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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LAMPIÃO: Chacina do Carro Quebrado

Lampião era desalmado sim! Nunca e por mais que tentem dizer que a sua história era de um revolucionário social, como alguns teimam em defender, o que ele era mesmo; era bandido sanguinário. 
Para mostrar isso, conto apenas uma  de suas peripécias que todos que pesquisam o cangaço sabem de cor e salteado: O massacre de operários que faziam uma estrada de rodagem que ligaria Juazeiro a Santo Antonio da Glória (Que não consegui identificar Santo Antônio da Glória nos mapas anexos)
Quando ele soube que as obras tinham sido reiniciadas  foi verificar, pois alguns meses atrás ele aconselhara suspender as obras, com a ameaça de matar os trabalhadores. Depois das ameaças, a obra fora paralisada, mas o governo mandou que fosse reiniciada e fornecera armas aos trabalhadores. 
No dia 18 de outubro de 1929, Lampião apareceu para "vistoriar a obra" e cumpriu a promessa. Assassinou nove trabalhadores, que não tinham traquejo de armas, embora armados estivessem. Nem chegaram a empunha-las.

Essa covardia de Lampião nos é contada em diversos livros, com algumas variáveis, mas esse assassinato de trabalhadores ocorreu e está documentada.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A PELEJA DE SEU SETE CONTRA O GENERAL

O jornalista e professor Luiz Antônio Simas conta-nos uma historia a respeito da Entidade Seu 7 da Lira, que encorporava na médium Cassilda de Assis e que abaixo, os amigos poderão ver algumas imagens em forma de documentário, trabalho do Núcleo de Estudos da Tenda de Umbanda Filhos da Vovó Rita sobre a ilustre médium e sacerdote de Umbanda que dedicou uma vida ao Seu 7 da Lira. 


O professor Simas nos diz: Conheço poucos fuzuês brasileiros que se comparem ao que acontecia, na década de 1970, em Santíssimo, pertinho de Bangu. Em um galpão transformado em terreiro de umbanda, a médium Cacilda de Assis recebia Seu Sete da Lira, um exu fuzarqueiro e sedutor. 

Os pontos eram tocados em ritmo de samba, ao som de tambores, pandeiros, chocalhos, cavaquinho e acordeão. Seu Sete, ao lado de dois mil médiuns e de multidões de clientes, aparecia em grande estilo, de cartola, capa, colete, garrafa de marafo na mão e o escambau. Dava passes, cuspia cachaça em todo mundo e atendia o povão, artistas e autoridades.

O sucesso foi tanto que Seu Sete baixou, ao vivo, nos programas do Chacrinha, na TV Globo, e de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O jornal O Estado de São Paulo (03/09/1971) noticiou o babado da seguinte maneira: “A disputada mãe-de-santo Dona Cacilda de Assis transformou os estúdios da Globo e da Tupi em verdadeiros terreiros de macumba. Embora as apresentações diferissem, o espetáculo em si foi o mesmo: os umbandistas de 'Seu Sete' invadiram o palco (baianas, cantores, pessoas bem vestidas) num tumulto indescritível.”

Os leitores imaginem o furdunço: Chacrinha e Flávio Cavalacanti entrevistavam Seu Sete da Lira enquanto a curimba comia solta. Consta que câmeras, assistentes de palco, chacretes e mulheres da plateia recebiam entidades e davam passes via satélite.

Resultado da brincadeira: Os homens do regime militar interferiram no babado, a Globo e a Tupi tiveram que assinar um acordo de auto-censura e os milicos baixaram um decreto de censura prévia aos programas ao vivo. Criou-se um órgão federal controlador da umbanda e o governo abriu uma sindicância que culminou com o fechamento do terreiro e o fim da carreira de Dona Cacilda, sob acusação de exploração da crendice popular e propaganda do charlatanismo.

Correu à boca miúda que o verdadeiro motivo da cassação do exu teria sido outro. A primeira-dama do país, Cyla Médici, teria rodado na canjira e recebido Seu Sete enquanto assistia ao programa do Chacrinha, chegando a pedir cachaça e dar consultas para os empregados da residência oficial do governo. 

Acho, por tudo isso, que os estudiosos da ditadura deveriam incluir o Rei da Lira na lista dos cassados. A dupla dinâmica Seu Sete e Abelardo Chacrinha  foi demais para os sisudos censores e os carrancudos militares. Nem a esquerda, com seus materialismos importados da Europa, entendeu.  O Brasil, todavia, desafiador em suas subversões pela festa, estava inteirinho ali.

Contadas por Luiz Antônio Simas

segunda-feira, 31 de março de 2014
A PELEJA DE SEU SETE CONTRA O GENERAL
Texto publicado originalmente no jornal O Dia, de 30/03/2014)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A Carta do Índio - Erasmo Carlos

Um dos mais belos manifestos ecológicos e em defesa da natureza e do planeta, nas sábias palavras do bravo "Chefe Sealth" (Ts'ial-la-kum), mais conhecido atualmente como Chefe Seattle (ou ainda Sealth, "Seathle", Seathl ou See-ahth) ( 1786 — 7 de Junho de 1866), foi líder das tribos Suquamish e Duwamish, no que hoje é o estado americano de Washington. No ritmo vertical dos tambores indígenas o grande Erasmo Carlos complementa esse precioso legado, adaptando essa carta escrita em 1855 pelo Cacique Seattle - USA


Erasmo Carlos - A Carta do Índio

O grande chefe branco
Quer comprar as nossas terras
Quer nossa amizade
Mas não precisa dela
Tão certo como as estações do ano
Trarão armas na certa
Pela paz dos nossos filhos
Vamos pensar na oferta
Ninguém compra ou vende o céu

Nem o calor da terra
Como podem comprá-los de nós?
A ganância do homem branco
Empobrecerá a terra
Deixando desertos e sóis
Jamais se encontra a paz
Na cidade do homem branco

Não se ouve a primavera
Nem o crescer do campo
Porém, se aceitarmos a oferta,
Imporemos condições
Daremos nossas mãos
Homens, animais e árvores
Vivendo como irmãos
Mais depressa que outras raças
O branco vai fazer
A sua desaparecer
Restará o fim da vida,

Mulheres tagarelas,
E a luta pra sobreviver
[Como um recém-nascido
Ama o bater do coração de sua mãe
Se vendermos nossas terras
Ama-a, como nós a amávamos
Protege-a, como nós a protegíamos
Ferir a terra é demonstrar
Desprezo pelo criador

Com força, poder e coração
Conserva-a para teus filhos
Nosso Deus é o mesmo Deus
Esta terra é querida por ele

Nem mesmo o homem branco
Pode mudar o nosso destino comum

Cacique Seattle,
Tribo Duwamish,
Washington, 1855,
Estados Unidos da América do Norte

Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

    "O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

domingo, 30 de outubro de 2016

Os Olhos dos Pardais


Nos céus voam os pardais,
procurando registrar os protestantes,
e quente debaixo do sol,
aliviam-se dos dejetos que entravam suas gargantas em gritos.

Reprovam aqueles idiotizados,
Que pensam que representam,
Algo que suas mentes insanas,
Não conseguem ver e dormentes,

Procuram alívio na dor alheia.
A razão sempre benevolente,
Entranhas ressequidas e nefastas,
Absorvem palavras fátuas,


Que ressoam em nada,
Pois possuem os excrementos mentais,
Daqueles que nada fazem,
Suando impropérios dementes.

Raul Meneleu

10/09/16

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Rainha do Maracatu Az de Espadas

Rainha do Maracatu Az de Espadas
A Grande e Mais Famosa Rainha de Maracatus, chamava-se Benedito Wanderlan Custódio da Silva, ou simplesmente como o chamávamos, Benoit. Vice diretor do Ginásio Aluno João Nogueira Jucá, no bairro Mucuripe em Fortaleza, capital alencarina, no carnaval de ruas da década de 60, transformava-se. 


Segundo José Orestes Cavalcante, primeiro presidente do Maracatu Az de Espada, treze vezes campeão geral do carnaval de rua, falando sobre Benedito Wanderlan Custódio da Silva, o Benoit, professor de matemática, "alto e bonito, como a mais famosa rainha dos maracatus de Fortaleza. Era disputado por todos."

Mas seu passe era exclusivo. Sempre foi Maracatu Az de Espadas, seu reino de glória tão passageira, apenas nos dias de carnaval, não importava, era rainha bonita e faceira, disputada pelos maracatus. Nesses dias, era aplaudido em sua passagem, com seu leque de rendas brancas contrastando com sua pele enegrecida pela tintura de falso negrume e o batom vermelho, acentuando a linha de seus lábios, gingando na cadência do ritmo lento e triste, abanava-se e sorria para todos, mostrando seus dente alvos num sorriso mais cativante e inocente de uma rainha escrava dos contos de fadas do panteão de deuses africanos. Era linda!

´Rainha preta do maracatu, nesse teu rosto de falso negrume/ morre de gozo na renda do sol/ no pano feito pelo fio d´água / desse véu de noiva: bica do Ipu...´


Em seu disco ´Cauim´, gravado em 1978, o compositor e músico Ednardo, fez-se rainha de Maracatu cearense, pelo menos na capa de seu disco, com o rosto pintado de preto, exaltando as Rainhas de Maracatus, e as exaltando com esses versos. E entre elas estava a rainha de Maracatu mais famosa de Fortaleza, Benoit, negro duas vezes; pela cor natural de sua pele original e pelo negrume falso da tinta preta. Na vida real um Príncipe e na imaginária, uma Rainha. 


Calé Alencar
As rainhas de Maracatus sempre foram exaltadas. Quem não ouviu ´Dora, rainha do frevo e do maracatu / Dora rainha cafuza de um maracatu/..´ de Dorival Caymmi. 

No Ceará, podemos citar, dentre outros, Calé Alencar, que canta sobre o Maracatu com suas melodias, apresentando loas e estimulando os brincantes a cantar


Vixe Maria... quando de longe eu via as Balizas abrindo o desfile, marcando o passo ao lado do porta-estandarte e carregando as balizas entre os dedos, girando-as graciosamente, vestidos com coletes, turbantes, saiotes e com suas fantasias com as cores preta e branca de meu maracatu, ia ao delírio. Vendo o Porta-Estandarte marcando o passo e anunciando a presença do maracatu, meus olhos brilhavam, vendo aquele pano de veludo, com franjas cor de ouro e rendas brancas nas bordas, trazendo no centro, o símbolo bordado de um Az de Espadas, que identificava o meu maracatu, sim... exultava e aplaudia.

Como admirador dos índios, os via desfilando em filas indianas e ladeando o estandarte, com seus saiotes de penas de avestruz, brandindo seus tacapes, lanças e flechas. Me sentia um guerreiro. E aquelas negras baianas que desfilavam marcando o cortejo real, protegendo a corte e respondendo em coro as loas cantadas pelo macumbeiro, que tirava loas e incitava a massa de gente que aplaudia e gritava de alegria, sim, eu ia ao delírio, com meus olhos e mente fértil de menino. 

E aquela negra Calunga? Trazendo aquela boneca fetiche em seus braços, acalentando aquela criança negra? Figura mais significativa do Maracatu, representando um ser supremo que possui o poder de evocar antepassados. Segundo a tradição africana, é dedicada ao Orixá Omulu.
Era emocionante! 
E atrás vinham as negras do incenso, defumando para que os deuses africanos abrissem os caminhos daquelas balaieiras, conduzindo na cabeça seus balaios carregados de frutas e entre elas alguns dos símbolos do sertão cearense, a Pitomba e a Macaúba, lembrando as antigas escravas que vendiam nas ruas com seus cestos de palhas. 

'Eu vou eu vou e você não vai... apanhar macaúba no meu balai... Eu vou eu vou e você não vai... apanhar macaúba no meu balai... apanhar macaúba no meu balai, eu vou eu vou e você não vai, apanhar macaúba no meu balai, eu vou eu vou e você não vai...' E eu escutava, maravilhado, aquelas baianas dizendo 'balai' e eu já tinha em mente o modo de falar dos negros escravos e sua simplicidade em falar o português.

Os pretos-velhos, simbolizando a sabedoria e a experiência dos anciãos das tribos africanas, passavam com seus cachimbos de fumo. Até que o desfile chegasse para nós meninos ávidos para apreciar o mais importante do desfile; a Corte, representada pelo Príncipe, a Princesa, o Rei e a Rainha, figuras principais, em honra de quem o cortejo se apresentava com suas damas de honra.


Então vinha a Rainha do Maracatu Az de Espadas, o professor Benoit, do Ginásio Aluno João Nogueira Jucá, carregando seu cetro e o leque enorme, feito de penas de aves raras, seguro pelas mãos de um vassalo, que reverenciando a Corte, pairava seu abanar em torno de sua Rainha.

E lá atrás, o som emanava dos tocadores de surdos, bumbos, caixas e ferros tipo chocalhos, triângulos e ganzás, executando a marcação para o canto e a evolução do maracatu. E nossa querida Rainha do Maracatu Az de Espadas, passava sorrindo para nós meninos e adultos, com aquele sorriso cativante, entreabrindo levemente seus lábios vermelhos, pintados juntamente com seu rosto em um ritual africano, de deuses negros de sua cultura. 

Esse cenário não me sai da mente, ainda menino sou...

Nota: As imagens não são do Maracatu Az de Espadas (são raras) - estão na internet e através delas saúdo todos os maracatus de Fortaleza.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

LAMPIÃO e o cordão de ouro da Baronesa de Água Branca

   
Quando Lampião estava regressando do assalto em Água Branca, onde invadiu e roubou algumas jóias e da Baronesa Joanna Vieira de Sandes¹entrou ele, de surpresa no pequeno povoado de Nazaré, em Pernambuco. Era a primeira vez que o fazia desde a sua saída para Alagoas em outubro de 1919. Os cangaceiros não molestaram ninguém pois vinham eufóricos pelos resultados obtidos no roubo de Água Branca.² 

Levaria a fama na vida e depois de morto, de ter efetuado um dos mais espetaculares roubos, quando invadiu o casarão que tive a oportunidade de conhecer e visitar, veja aqui imagens inéditas dessa visita, juntamente com minha esposa, por ocasião do Primeiro Encontro Cariri Cangaço nessa bonita e hospitaleira cidade. 

Mas não é sobre essa visita que quero trazer o amigo leitor para as portas do Casarão da Água Branca, e nem sobre essa visita inesperada de Lampião à pequenina Nazaré, inclusive com uma crítica da autora à respeito da tolerância que os nazarenos, incluindo Manuel Flor, tiveram por conta dessa ocasião, pois o leitor poderá ler em meu artigo Os dois lados do cangaço: o pitoresco e o agressivo .

A atenção que quero lhes trazer é sobre uma entrevista que fiz, por ocasião dessa nossa visita ao Casarão do Barão de Água Branca, (imagens inéditas do interior da mansão) Joaquim Antonio de Siqueira Torres³. O herdeiro proprietário desse patrimônio da história aguabranquense, alagoana e brasileira, senhor Inácio Loiola, descendente do Barão de Água Branca, afirmou que Lampião não tinha levado o cordão de ouro mais famoso desse assalto, juntamente com o crucifixo

Relatou-nos que Lampião levou a culpa, não da invasão e assalto que fez à Baronesa Joanna, que por certo lhe rendera frutos, quando invadiu sua mansão, mas  não de ter especificamente surrupiado tão valiosa joia, e que tal estava hoje nas mãos de uma pessoa que ele conhece. Por ocasião da invasão, tal cordão de ouro e medalhão, fora escondido por uma das pessoas cuidadora da idosa baronesa e que estava presente na ocasião do assalto, e que o escondera e tinha ficado com o mesmo, pondo a culpa no famigerado bandido.


Com essa declaração, o herdeiro do Barão de Água Branca faz uma colocação até hoje não levada em consideração pelos autores que focaram suas pesquisas nesse assalto. Até então, tudo que eu tinha lido, sempre mostrou Lampião como responsável pelo afano de tão famosa joia. Essa fotografia de Maria Bonita, com diversos cordões de ouro e medalhas, não apresenta tal crucifixo. O assalto ao casarão se deu em 1922 e depois de 8 anos, foi que Lampião conheceu Maria Bonita. Quase que impossível Lampião ou Maria ter esse crucifixo. Ponto para o descendente de Joaquim Antonio de Siqueira Torres, o Barão de Águia Branca.


O CASARÃO pede socorro 


Brasão da Família
Sua manutenção é urgente. Existe a Lei municipal nº 447/71 de 18 de abril de 2001, que dispõe sobre o Tombamento Municipal do Centro Histórico, Seus Entornos, Seus Monumentos Históricos e Ecológicos, publicada e registrada na Secretaria Municipal de Administração e Finanças da Prefeitura Municipal de Água Branca.

O Artigo 3º desta Lei diz que os bens do patrimônio público e particular situados nos limites da área tombada, ficam sujeitos, no pertinente a seu uso gozo, às normas que dispõe sua manutenção e preservação do patrimônio Histórico e Artístico estabelecidas nas legislações Estadual e Federal especificadas, bem como a preservação da Lei municipal nº 388/96 de 15 de agosto de 1996.


O artigo 4º desta lei diz que os Projetos de restauração e reforma de edificações considerados de valor histórico e artísticos, bem como os daqueles não classificados, observarão as diretrizes estabelecidas nesta Lei. Precisa-se aplicar a lei no que refere-se à manutenção e seus custos. Por não poderem mais sustentar a manutenção os proprietários estão vendendo o patrimônio por falta de ajuda para mante-lo. 

ACERVO ESPALHADO

Encontramos muitas peças em leilões, e quantas mais foram vendidas, espalhando-se o acervo de móveis, prataria, louças, etc. 



Livro "Louça da Aristocracia no Brasil"
autoria de 
Jenny Dreyfus
Em 13 de dezembro de 2004 houve um leilão, da Casa Dutra Leilões, onde foi exposto o seguinte objeto que fazia parte do acervo do Barão de Águia Branca, Barão de Água Branca. 

"Prato de porcelana sem marca, aba delimitada com friso azul entre filetes dourados; no centro da caldeira a legenda Barão de Água Branca sob coroa de Visconde em azul, pertencente a Joaquim Antônio Siqueira Torres; 23 cm de diâmetro. Apresenta fios de cabelo na aba. França, séc. XIX. 
Reproduzido à página 234 do livro Louça da Aristocracia no Brasil, por Jenny Dreyfus."

Outra peça leiloada:

Barão de Água Branca
Prato de porcelana sem marca; borda com friso azul entre filete dourado; ao centro a legenda Barão de Água Branca sob coroa de Visconde, pertencente a Joaquim Antonio de Siqueira Torres; 18,5 cm de diâmetro. Apresenta bicado na borda. França, séc. XIX.

Reproduzido à página 234 do livro Louça da Aristocracia no Brasil por Jenny Dreyfus.


Quanto ao Crucifixo que pertenceu à baronesa de Água Branca, hoje encontra-se em coleção privada, fechado a sete chaves, escondido do público, assim como as demais peças históricas do Casarão da Água Branca. 

Recentemente encontrei a seguinte notícia a respeito do crucifixo: "Em ouro maciço 22 quilates. Esta magnifica peça, segundo o Dr Orlins Santana de Oliveira Membro do Instituto Histórico da Bahia, Membro do Instituto Genealógico da Bahia, estava à venda em 2005 em Salvador. Foi vendido para fora do Estado por 12 mil reais. Um comerciante deve ter levado. Fiquei muito sentido pela perda do acervo do cangaço. Na época não tinha recursos para adquirir o mesmo. Salvador era o local mais perto para as volantes revenderem os achados. E tudo vinha pela via ferroviária." - Hoje faz parte de uma coleção particular conforme livro "Estrelas de Couro" de Frederico Pernambucano de Mello.

Vejam Sítio Histórico de Água Branca será tombado pelo patrimônio estadual


1 - Joanna Vieira de Sandes, 1ª Baronesa de Água Branca
Data de nascimento: 30 Dezembro 1830
Local de nascimento: Água Branca, AL, Brasil 
Falecimento: 27 Dezembro 1923
Família imediata:
Filha de Antonio Vieira de Sandes e Luiza Vieira de Sandes 
Esposa de Joaquim Antonio de Siqueira Torres, Barão de Água Branca. 

2 - O Canto do Acauã pg 155 2ª Edição.

3 - Joaquim Antonio de Siqueira Torres, Barão de Água Branca
Data de nascimento: 08 de dezembro de 1808
Local de nascimento: Pesqueira, PE, Brasil 
Falecimento: 29 de janeiro de 1878 
Filho do capitão Teotônio Vitoriano Torres e de Gertrudes Maria da Trindade.


4 - Página da Prefeitura de Água Branca.

sábado, 1 de outubro de 2016

Os dois lados do cangaço: o pitoresco e o agressivo.

"Regressando do assalto em Água Branca, Lampião entrou de surpresa em Nazaré. Era a primeira vez que o fazia desde a sua saída para Alagoas em outubro de 1919. Estava confiante no acordo de paz que propusera aos nazarenos através de "Sinhô" Pereira. De qualquer modo, os moradores do povoado estavam temerosos por se acharem desprovidos de armas e munições caso os bandoleiros quisessem efetuar vingança; todos sabiam o quanto Lampião era rancoroso e extremamente vingativo. 

Mas os bandoleiros não molestaram a ninguém, pois vinham bastante eufóricos pelos resultados obtidos no roubo de Água Branca. E neste ponto incidia o aspecto constrangedor e também comprometedor daquela visita. Manuel Flor relembrou aquele dia: "Dançaram muito a 'Mulher Rendeira', acompanhada do xaxado, que pela primeira vez presenciei, bem ritmado, em perfeita harmonia com a música. Tenho dúvidas se essa modalidade de dança foi criação do grupo de Lampião ou de Sebastião Pereira porque os principais dançarinos eram Baliza, Vereda, Mão-de-Grelha e outros veteranos de Sebastião. 

A dança foi realizada à tarde, sob uma quixabeira que à época existia no centro do povoado e a cuja sombra se realizava a feira. Foi um espetáculo que nos empolgou ver todos aqueles homens, chapéu de couro na cabeça, dançando e cantando

"Olé mulé rendêra 
Olê, muié rendá
Tu mí insina a faze renda 
Qui eu ti insino a namorá 
Olé mulé rendêra 
Olê, muié rendá 
Choro por mim não fica
Só si eu não vê chorá 
As piquena vai no bolso 
As maió vai no borná" 

Em Pernambuco, uma das primeiras pessoas a sofrer perseguição de Lampião, logo após o seu regresso de Alagoas, foi Clementino de Carvalho, abastado proprietário rural (era dono da fazenda Lagamar, situada às margens do Pajeú, entre Floresta e a vila de Santa Maria), Clementino compareceu à feira de Nazaré e o bando o aguardou nas imediações. Quando ele retornou  a trilha que o levaria de volta à fazenda, os bandoleiros investiram em sua direção; Clementino conseguiu safar-se graças à sua boa montaria, retrocedendo para o povoado em desabalada carreira. 

Os cangaceiros, no entanto, não estavam dispostos a perder sua valiosa presa e permaneceram à espera por longas horas nos arredores. A população do povoado ofereceu a Clementino Carvalho integral apoio, no sentido de evitar os vexames que o fazendeiro poderia sofrer nas mãos dos bandidos. 

Soube-se depois que Virgulino pretendia sequestrá-lo em troca de vultoso resgate; foi Lampião o primeiro cangaceiro a empregar o sequestro como meio de obter resgate em dinheiro — essa modalidade de crime era desconhecida no sertão pernambucano. 

Passaram-se vinte e quatro horas sem que Clementino pudesse regressar a Lagamar. Logo que a sua família foi informada do que acontecia em Nazaré, foi buscá-lo com uma escolta de vinte homens bem armados. Os cangaceiros chegaram a provocar a força de socorro, disparando suas armas; alguns dos mais audaciosos membros do grupo de Clementino fizeram menção de persegui-los mas foram impedidos pelo fazendeiro que não desejava mais violência. 

Em pouco tempo aconteceu a segunda tentativa de sequestro envolvendo outro rico fazendeiro dos Carvalhos, Florentino, dono da fazenda Entresserra, o qual foi submetido a cerco em sua propriedade. Apesar do forte tiroteio que marcou esse episódio, Virgulino teve mais uma vez frustradas suas intenções. Assim, os fazendeiros da região tiveram oportunidade de observar os dois lados do cangaço: o pitoresco e o agressivo."*

 * do livro O Canto do Acauã - Marilourdes Ferraz
O acauã é uma ave pertencente à ordem dos Falconiformes, da família Falconidae. É conhecida pelo seu canto característico e por se alimentar de serpentes.