Mossoró por Lampião e seus cabras e nos falava da visita que fizera à cadeia dos Paredões, para ver o cangaceiro Jararaca, juntamente com os curiosos da cidade.

Desde menino sabia que Lampião tinha sido um dos piores bandidos que agia em boa parte do nordeste brasileiro. Contava-se as estripulias que ele fazia em livros e jornais daquela época em que ele viveu e também muito depois, quando os jornais entrevistavam cangaceiros regenerados que tinham passado longos anos nas prisões da Bahia e de Pernambuco e também os atingidos por ele.

Todos eram unânimes em relatar os roubos, os saques, os sequestros, as carnificinas, os requintes de perversidades que Lampião fazia com verdadeiro terror às suas vítimas. Quem não se recorda dos soldados mortos friamente na cadeia da cidade de Queimadas na Bahia? Quem não lembra da brutalidade do bando em atacar a família Gilo na fazenda Tapera em Floresta, Pernambuco? Esses fatos foram testemunhados e estão em livros para quem quiser saber quem era esse bandido.

E por que agora existe essa inversão de valores em dizer-se que Lampião era herói? De onde vem esse branqueamento de sua perversa história?

Virgulino Ferreira, o Lampião, foi o maior bandoleiro nordestino, e porque não dizer; também guerrilheiro e estrategista? Isso não podemos negar.

Defendo que esse branqueamento da história perversa dele, deu-se a partir de 1964 com a ditadura implantada no Brasil, pelos militares, onde alguns brasileiros tornaram-se guerrilheiros para combater o regime ditatorial. Os comandantes dessa guerrilha, incentivaram seus comandados a lerem sobre Lampião, como foi o caso do líder guerrilheiro Carlos Marighella, que lutou contra a ditadura no Brasil. Isso pode ser visto pelo testemunho de Mário Magalhães, autor do livro "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo" na página 396.

Também podemos verificar que um dos livros indicados ao famoso guerrilheiro Marighella, por outro líder guerrilheiro chamado Joaquim Câmara Ferreira, do Partido Comunista Brasileiro, foi o livro "As táticas de guerra dos cangaceiros" de Christina Matta Machado.

Marighella e Joaquim Câmara, admiravam o homem que tinha lutado em seis estados nordestinos e que suas táticas de colunas móveis, (elaboradas por Lampião), tinha resistido por quase 20 anos.

"Temos que ser como Lampião", repetiam para os demais guerrilheiros.

Até mesmo a organização de esquerda, a Inter-nacional Socialista, tentou por sobre Lampião a ótica da guerrilha. (A Era dos Extremos pág. 85 - Eric Hobsbawn) - E isso também não podemos esconder pois realmente ele era um excelente guerrilheiro.

Daí em diante, passou-se a erradamente falar-se de Lampião como sendo um líder social, coisa que nunca lhe passara pela cabeça, pois antes de matarem seu pai, Lampião já roubava, motivo esse que, passou a ser perseguido pela polícia.

Os crimes mais funestos de Lampião estão registrados, e não se pode esconder ou fazer que tais não existiram. Foram praticados com requintes de perversidade. Lampião nunca foi um paladino da justiça. Tornou-se ladrão e assassino no decorrer de sua vida. Lógico que não concordo com a forma como ele foi tratado tanto pela lei quanto pela justiça, antes dele se tornar o que se tornou. Mas daí achar que ele lutava pelo social? Lutava para o povo libertar-se do julgo dos coronéis? Vai uma boa distância!

Quando vejo postagens nas redes sociais, enaltecendo Lampião, falando que ele era contra o domínio dos ricos sobre os pobres, vejo que, esses que o defendem, não conhecem o mínimo de sua história. E se conhecem, estão desviando e criando uma verdade falsa, onde a própria história derruba seus argumentos. Talvez alguns o façam por ingenuidade, outros talvez propositalmente. Mas digam-me... a quem interessa perverter a história? Lampião é um mito e simplesmente não podemos dizer o contrário.

Foram mitos nos EUA o famoso Billy the Kid, mas era bandido - nunca a história o pintou diferente disso. Outro mito foi Jesse James, assaltante de banco... mas era bandido. Outro mito foi Butch Cassidy, que ao lado de Jesse James e Billy the Kid, brilhou como um verdadeiro mestre na arte de roubar bancos e trens. Eram bandidos. Outro mito foi o da dupla americana Bonnie and Clyde que também rendeu filmes romanceados contando a história real de Bonnie Parker e Clyde Barrow, um jovem casal de assaltantes de banco e assassinos que aterrorizaram os estados centrais dos Estados Unidos durante a Grande Depressão no país. Ninguém quis mudar a história deles.

Lampião era bandido. Ninguém irá conseguir mostrar o contrário, mesmo insistentemente, dizendo que ele era um homem voltado para causas sociais. 

Mesmo mostrando respeito pelas pessoas que insistem em afirmar que ele foi um revoltado com as injustiças que sofreu, e que em parte concordo, continuo a afirmar que Lampião era um bandido de alta periculosidade e que em vez de defender os mais pobres, aterrorizava-os com seus crimes hediondos. Era assim Lampião!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

NEGROS DOS PONTÕES

NEGROS DOS PONTÕES OU DOS ESPONTÕES E A RELAÇÃO COM A CONFRARIA

video
Vídeo produzido por
https://www.facebook.com/jtavaresnet/videos/945648108829856/?hc_location=ufi

São três os grupos que compõem os eventos voltados aos festejos do rosário na cidade de Pombal, mas apenas . Pontões estão intrinsecamente ligados à Irmandade e à devoção ao rosário. O Reisado não é um grupo típico das festas dos Negros do Rosário. Câmara Cascudo, em seu Dicionário do folclore brasileiro, diz que Reisado é a denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera de dia de Rei. Em Pombal, o Reisado foi incorporado à Festa dos Negros do Rosário no inicio da década de 1960. Os Congos (Congo ou Congada) são danças cujo objetivo, assim como o Reisado, é celebrar as festas de Natal, de Reis e do Divino Espírito Santo, mas que também foi incorporado aos festejos de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito e, por fim, os Negros dos Pontões. Apenas esses últimos, Negros dos Pontões, ou dos Espontões, estão diretamente ligados à Irmandade dos Negros do Rosário, em todas as ocorrências no Brasil, e formam o único grupo a sair às ruas a partir do nono dia que antecede o domingo do encerramento da festa. É formado, desde a sua origem, por membros de uma mesma família: os Rufinos, que descendem de negros escravizados residentes originalmente na zona rural, em terras herdadas dos seus antigos senhores, o que reforça a hipótese de Manoel Cachoeira e Joaquina da Vassoura virem a ser do tronco da família RUFINO, hipótese que é comungada por João Coremas, que informou não ter chegado a conhecer os dois, mas que conviveu com Francisco Rufino, rei que sucedeu Manuel Cachoeira, provavelmente entre 1950 e 1952.

O povo de Pombal se costumou a chamá-los pela denominação Os Negros dos Pontões mas, segundo Câmara Cascudo, o correto seria Os Negros dos Espontões* e a Dança dos Espontões. A sua formação não tem um número Exato de pessoas, porém é o mais numeroso entre os três grupos, constituído apenas por homens. Exibem-se em dois cordões, encarnado e azul. Até o final da década de 1960, todos trajavam vestes brancas. O que diferenciava os cordões eram as cores dos lenços que os componentes traziam em volta do pescoço: azul e vermelho. Nos dias atuais, o grupo trajam chapéus de palha enfeitados com fitas coloridas, e nas mãos trazem lanças (pontões) terminados em maracás, enfeitados também com fitas multicoloridas. As lanças são para abrir caminho na multidão durante a procissão como para fazer as figurações na dança e marcar ritmo da música entoada por urna banda formada por um fole, pifano, prato, caixa, tambor e pandeiros. O grupo não canta.

Os Negros dos Pontões têm um caráter semelhante a um grupo militar, com a função de fazer o Cordão de Segurança e a guarda do Rei da Irmandade do Rosário durante a procissão. O chefe é chamado de Capitão dos Pontões e é o responsável por marcar o ritmo, tanto na música como na dança, que em sua encenação lembra uma batalha. Em Jequitibá - MG, o nome do grupo similar aos Negros dos Pontões de Pombal é Guarda de Nossa Senhora do Rosário. Lá eles usam lanças enfeitadas nas cores brancas e azuis, sem as fitas coloridas ou maracás nas pontas das lança, mas os passos de dança são idênticos aos de Pombal, com algumas outras coreografias mais. Já em Caicó, o grupo é denominado de Negros do Rosário, e as lanças se assemelham mais à ocorrência em Jequitibá, Minas Gerais.

Aos sábados os Negros dos Pontões costumam visitar casas e a feira livre para se exibirem e recolherem dinheiro para a manutenção da Irmandade dos Negros do Rosário.
A solicitação de dinheiro é feita com o componente colocando sobre a cabeça do feirante a lança enfeitada com fitas coloridas, agitando ritmadamente os maracás, até que a pessoa faça a doação ou simplesmente agradeça a gentileza.

No dia da Procissão, o grupo acompanha o Rosário e faz a proteção do Rei e da Rainha em silêncio, sem dançar e sem tocar as maracas, como se a preocupação única fosse a prontidão para a defesa da corte real.

* Espontão é uma meia lança usada pelos sargentos da infantaria francesa no século XVIII e com uso idêntico na Idade Média.

Do livro "A Irmadade dos Negros do Rosário de Pombal" de Jerdivan Nóbrega de Araújo

Em primeiro plano a Igreja do Rosário de Pombal-PB.
Foto J.Tavares de Araujo Neto

O amigo Jose Tavares De Araujo Neto escrevendo em sua página, no FB nos explica um detalhe histórico dessas duas igrejas.


POR TRÁS DE UMA BELA IMAGEM, HISTÓRIAS DE SANGUE E PRECONCEITO RACIAL QUE ENVERGONHAM POMBAL

Em primeiro plano a Igreja do Rosário de Pombal, também denominado Igreja Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1721, que originalmente se chamou Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Esta foi a forma que os colonizadores portugueses encontraram para homenagear Nossa Senhora do Bom Sucesso, santa da Igreja católica, que jogou suas bênçãos para que os bandeirantes, sob o comando do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, chacinassem toda uma tribo indígena que morava no lugar.

Ao fundo, a atual Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, fundada em 1872, que foi construída para substituir a antiga, em represália à decisão do bispo de Olinda, que autorizou que os negros pudessem frequentar a primeira.

Esta foi a forma que a elite branca de Pombal encontrou para respeitar a decisão soberana do bispo sem ter que passar pelo constrangimento de se misturar com os negros.

Tende piedade de nós!


domingo, 6 de agosto de 2017

Guerras de estilingue

Baladeira, baleadeira, batoque, badogue, estilingue entre outros nomes, era a brincadeira da meninada de meu tempo. Guerreávamos usando como munição a mamona - Ricinus communis L., conhecido popularmente como carrapateira, entre outros nomes. - Nós mesmos fabricávamos nossas "armas de guerra" e de matar passarinhos, para engolir o coração ainda quente das pobres aves. Achávamos que fazer isso nos daria mais pontaria.
Íamos na borracharia próxima e catávamos câmaras de ar rasgadas e tirávamos as tiras para colocarmos nos paus retirados da goiabeira (os melhores) em formato de ípsilon e colocávamos um suporte de couro que servia como contendor para o objeto ou munição que se desejava arremessar. Enfeitávamos e pendurávamos em nossos pescoços e com tórax desnudos e somente usando calções e descalços, corríamos pelas ruas do Seminário da Prainha em Fortaleza, fazendo guerra uns com outros.
Imaginem se tivéssemos essas "armas de guerra" bem estruturadas como as vemos hoje em dia! (vejam que belas são hoje em dia, nas fotos.)
As baladeiras hoje são refinadas e com designers futuristas, onde meus netos vibram em possuir uma. Apenas agora, com uma consciência - imposta é claro! - para não atirarem em passarinhos e lagartixas nas paredes do nosso quintal (ainda tenho quintal viu? Privilégio!) E claro, ia esquecendo de dizer: sem saírem correndo nas ruas. Os tempos mudam. E como mudam!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mulher Quinha Flor

A mulher é a dádiva que cria vida e com esse poema desconexo de rimas (pra que rimas?) falo como vejo minha dona! 



Quinha Flor são mais de 50 anos de amor por você!



terça-feira, 25 de julho de 2017

Um relato da Volante do Sargento Quelé

Sargento Quelé X Cangaceiro Bom Deveras


Clementino José Furtado, o Clementino Quelé
Foto tokdehistoria.com.br
"Preocupado com o crescente prestígio dos cangaceiros, principalmente porque vinham impondo derrotas sucessivas às volantes, o governo de Pernambuco encetou uma forte campanha contra o bando de Lampião e outros, com atuação na zona sertaneja, ampliando-a até aos coiteiros pobres e remediados. Os coiteiros ricos pouco sofreram com o projeto, não só em razão do poderio econômico que detinham, como em função da força política desfrutada no interior, com reflexos na capital. 

A ação governamental exercida por intermédio do chefe de polícia Eurico de Souza Leal, consistiu em aumentar os efetivos policiais no interior, com relevo na área afetada pelo flagelo do banditismo; contratação de homens da região para servirem de rastejadores, facilitando assim a mais rápida mobilização das volantes e do cerco aos coiteiros, procurando impedir que se contactassem, ou mesmo auxiliassem os bandidos. 

Com idêntico objetivo, reuniram-se no Recife, no mês de dezembro, os chefes de polícia dos estados da Bahia, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte e Ceará. Do encontro, resultou um pacto de mútua assistência no combate ao banditismo, incluindo-se na pauta de deliberações a permissão do livre acesso das volantes àqueles estados da Federação, independentemente de qualquer autorização superior. Tal medida aterrorizou as populações locais, que passaram a ser hostilizadas pelas tropas policiais dos estados vizinhos. 

Essas providências oficiais dificultaram um pouco a atuação dos cangaceiros. Porém, Lampião, bastante arguto, minimizou a situação, contornando os obstáculos impostos, por meio de excelente relacionamento mantido com parte dos sertanejos rurícolas. Em conseqüência disso obteve resultados satisfatórios. As volantes faziam justamente o contrário, ao invés de conseguirem a amizade da população, primavam pelos espancamentos, humilhações e odiosidades. 

As brutalidades cometidas pelos policiais eram tão acentuadas que se chegou ao ponto de alinhar-se cangaceiros e coiteiros como um único corpo social à margem da lei. Por isso, as volantes redobravam os espancamentos, pois com o bando de Lampião muitos sertanejos nordestinos tinham filhos, ou irmãos, tios ou sobrinhos, amigos de infância, compadres e os milita-res exigiam notícias desses seus parentes ou amigos. 

Toda espécie de barbaridade praticava-se contra o coiteiro, com a desculpa de que ele era um indivíduo nocivo à sociedade, desprezível, abjeto, vil, desmerecedor de qualquer piedade e respeito. Atento à mobilização oficial, Capitão Lampião dividiu o bando em três partes, determinando a Sabino Gomes e a Bom Deveras, chefes dos sub-bandos, que não poupassem os seus inimigos e os de seus amigos. Ordenou que devastassem o sertão, promovessem saques e toda sorte de tropelias. 

Bom Deveras foi o primeiro a sair do coito e, obedecendo às decisões do capitão, tocou fogo na fazenda Retiro, de propriedade de Olegário Carvalho, inimigo de parentes de Sinhô Pereira, o ex-comandante de Lampião. As pastagens trans-formaram-se em cinzas. O gado, conduzido ao curral, foi abatido a tiros e depois untaram as reses de querosene, incendiando-as, a seguir. 

Informado das atrocidades de Bom Deveras, o sargento Severino reuniu a sua volante e saiu no encalço do bandido. Fez pousada na fazenda Pedras, por onde havia transitado o cangaceiro com seus quinze asseclas, fazia poucos dias. 

No outro dia, seguiu para o povoado Preguiça, na esperança de adquirir informações, por meio do bodegueiro Zequinha, que lhe serviu uma lapada de anis-estrelado. Soube, somente, que Sabiá tinha estado atrás da noiva, agregada da Fazenda Poção, de propriedade de Donana Pereira, viúva do major Fernando Pereira. 

O sargento marchou imediatamente para a fazenda de Donana, mas nada conseguiu. Sebastiana havia fugido com o cangaceiro, sem deixar qualquer pista. Donana achava-se indignada com a atitude da sua ex-serviçal. Os soldados foram alojados no depósito de algodão, ficando sempre dois de guarda, em revezamento de quatro em quatro horas. 

Sargento Severino farejava cangaceiros. Passaram a noite inteira vigiando a fazenda, com o intuito de encontrar alguma anormalidade, que pudesse levantar suspeitas e incriminar Donana como coiteira, contudo nada de incomum surgiu. Tomaram café com beijus servidos por Perpétua, na cozinha da casa grande e rumaram para a fazenda Glória, onde passaram a tarde e a noite, sem que soubessem notícias dos bandidos. 

Quando o sol ia despontando, chegavam à fazenda dois homens, com trajes de vaqueiro, dizendo-se soldados. O cabo Pedrão, aproximou-se dos recém-chegados e perguntou: 

— Sordado de gibão e perneira? 
— Somos sordados sim e queremos falá com o sagento pois temo um recado prá ele. 
— O sagento num tá não. De qui volanti ocês são? 
— Nóis é da volanti de Quelé 
— respondeu o mais moço dos dois. 
— Qui recado ocês tem prá dá pru sagento? 
— indagou o cabo. 
— E qui nossa volanti deu urna brigada cum Bom Deveras e nosso comandante soube pur Zequinha da budega da Priguiça qui o sagento Severino teve nesta bandas e mandou nóis percurá e vim chamá ele, pois nossa volanti tá isperando na fazenda Três Coração.

O sargento Severino estava observando a conversa, sentado em um tamborete e ordenou a retirada: 

— Eu tava aqui cabôco e iscutei a cunveça toda. Si fô mintira de ocês. Si fô cilada eu mato os dois — falou asperamente o militar. 

— Vamo simbora, pessoá. Mais rápido do qui imediatamente. — bramiu o cabo Pedrão. 

Sem demora, seguiram para onde se encontrava a volante de Quelé. A primeira coisa que viram, quando chegaram, foi o vaqueiro da fazenda amarrado no esteio do alpendre da casa onde morava. 

— O xente... Pur qui é qui este home tá assim amarrado — perguntou o sargento Severino. 

— Este safado é um coiteiro sem-vergonha, qui veve protegendo cangacêro — respondeu Quelé. 

— Desamarra o homi, rapais. Purqui ocês de Nazaré fazem isso? Irra véis de brigarem cum Bom Deveras ou mêrmo Lampião, ocês vevem judiando estes pobes. Ele pur exempo sabe onde tá Lampião? Onde tem cangacêro? — questionou Severino. 

— Ele sabe e já dixe onde ele tá. 

— Num é pussive, ocês tem a informação qui pricisam i ainda martratam um homi deste? Isto é baixeza, é uma covardia, nóis não usamo isto não. A gente só judiamos cabra-safado mêrmo. 

Soltaram o vaqueiro e as volantes reunidas foram para o coito indicado. Depois de muitas cautelas invadiram o esconderijo, mas este já se achava vazio. Os cangaceiros haviam desaparecido. No rastro dos bandidos as volantes passaram no Riacho Seco e, no outro dia, ainda seguindo as pegadas dos cangaceiros, chegavam à fazenda Aroeira. 

Quelé percebeu que a sua tropa estava sem suprimento e mandou Patativa, um contratado, juntamente com dois soldados, em busca de mantimentos no povoado Olhos d'Agua. Quando os gêneros de primeira necessidade chegaram, as volantes marcharam em rota batida, passando pela fazendinha de João de Beto, depois por Lagoinha e daí direto para a fazenda Cauã. 

Era um dia de sábado e o sargento Severino resolveu seguir para Triunfo, onde faria a feira. Quelé acompanhou o sargento e, quando estavam a pouca distância da cidade, o cabo Pedrão dirigiu-se ao seu comandante dizendo: 

— Ói... Num vão pra Triunfo não, purgue nóis vamo brigá cum cangacêro e não demora mais não. 

— Mais tá todo mundo istrupiado, ninguém güenta mais não. Vamo descansar uns dias e asdispois nóis vamo vortá. 

— Ocês vão simbora — aparteou Cabo Roxo. É purgue num querem brigá com os cabras, hoje faz oito dia qui nóis tamo seguindo as pegadas deles, só Deus é qui pode impatá de nóis brigá cum eles. Si eu fosse ocês num ia simbora, ficava para ver como é qui si briga cum cangacêro qui ocês num sabem. Vamo ficá pur aqui qui nóis sabe nutiça já da cabruada de Bom Divera. 

Quelé parou e resolveu pensar no que dizia seu auxiliar. 

— E verdade. Acho qui nossa tropa vai ficá e percurá mais os cangacêro — rugiu Quelé. 

Entretanto, não havia meios para demover a volante de Severino. Seus homens desejavam ir à feira e não atenderam às ponderações do sargento. Quelé e seus camaradas deram meia volta e foram para a fazenda Boa Vista. A volante acomodou-se na falda de um serrote, bem próximo da sede da fazenda. Já fazia oito dias que os soldados viajavam e todos estavam exaustos, mas a obstinação de encontrarem os cabras era muito maior, como a vontade de brigar com os cangaceiros estava acima de todos os esforços físicos. 

Ao amanhecer, Quelé, com aspecto de quem estava morrendo de sono, voltou a seguir as pegadas e estas iam diretas para a fazenda Boa Vista, onde residia João Rufino, coiteiro de larga experiência. Cabo Roxo perguntou aos seus companheiros: 

— Como é, gente? Vamo chegá de supetão na casa do coiteiro ou vamo vigiá-lo premêro? 

— Vamo chegá de uma veis só, já tá muito chata esta viage. Parece qui os bichos sumiro da terra. 

— É perigoso, Quelé. Não vamo chegá assim de supetão não. O safado do João Rufino avisa os cabras num minuto. 

— Será qui os cabras tão aí? Eu penso qui não. 

— Uma coisa mim diz qui tá todo mundo aqui. Ocê vai vê. De quarquer manêra nóis vai ficá argumas horas vendo a casa. Vamo vê si tem gente indo i vindo i si João tá im casa. 

Permaneceram observando a casa por algum tempo, mas Bal divisou no céu urubus voando em círculo e comentou: 

— Quelé!!! Oi ali. Tá vendo aqueles urubus? Aposto qui é coito de cangacêro. 

Quelé olhou, coçou o queixo e resolveu: 

— Vamo todos fazê medo a João Rufino. 

Desceram a rampa do serrote numa velocidade impressionante, cercando a casa do coiteiro, o qual estava acocorado consertando a cincha da sela, no alpendre da moradia. Assustado, levantou-se segurando no braço do seu filho Gustavo, que ficou agitado diante do cerco e da casa repleta de soldados. Falou alto para ser ouvido até na cozinha, onde se encontrava sua mulher preparando a refeição matinal. 

— Menininha... Bota o café no fogo, é os homi de Quelé e cabo Roxo qui chegaram. Dirigindo-se ao cabo, velho conhecido, perguntou-lhe: 

— Anda caçando cangacêro, Roxinho? 

— Não, nóis não andamo caçando bandido, não — respondeu Roxo. Nóis andamos é caçando urubu. Aqueles qui estão voando ali, é na carniça de uma rês ou é no coito de Bom Deveras? 

— Ali não é nada não. 

— Tá tremendo, coitêro, nóis vamo lá. Se fô um coito, si prepare pra morrê. Coiteiro mintiroso. — disse Quelé. 

— Qual nada. Os cangacêros tão longe daqui. 

— Coiteiro safado, nóis vamo simbora; um dia eu lhi pego. Vamo, turma, deixe este cabra mangando de nóis, ele pensa qui somos umas bestas. 

Do mesmo modo que chegaram à casa do coiteiro, retiraram-se. Partiram para a caatinga e, assim que caminharam numa trilha encontrada no espesso arranhento, Quelé levantou o braço, mandando parar a tropa. 

— Ocês viram que João tava morto de medo? Ói, os cabras tão pur perto, vamo vortá e cercá a casa e, no redor da fazenda não é prá passá ninguém, vamo passá o dia inteiro e si fô priciso inté a noite por aqui no cerco, arguma pessoa vai vim do coito prá fazenda ou da fazenda pru coito. 

O cerco foi estabelecido. Ninguém conseguia passar nas imediações da casa do coiteiro, sem ser percebido pelos membros da volante. Quelé e Roxo, trepados em um umbuzeiro, observavam pacientemente tudo que se passava na sede da fazenda. As horas corriam sem qualquer anormalidade. Entretanto, depois de um longo período de espera, Quelé divisou um rapaz que gesticulava ao lado de João Rufino, saindo, a seguir, com o cabresto na mão. 

— Pedro Zamba — disse Quelé — vá com Paulinho e prendam aquele rapais e tragam ele aqui. 

— Agora mêrmo — respondeu o soldado. 

O rapaz vinha assobiando, sem nunca imaginar que quatro olhos e dois rifles engatilhados o espreitavam numa curva. Tinha média estatura, moreno, queimado do sol, cabelos lisos puxado a cabo-verde. Trajava calça de pano barato, de cor que devia ter sido, quando nova, cinza-escuro, mas que surrada pelo uso, parecia vestes de cigano pobre; a camisa, era de fazenda fina, com listras brancas e azuis, e os pés vinham calçados de um tipo de alpercatas de couro curtido, conhecidas como "pargatas-de-até-logo". 

Caminhava tranqüilo, quando, de repente, tomou um tremendo susto, ao escutar: 

— Têje preso, cabra... Si corrê, morre. Era Pedro Zamba que lhe falava em voz firme, apontando-lhe o rifle, à altura da cabeça. 

O rapaz não se moveu, viu os dois soldados saírem do mato, recuou um pouco e parou. 

— Pra donde vai? 

— Vô pegá um burro. 

— Vamo ali. Asdispois ocê pega o seu burro. 

Levaram o rapaz até onde se encontrava Quelé. Este o interrogou: 

— Não minta. Si eu pegá ocê na mintira, eu lhi arrombo os miolo. Diga... Adonde tão os bandido, vamo, diga. 

— Seu sagento, eu não sei não, eu ia pegá um burro.

— E quem qué sabê se ocê vai pegá burro ou não. Eu quero sabê adonde é o coito. 

Justo, um soldado muito malvado, ouvia o interrogatório, já irritado disse: 

— Cabra-safado, ou ocê fala a verdade ou morre agora mêrmo. 

Em vista da ameaça de morte, o prisioneiro viu que a sua situação não era das melhores, quanto mais quando se tratava da volante de Quelé, conhecidíssima pelas violências que praticava contra cangaceiros e coiteiros. Tratou de salvar a sua denunciando. 

— É, vou falar a verdade; eu ia dá um recado a Bom Divera, qui seu João mandou. Os cangacêro já sabe qui ocês tão pur aqui e tão privinidos. 

— Bom Divera tá no coito? 

— Tá, sim sinhô. 

— Minha gente — disse Quelé. — Bom Divera tá no coito e já sabe da nossa presença. Não foram imbora, não. Tão isperando. É macho mêrmo... Ai... Ai... Ai... Quem mi dera o majó tá hoje pur aqui, ou mêrmo Mané Neto. 

— Quelé! — falou Bal. — O bandido vai tê uma surpresa, ele tá pensando qui a gente não sabe qui ele tá isperando por nóis. 

— É mêrmo — frisou o sargento. — Vão prendê João Rufino. 

— Quelé... É mió i a turma toda, a gente pega o home e leva ele mais nóis. Si argum de nóis morrê, ele também morre — propôs Roxo. 

A sugestão de Cabo Roxo foi aceita. Quando menos esperava, João Rufino dos Santos Oliveira foi preso pelos homens que julgava bem distantes, razão por que antes havia avisado Bom Deveras. Não sabia, porém, que o mensageiro tinha sido apreendido e a notícia não chegara ao coito. 

— João... — gritou cabo Roxo. — Vá levá a gente no coito e não diga nada, pois já tô cheio das sua mintiras. Vamo... Vamo... Num demore, não. 

João Rufino nada respondeu. Colocou o chapéu na cabeça. Pálido de medo, a voz trêmula, suplicou: 

— Quelé... Pode mim mata, mais eu não digo adonde Bom Divera tá. Eu sei qui ocês tem razão de tá caçando cangacêro, mais eu não vô traí um home como Bom Divera, pruquê, quando eu tive um fio doente, ele mi deu cinquenta mil réis prá eu tratá o minino. Si compadeceu de mim. Ele é um cabra bom mêrmo, de verdade. 

— Tá certo, João, mais a gente sabe onde ele tá. Este rapais qui eu prendi, de nome Quincas Futucado, já mim dixe adonde é o coito, mais si nóis não soubesse adonde era o coito ocê ia dizê de quarqué manêra. Os cangacêro dão dinhêro a ocês, prá ocês não enganarem eles. Peça a Deus e à Vige Maria Santíssima qui ninhum de nóis morra. Fique preparado; si argum de nóis morrê e si nóis chegá no coito e os cangacêro já tivere ido, eu vorto aqui e acabo cum tudo. Viu? coiteiro sem-vergonha. Fique dentro de casa, si saí, morre. 

Com Futucado servindo de guia, os soldados seguiram para o coito. Fizeram pousada à sombra de uma quixabeira, para combinarem o cerco ao esconderijo dos bandoleiros. Como tudo indicava que Bom Deveras estava nas proximidades, redobraram a atenção. Quelé dirigiu a palavra aos comandados, advertindo: 

 Ocês sabem o qui é um combate e ainda mais na presença de Bom Divera, um dos escolhidos de Lampião para comandar cangacêro. Vamo cercá o coito, mais é priciso cuidado, muita cautela com a retaguarda, pruquê ele é mestre em atacar pela frente e pelas costa. Cerca todo mundo e deixa o pessoá dibaixo de fogo cruzado. Qui ninguém caminhe de peito aberto, todo mundo caminhe de lado. Vamo de dois em dois, ou de treis im treis. Ói, num quero qui ninguém entre no coito pra brigá no punhá ou na faca. Principalmente ocê — apontou para Pedro Zamba, perito no manuseio de um punhal ou facão. — Não devemo nos arriscá em uma luta de punhá, si fô dois contra um, num tem remédio. Ocês já pensaram, nóis chegá e dizê pru majó qui um dos nosso morreu pruquê tava brigando de punhá? Ele, o majó já dixe qui quem briga cum unha é gato. O revorve é qui dicide a briga. 

Beberam água, o soldado Justo tomou uma bicada de cachaça que carregava no cantil, e quietos, silenciosos, sem provocação de qualquer ruído, avançaram. Quando estavam a poucos metros do coito, separaram-se em grupinhos. O esconderijo do famoso cangaceiro estava situado no lado sul de um morro. Altas árvores amparavam os bandidos, muitas pedras circundavam o local e o acesso era dificílimo. O lugar tinha sido habilmente escolhido. 

Quelé perguntou ao prisioneiro: 

— Ocê sabe adonde fica os guarda e quem é eles? 

— Onte de tarde quem tava era Cobra Verde e Velocipe. Cobra tava lá im riba, na cabicêra do morro e o outo no arto daquelas peda. Só era dois. 

 Ocê tem certeza qui Bom Divera tá no coito? 

— Onte ele tava. Ontonte, tamém. 

— Minha gente, vamo seguir pur dentro destas baixadas — disse Quelé aos seus camaradas. — Vamo bem de mansinho. Vamo subi devagarinho as barrancas, pois eu acho qui o coito é ali no sopé do morro. Cuidado... muito cuidado cum as sintinela. 

A volante seguiu de acordo com as instruções do seu comandante e a cada passo mais se aproximava do coito. Bal avistou de relance uma tolda estendida no tronco de uma braúna. Que estava circundada por enormes bancos de macambira e gravatás amarelos, tudo misturado a um enorme número de moitas de cipós-de-leite. 

O soldado rastejou até bem perto de Quelé e sus-urrou: 

— Quelé... Psiu... Óia... Ali tem uma barraca e eu penso qui é a de Bom Divera. O chapéu qui tem lá é o dele, pode ter certeza. Vamo cercá-la; si fô mêrmo, eu quero vê si o cabôco é bom brigadô. 

— Vamo cercá, turma. Tomara qui seja ele mêrmo, hoje é o dia — dizia alegre Quelé, com a perspectiva de um encontro com o chefe do bando. 

Quando os soldados cercaram a barraca, ficaram alarmados porque não era barraca e sim um pano estendido, e não havia ninguém por perto. Quelé, com medo de uma cilada, acenou para os companheiros, a fim de recuarem apressadamente. Amparados pelas barrancas da baixa que circundavam o sopé do morro, os combatentes relaxaram um pouco e procuraram novas posições.

Nessa movimentação abrandaram a vigilância imposta a Quincas Futucado, e este, aproveitando o enfraquecimento da precaução que tinham consigo, partiu gritando: 

— Oi os sordados... Ói os sordados... Os sordados de Quelé... 

Nada mais disse, porque foi alvejado mortalmente, com dois tiros nas costas, produzidos por Justo e Bal. Quando os gritos do fugitivo ressoaram, o que se viu foi um tiroteio infernal. Rebentou urna fuzilaria espetacular, mais parecendo urna trovoada. Para felicidade dos integrantes da volante os tiros não os alcançavam, visto que estavam amparados nas rampas do morro. Quelé espalhou a soldadesca e respondeu à altura o tiroteio. 

Ao fim de uma hora, o silêncio voltou a reinar naquela parte do sertão, somente sendo ouvido o crepitar do mato seco e aos poucos a invasão de uma fumaça que a cada momento mais se avolumava. Os cangaceiros haviam incendiado a caatinga e a mata adjacente facilitando a fuga. Quando a volante, depois de muita luta com o fogo, penetrou no coito, encontrou morto o cangaceiro Braúna. Justo decapitou o cadáver e saiu a exibir entre os colegas a cabeça do cangaceiro, pendurada pelos cabelos. 

Cabo Roxo estava desaparecido com mais quatro companheiros. Seguiam a trilha dos cangaceiros, em meio a mandacarus e palmatórias. De uma elevação do terreno, Bom Deveras viu abobalhados na clareira os militares. Voltou-se para Cobra Verde, e disse: 

— Vá ali cum uns dos home e dê uma carrêra naqueles macaco. Num mate não, só faça medo a eles... 

— Cumpade!... — replicou Cobra Verde. Home cuma Roxinho num si dá carrêra, não. É mió deixá o infiliz im pais qui fazê medo. Num vamo mexê o cão cum vara curta, não. 

— É mêrmo... — disse Juriti. — Ou nóis acaba cum ele de uma veis só, ou deixa ele im pais. Fazê medo, dá carrêra a Roxo é mêrmo qui buli cum casa de marimbondo. 

Diante dos conselhos dos companheiros, Bom Deveras desistiu de escorraçar o Cabo Roxo e os seus camaradas. Sentou-se numa pedra roliça, os cangaceiros acompanharam seu gesto e Juriti começou a falar sobre o tiroteio havido naquele dia.

— Eu nunca vi tanta sorte cuma a destes macaco não morrerem todos hoje. Não vão morrê nunca mais. Si o coitêro do Futucado não corre gritando, eles ia ficá no cerco da gente, não ia ter saída não. Si a gente sabe qui o diabo do coitêro ia corrê, nóis dava pra matá uns quatro, mais a gente queria acabá cum aqueles cachorro, num deu certo. O qui vai si fazê?... Vamo isperá outa... Eu ainda acho qui nóis divia acabá cum Roxinho agorinha mêrmo. É menos um pra andá atrais da gente. 

— Não — intercedeu Cobra Verde. — É mió a gente pegá Roxo e Quelé duma só veis. 

— E... É mió mêrmo — aprovou Bom Deveras, que prosseguiu: — Mais, si Braúna não atira, a gente tinha pegado todos ele. Nóis cerquemo e quando eles subisse, as baixa era a hora. Eu sabia qui eles não ia recuá, apôis Quelé e Roxo são valentes mêrmo. Fez urna pausa, acendeu um cigarro e continuou: — Parece qui não perdemo ninguém. De uma coisa pode ficá certo: os macaco de Quelé num tem medo.

— Cumpade!!! Cumpade Bom Divera... O Braúna num tá, não — advertiu Velocípede, apavorado. — Será qui ele foi baliado no tiroteio? Ou correu do fogo? 

— Braúna? Braúna não é home de corrê de fogo não — salientou Candeeiro. — Nunca vi falá qui ele tivesse corrido de macaco e de tiroteio. Acho qui aconteceu arguma coisa a ele. 

— Vamo vortá... Vamo vortá pru coito. Num sei adonde eu tava quando deixei aqueles macaco covardes — enfurecido, gritava Bom Deveras. — Macaco só vai morrendo mêrmo. Os quinze qui nóis dexêmo vivo num paga um home cuma Braúna — finalizou. 

Agitados, com a possibilidade de não mais encontrarem Braúna com vida, os cangaceiros apressaram-se em retornar ao local do combate. Numa caatinga rala, alcançaram mandacarus, em cuja moita estava o cangaceiro desaparecido, morto, decapitado, com um ferimento no abdome, provocado por instrumento pérfuro-contundente. 

Entre a tropa de Quelé* e o bando de Bom Deveras ocorreram embates violentíssimos, até que o famoso cangaceiro foi liquidado no princípio de 1927 e alguns dos seus cabras se espalharam pela caatinga, com medo da repressão que lhes encetavam as diversas volantes de Pernambuco." 

* O Sargento Clementino Furtado, o famoso QUELÉ, faleceu em 1955 na paz de sua aposentadoria, no leito familiar.

Fonte: CANGACEIROS, COITEIROS E VOLANTES (José Anderson Nascimento) pgs 97-104








quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lampião, Coiteiros e Volantes

PEQUENO ESTUDO SOBRE O JOVEM VIRGULINO

O sertanejo plantava milho no dia 19 de março, dia dedicado a São José. Logo depois, plantava o feijão. Plantava também algodão que vendiam ao coronel que tinha uma descaroçadora, e o restante, era usado pelas mulheres da casa, com seus teares rudimentares onde faziam mantas ou tecidos grossos para fazer redes. Havia sempre, ou quase, uma ou algumas vacas e cabras, criadas para o leite diário e vez em quando para a carne da mesa, juntamente com a macaxeira e o cuscuz.

Pois bem, nesse cenário, encontrava-se a propriedade da família Ferreira, pequena, de onde tiravam o sustento. Nessa família nasceu aquele que iria revolucionar o sertão, não pelo social, para trazer melhorias para a população sertaneja tão maltratada pela seca e pelas autoridades, que não forneciam a contra partida de investimentos com os impostos pagos pela população, mas revolucionar a metodologia criada por homens que pegaram em armas e juntaram grupos de cangaceiros para atacar a fazendeiros e transeuntes nas estradas, roubando-os.

"Virgulino* era um destemido jovem, bom vaqueiro, inflexível na perseguição de uma rês barbatão, onde penetrava na caatinga, mato fechado, onde reinavam o xique-xique, a faveleira, o pião, o juazeiro. Era exímio e admirado. Nas festas populares era também admirado por todas as mocinhas, que reviravam os olhos e suspiravam na sua passagem. Dançarino dos bons tanto no xaxado quanto no forró. Tocava sanfona e era afamado repentista. Virgulino era um rapaz cheio de entusiasmo e participava de todas as festas da região. 

Fora das festas, era um excelente profissional do couro e do comércio. Trabalhou em almocrevia para seu pai e foi arrieiro do Dr. Delmiro Gouveia, onde conduzia cargas de couro em mulas e burros, de Pedra (atual Delmiro Gouveia, no estado de Alagoas) para Bom Conselho e Garanhuns, no agreste pernambucano, região que conhecia detalhadamente e palco de grandes combates entre cangaceiros e as forças oficiais. 

A sua família não era abastada como as dos seus antecessores Silvino e Sinhô Pereira. Pode-se dizer que era remediada. Vivia da criação e da agricultura. Seu pai, José Ferreira dos Santos, era pequeno proprietário rural. Não era pobre, "arrebentado", tinha recursos para prover regularmente a família. 

O fato histórico que registra o ingresso de Virgulino e de seus irmãos Livino e Antônio no cangaço, prende-se à inimizade alimentada entre os Ferreira e os Barros, apelidados de Saturninos*. Estes, com mais recursos e parentes influentes na política local, deram início a esbulhos no sítio pertencente a José Ferreira, de nome "Serra Vermelha". 

José Alves de Barros, vulgo Zé de Saturnino, e seu sogro João Nogueira, proprietários do sítio "Pedreiras", confinante com o dos Ferreira, acusavam os filhos de José Ferreira de lhe maltratarem animais e de furtarem chocalhos das suas cabras, avisando-os de se manterem afastados dos seus domínios, sob pena de sérias represálias. As rusgas entre as famílias começaram praticamente em 1916. 

Houve um dia em que Virgulino e seu irmão Livino passavam com o gado por um pasto de propriedade de Saturnino, e foi o bastante para serem admoestados pelos agregados do sítio Pedreiras, iniciando-se encarniçado tiroteio, do qual saiu vítima de morte um jagunço de Saturnino, e Antônio Ferreira, alvejado na coxa. Para apurar responsabilidade foi instaurado inquérito em 7 de dezembro daquele ano, cujo feito depois teve tramitação pelo Cartório do 12 ofício de Serra Talhada, em Pernambuco. O procedimento instaurado com o objetivo de apurar a autoria da infração à lei penal, foi arquivado. 

Os Saturnino, influentes econômica e politicamente, tiveram melhor tratamento pelas autoridades locais. As instituições, no sertão nordestino, eram fracas. As autoridades policiais eram nomeadas por indicação do chefe político regional, instrumentos dóceis aos seus caprichos. 

O Ministério Público era uma ficção jurídica: quando não desempenhadas as suas funções por leigos, ligados à política do lugar, os seus titulares recusavam abrir luta com os mandões da terra — os famosos "coronéis" — visto nela serem fatalmente derrotados com a remoção do promotor e a permanência da chefia situacionista. Melhor era contemporizar, não despertando processos que a polícia sabiamente adormecia... 

O júri, dominado pelas paixões da politicagem local, era fator preponderante de clamorosas injustiças, e os próprios juízes togados não tinham força de requisitar um soldado de polícia para o cumprimento de uma diligência. Viam-se, às vezes, na contingência de organizar bandos para o cumprimento das suas decisões. 

Na verdade, a família Ferreira começou a sofrer pressões, face ao comportamento de Virgulino e de seus irmãos Antônio e Livino, que eram fustigados pelo invejoso Zé Saturnino que se punha como vítima, sendo ele o motor de partida para assanhar a fera adormecida que existia no peito de Virgulino e de seus irmãos. A famíla foi sendo obrigada a transferir-se para o lugar conhecido por Nazaré, no município de Floresta, pouco distante de Serra Talhada. 

Com a efetivação da mudança, firmou-se entre a família Saturnino e a Ferreira um pacto, objetivando fossem cessadas as hostilidades entre elas. Pelo acordo, os Saturnino não circulariam por Nazaré e suas imediações e os Ferreira não iriam mais a Serra Talhada, evitando-se conseqüentemente um confronto que, na opinião de amigos comuns, seria sangrento, diante das antigas desavenças e constantes hostilidades. Entretanto, Zé de Saturnino e Nogueira, aliados, não cumpriram a parte que lhes tocava na convenção e passaram a frequentar com alguns cabras a feira semanal de Nazaré, amedrontando evidentemente os Ferreira. 

O fato é que certo dia Virgulino e seu tio Manuel Lopes trocaram tiros com Zé de Saturnino e Nogueira. A partir daí não se teve mais sossego. A falta de segurança da família era total, tendo em vista que a polícia passou a proteger o pessoal de Saturnino. Foi até destacado um soldado especialmente para essa tutela, uma vez que Ferreira, como era conhecido no início Virgulino, e seus irmãos estavam aterrorizando a localidade e causando sensíveis prejuízos ao comércio daquelas paragens. 

A essa altura já andavam armados e começavam a ter fama de valentes. Caracterizavam-se como cangaceiros: roupas de mescla, chapéus de couro com as abas viradas, lenços vermelhos no pescoço, punhais e facas, cartucheiras e rifles "papo amarelo" ou mosquetões. Virgulino já usava um punhal de cinqüenta centímetros de comprimento, com o qual sangraria mais tarde inimigos, delatores e estupradores. 

De Nazaré, os Ferreira mudaram-se para Água Branca, em Alagoas, localidade próxima ao atual município de Delmiro Gouveia, não muito distante da cachoeira de Paulo Afonso. Com as finanças abaladas e sofrendo ainda perseguições dos antigos inimigos pernambucanos, os Ferreira estabeleceram-se num lugar chamado Olho d'Agua, em um sítio arrendado, extraindo da terra os recursos necessários à subsistência, auxiliados por comboios de peles e de cereais que faziam para a Zona da Mata. A esse tempo, Virgulino e seus irmãos já haviam aderido ao cangaço, acompanhavam Sinhô Pereira e Luís Padre. A alcunha de Lampião ele a ostentaria até a morte. Dizem que existem três versões relacionadas à origem do epíteto. 

A primeira dá conta de que, quando atuava como almocreve na condução de comboios de peles, ao entrar em Água Branca, uma de suas mulas esbarrou em um dos lampiões da iluminação pública, pondo-o abaixo. Foi o bastante para que entre os próprios camaradas, nascesse o apelido. 

A segunda e mais precisa talvez surgiu na sua iniciação no bando de Sinhô Pereira, em um combate com a polícia em Buíque, Pernambuco. Para demonstrar ao seu comandante que tinha habilidade com o rifle, Virgulino empenhou-se bastante na peleja. Depois, comentando a luta com Luiz Padre, outro componente do grupo e primo de Sinhô, expressou: 

— O meu rifle, no pega desta noite, não deixou de ter clarão! 

Sinhô Pereira aproximava-se dos cabras, interferiu na conversa e sentenciou:

— Home, se é assim, o rifle deste menino é que nem um lampião! 

Na boca dos violeiros, entretanto, circula uma outra versão, fantasiosa inclusive, cuja veracidade é muito discutida. 

— Até aí Lampião 
Se chamava Virgulino. 
Porém num fogo de noite 
O seu amigo Sabino 
Perdeu na escuridão 
Um cigarro, em aflição, 
Que tomara de Ponto-Fino. 

Então disse Virgulino: 
— Compadre, preste atenção, 
Meu fuzil o alumia, 
Você acha no clarão... 
Sabino, olhando no barro 
Em procura do cigarro Disse: 
— Acende, Lampião". 

E assim foi batizado, 
Seu nome foi Lampião 
Se caía num lugá, 
Queimava a população; 
De longe ele alumiava, 
Mas, quando perto chegava, 
Incendiava o sertão. 

Depois de atuar no grupo de Sinhô Pereira, em algumas incursões perigosas contra as volantes, não só as do estado de Pernambuco, como as de Alagoas, Lampião pretendeu retornar ao seio da família, reintegrando-se, socialmente. Voltou para Água Branca, mas já estava sendo procurado pela polícia alagoana, notadamente pelo sargento José Lucena e os seus soldados. A sua família já não tinha sossego, sendo forçada a mudar-se mais uma vez. 

Foi então que se juntou a Antônio Matildes e a Antônio e Manuel Porcino. Seu pai, já em estado de viuvez, dispersou os filhos e foi viver sob a proteção de Sinhô Fragoso, fazendeiro em Mata Grande. Os filhos João, Ezequiel, que viria a ser o famoso Ponto-Fino, e Angélica seguiram para Bom Conselho e passaram a viver amparados pelo "coronel" José Abílio, que os sustentou por mais de quatro anos, até quando João Ferreira veio estabelecer-se no comércio de Propriá em Sergipe. 

Iniciando a sua vida de bandido destacado, Virgulino e os seus novos chefes fizeram um ataque a Pariconhas, no estado de Alagoas. Logo após o ataque àquela povoação do semi-árido alagoano, o bando teve no seu encalço a volante do sargento José Lucena, da polícia de Alagoas. A volante esteve à procura dos bandidos por toda parte e foi até a fazenda onde morava o pai de Lampião, na suposição de que encontraria o bando. Os soldados cercaram a casa e começaram a atirar, matando José Ferreira e Fragoso, proprietário da fazenda. 

A morte de José Ferreira foi uma das maiores tragédias na vida de Virgulino. Tinha sido pai amoroso, consciente dos seus deveres, bom amigo. Morreu antes de completar cinqüenta anos de idade. Na retirada para Pernambuco, onde se achavam mais seguros, os bandidos atearam fogo no interior de Alagoas, sob a voz austera de Lampião: 

— Baixem o facho nas casas. Alagoas vai ficá de sentimento. 

A atividade dos bandidos endurecia a vida dos sertanejos, como endurecia, também, o cerco que as volantes faziam aos malfeitores. Matildes abandonou o grupo, seguindo para a Paraíba, tendo assumido a chefia Antônio Porcino. Tempos depois, os Porcino deixavam o banditismo e embrenharam-se na Bahia. Lampião tornou-se, por isso, chefe do grupo de bandoleiros, posto supremo em que se manteve até à morte. 

Reuniu, logo após agosto de 1922, os ex-cabras de Sinhô Pereira: Antônio Rosa, Meia-Noite, Joaquim Coqueiro, Plínio, Bem-te-vi, Patrício, Raimundo Agostinho, João Genoveva, Pedrão, Zé Dedé, José Melão, Laurindo, João e Antônio Mariano. O apoio logístico dispensado a Lampião foi o mais notável durante toda a época da existência do banditismo. 

O "grito do mateu" era a senha anunciadora da sua presença, transmiti-da de ouvido a ouvido do coiteiro. O coiteiro era o sertanejo que dava asilo ou protegia os cangaceiros. Havia coiteiros por sugestão, ou imitação, simpatizantes ou admiradores do bandoleiro, frutos do mesmo meio, vítimas do mesmo mal de crescimento social ou jurídico, impulsionados pelos mesmos fatores, sujeitos, portanto, à mesma prevenção ou repressão dada aos protegidos. Havia, porém, os coiteiros por interesse, traficantes do crime, cúmplices do cálculo, que auxiliavam os bandidos, visando lucros e vantagens.

Por outro lado, existiam coiteiros coagidos, os que, reconhecendo a impossibilidade de obterem auxilio das autoridades legais, ajudavam os bandidos para não perderem a vida ou a propriedade. Nessa última classificação figuraram inúmeros vaqueiros, que, por sinal, foram os mais eficientes coiteiros de Lampião: roceiros, pequenos e médios proprietários rurais, comerciantes, caixeiros-viajantes. 

João Barroso, por exemplo, coiteiro de grande prestígio junto a Lampião, que tinha atuação em Alagoas, certa ocasião, num rasgo de coragem, desabafou: 

— O governo não pode com Lampião! Nós matutos não podemos. Nem as cobras podem com ele. Quem é o grande? Lampião! Então, eu vou ficar com ele." 

* Veja o comentário abaixo.

** Com quase certeza, isso fez que Zé Saturnino, sentisse inveja de Virgulino. 

Fonte: pequena parte em aspas, do livro de José Anderson Nascimento, CANGACEIROS, COITEIROS E VOLANTES.