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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Um cabra incapaz de abandonar um amigo

Cangaceiro Mariano
Enciclopédia do cangaço
A MORTE DE MARIANO NOS ERMOS DO CANGALEIXO 

A volante do sargento Zé Rufino era sediada na Serra Negra, na divisa da Bahia com Sergipe. Quando não estavam nos matos caçando cangaceiros, os soldados matavam o tempo perambulando pelo povoado, jogando baralho e sinuca, fumando e bebendo. 

No dia 25 de outubro de 1936, Zé Rufino encontrava-se na Serra Negra quando foi informado de que a cidade sergipana de Porto da Folha estava prestes a ser invadida por cangaceiros de Lampião. Sem perda de tempo, o comandante pôs a tropa na estrada. Não seguiu, contudo, o roteiro natural, que seria por Monte Alegre — viajou no sentido de Carira, a fim de iludir a vigilância dos coiteiros, pois se fosse por Monte Alegre com certeza alguém correria na frente a fim de avisar aos bandidos. 

A viagem foi feita a pé. Na fazenda Venturosa, antes do povoado Cipó-de-Leite, os soldados mudaram de rumo e entraram em Sergipe, rompendo pelas Aningas, Cumbuqueiro, Serrinha e Baixa Limpa, e à noite, estropiados e famintos, chegaram à Boca da Mata, como era conhecida a atual cidade de Nossa Senhora da Glória. Era um domingo. A maioria dos moradores já estava dormindo. Quando se ouviu o rebuliço da tropa, pensou-se que era Lampião. Começou a correria. Zé Rufino tranquilizou todos: era uma força da Bahia, não tivessem receio. 

A pretexto de colher informações, Zé Rufino passou dois dias na Boca da Mata, sem, contudo, dar pistas do seu destino. Na quarta-feira, dia 28, a volante pegou o caminho de Feira Nova, mas, antes da fazenda Quixaba, dobrou à esquerda, pela estrada de São Mateus, indo pernoitar na fazenda Malhadas, onde recebeu uma noticia desalentadora: acabara de passar por ali a volante sergipana de Zé Luís. Para Zé Rufino isso significava o fim da surpresa por ele planejada, pois os cangaceiros com certeza já estavam sabendo que havia polícia na área. Mas, por outro lado, como os cangaceiros não tinham medo da polícia de Sergipe, era até bom que eles pensassem que por ali só havia aquela força sergipana. 

No dia 29, os homens da volante passaram por um riacho seco, em cujo leito se encontravam a intervalos pequenos poços de água, onde nadavam piabas e outros peixes pequenos. João Doutor foi ver se pegava umas piabas. Zé Rufino caçoou dele: 

— Dexa de bestera, Doutô, sordado foi feito foi pra pescá cangacero! 

João Doutor e Bentevi seguiam na frente e terminaram distanciando-se dos outros. Depois de subirem uma ladeira, pararam à sombra de uma quixabeira, a fim de esperar pelos companheiros, já que o sol começava a esquentar. Numa vereda que passava pela quixabeira, notaram que havia rastros de pessoas. Quando o rastejador chegou, mostraram a ele. 

— Os rasto é de hoje, desta madrugada — assegurou o experiente Gervásio. 

Deixaram então a estrada e seguiram pela vereda, Gervásio na frente. Logo adiante, chegaram a um tanque e, misteriosamente, os rastros sumiram. Era como se as pessoas que chegaram até ali simplesmente tivessem se encantado. O soldado Capão, não se sabe se por brincadeira ou a sério, opinou: 

— Eu acho qui os cangacero tão é dento desse tanque... 

Gervásio, João Doutor e Capão destacaram-se do grupo e foram ver se no outro lado do tanque havia rastros. Avistaram então um garoto de uns 12 anos de idade que carregava alguma coisa enrolada num pano. Perguntaram o que é que ele ia levando, e o garoto, meio nervoso, respondeu que era comida para uns trabalhadores na roça. 

Desconfiando, Capão desembainhou o punhal e segurou o menino, ameaçando: — Oi aqui, seu pestinha, eu vou lhe matá se você nun conta a verdade... O garoto manteve-se filme, dizendo que a comida era para uns trabalhadores de seu pai. Gervásio, sabendo que Capão era meio doido, puxou o garoto para si e falou: 

— Nóis sabe qui o seu pai é amigo dos bandido. Seu pai tá cum eles agora, nun tá? É pur isso qui você nun qué falá? 

— Eu já diche qui nun sei nada de bandido, tô levano cumida é pra uns trabaiadô. 

João Doutor perdeu a paciência: 

— Se qué falá, fale, e seu pai nun morre, mais se nun qué fala, seu pai vai morrê junto cum os bandido! 

— Nun sei nada de bandido — repetiu o garoto. 

Nesse instante, viram Bentevi e Alípio no paredão do tanque fazendo gestos para que todos se reunissem. Pelo jeito, tinham descoberto alguma coisa. Gervásio levou o garoto a Zé Rufino e expôs as suspeitas de que ele estava levando comida para os cangaceiros. Zé Rufino não mostrou interesse imediato pelo menino, pois Bentevi e Alípio tinham encontrado os rastros. Apenas perguntou ao menino como era o nome daquele lugar. 

— Cangalexo — respondeu o garoto. 

— Cangalexo? Municipo de onde? 

— Sei não sinhô... 

— E de quem é esta fazenda? 

— Do meu pai. 

— Eu proguntei o nome! — agastou-se o comandante. 

— Chamam ele de João do Pão... 

Zé Rufino pensou um pouco e disse: 

— Vamo vê os rasto. Isso aqui ou é Gararu ou é Porto da Foia. E tragam esse muleque. 

Os rastros partiam de umas pedras atrás do paredão do tanque. As pegadas eram nítidas, recentes, e encaminhavam-se para uma zona de vegetação densa, com muita macambira e xiquexique. Os homens seguiam atentos. Zé Rufino tinha certeza de que os rastros eram mesmo de bandidos, pois trabalhadores andam em caminhos que levam a roças, só quem procura mata cerrada é bandido e caçador, mas caçador não caminha tentando esconder os rastros. 

O comandante dividiu a volante em três grupos. Mandou que Valdemar, Jovino, Juazeiro, Capão e Paulo de Tavinha seguissem pelo lado direito. Pelo outro lado foram Zé Monteiro, Hercílio, João Venâncio e João Redondo. Pelo centro seguiu o restante da volante, inclusive Zé Rufino, o rastejador e o cabo Miguel. Zé Rufino mandou que Doutor, João Pereira, Zé Martins e Bentevi fossem na frente. Os homens movimentavam-se em silêncio, pisando de leve na folhagem, cautelosamente, certos de que estavam próximos do coito dos bandidos. E não se enganaram. Logo, ouviram ruídos. 

Os soldados aproximaram-se, agachados por trás das macambiras, comunicando-se por gestos. Adiante, sob uma árvore, avistaram quatro cangaceiros que estavam jogando baralho, sentados num lajedo. Os soldados pararam um pouco, esperando Zé Rufino, que tinha ficado para trás. O comandante é quem deveria ordenar o ataque.(1589)

Mariano escolhera aquele local com todo cuidado, pois sua mulher, Rosinha, estava em avançado estado de gravidez. Naquele momento, ele e Rosinha estavam descansando numa barraca à sombra de um umbuzeiro, enquanto ouviam, a certa distância, as discussões e xingamentos dos companheiros com seus trapacentos jogos de cartas. Instantes atrás, Zabelê exaltara-se, pois estava perdendo todas as partidas, queria até rasgar o baralho, mas os outros não deixaram. Porém agora os cabras estavam mais calmos. 

Os que estavam jogando eram Pai Véio, Lavandeira, Zabelê e o coiteiro João do Pão. O cangaceiro Criança estava peruando o jogo, de pé, filmando. Depois chegou Quixabeira, que estivera andando pelos matos. Reclamando do calor, Quixabeira tirou o chapéu de couro e ficou abanando-se com ele. Criança jogou o toco do cigarro fora e dirigiu-se à tenda de Mariano. Não sabiam eles que se encontravam sob a mira dos fuzis de quatro soldados da volante do tenente Zé Rufino, postados atrás de umas touceiras de macambira, tão próximos que podiam ouvir as suas conversas. 

O soldado Bentevi encarregou-se de matar Criança e Quixabeira, os que estavam de pé, enquanto que Doutor, João Pereira e Zé Martins se concentraram nos que estavam jogando. Quando fizeram sinal para Zé Rufino, apontando para além das macambiras, o comandante levantou o polegar, autorizando o ataque. Os soldados atiraram a um só tempo, abatendo logo dois cabras, mas os outros, de forma inexplicável, saltaram como se fossem impulsionados por molas e embrenharam-se no mato, sem sequer esquecer as armas, pois no mesmo instante já estavam respondendo aos tiros da volante, gritando, xingando, ameaçando. 

Os outros soldados, ao ouvirem os disparos, correram na direção dos tiros. Zé Rufino e Miguel gritavam ordens, orientando-os para o cerco aos bandidos. Rosinha estava grávida, não podia correr, e Mariano não a abandonaria naquela situação extrema. Era um cabra incapaz de abandonar um amigo, quanto mais a sua companheira. Que todos fugissem, menos ele. Mandou que ela se entocasse atrás de uma touceira de macambiras, enquanto ele, protegido por um pé de imburana, sustentava o fogo a fim de conter o avanço da volante. 

Em instantes, toda a área ao redor da imburana ficou ofuscada com a fumaça do seu fuzil. Miguel e Artur rodearam pelo mato. orientando-se pela fumaça que envolvia o pé de imburana, e foram postar-se do outro lado. Mariano percebeu a manobra e compreendeu que ia ser cercado. Ainda dava para fugir. Não sabia se os companheiros estavam mortos ou se tinham fugido. 

Mas Rosinha estava ali, não podia abandoná-la — um cabra do Pajeú é homem até à morte. Prosseguiu atirando, ora na direção do grosso da volante, ora nos soldados que se postaram à suas costas. Sem poder enxergar direito, devido ao fumaceiro, Miguel e Artur atiravam na direção do tronco da imburana. Se havia alguém ali, não tinha como escapar. Como estava muito próxima, Rosinha viu quando o corpo de Mariano foi sacudido por um balaço que lhe espatifou a coxa esquerda. 

Então ela, desesperada, saiu correndo no meio da fumaça, gritando pelos companheiros, e por sorte encontrou-os. — Pelo amô de Deus, socorram Mariano! Ele tá findo! Ele tá atrais daquele pé de imburana! Os cangaceiros foram rastejando até o local onde Mariano se encontrava, acharam o corpo, estava vivo, tossindo, sufocado pela fumaça, mas consciente, mandando que fugissem: — Me larguem, fujam, levem Rosinha, ela pricisa sarvá meu fio!... 

Dois cangaceiros agarraram o corpo e saíram correndo com ele pelo mato, enquanto os outros davam cobertura. Porém os soldados perceberam o que estava acontecendo e se puseram em seu encalço. Mariano ordenava aos companheiros: 

— Me larga! Me larga! Me largal... Fujam!... Levem Rosinha, ela pricisa sarvá meu fio!... Me larga! Me largal... 

Como os companheiros não o obedeciam, ele puxou a pistola e ameaçou: 

— Ou me larga, ou eu mato voceis! 

Os companheiros fugiram, levando Rosinha, ora correndo, ora praticamente arrastada. Sozinho, sem nenhuma esperança de salvação, mas sem perder a bravura, Mariano aguardou a aproximação da volante atirando com a pistola até acabar a munição. Os soldados, percebendo que o cangaceiro não tinha mais balas, cercaram-no e esperaram a chegada de Zé Rufino. O comandante chegou ofegante, pisou no corpo do cangaceiro e perguntou: — Cuma é o seu nome, cabra? 

1589 Coordenadas do local do ataque, onde há uns lajedos, a 300 metros do tanque do Carifi: 10° 01' 40.80" S, 37° 19' 31.10" W. João do Pão era um fazendeiro de posses consideráveis — sal fazenda, na margem direita do Rio Capivara, no município de Gararu, a uma légua do povoado São Mateus, tinha mais de 2.000 tarefas. Entrevista do autor com José dos Santos (Zeck de Salu) no Cangaleixo, no dia 3.1.2010. 

Mariano não respondeu. Apenas mordia os lábios, de dor ou de raiva. Zé Rufino deu um chute nas costelas do cangaceiro, e insistiu: 

— Eu tou proguntano cuma é o seu nome, seu disgraçado! 

Bentevi considerou: — Eu acho que esse aí ou é Mariano ou é Anjo Roque... 

Então Zé Rufino se lembrou de que num combate em 1934 Mariano tinha recebido um ferimento na perna. Mandou que rasgassem a calça do bandido. Quando rasgaram o tecido, lá estava o ferimento, acima do joelho — ferimento recebido na fazenda Nica, quando a polícia prendeu sua primeira mulher, Otília. A alegria de Zé Rufino e seus comandados foi demais.

— E Mariano! — exclamou Zé Rufino. 

E ordenou: — Paulo de Tavinha, mate o cabra! Mais tenha coidado cum a cabeça, qui eu priciso dela! 

Paulo de Tavinha sacou o parabelo, aproximou-se do ferido e descarregou a arma: 8 tiros. Mariano arfou, estrebuchou-se, mas continuava vivo. Paulo de Tavinha recarregou o parabelo e despejou de novo no corpo do cabra todas as 8 balas... mas não conseguia matar o homem, que fixava o algoz com olhar desafiador. 

Bentevi perdeu a paciência — desembainhou o facão, agarrou a cabeça do bandido pelos cabelos e com dois golpes separou-a do corpo. Zé Rufino acocorou-se, a fim de recolher os pertences do defunto. Primeiro pegou a pistola. Os bolsos e os bornais continham dinheiro, peças de ouro, inclusive muitos anéis e alianças. Num dos bolsos da calça, encontrou um relógio. O comandante olhou a hora. Comentou: 

— Curioso isso... é 10 hora e 10 minuto, e nóis tamo im outubro, qui é o meis 10... O ano é 1936. Dexe vê: 1 mais 9 é iguá a 10... 10, nove fora, 1; 1 mais 3 é iguá a 4; e 4 mais 6 é iguá a 10... E tudo 10... Qui dia é hoje do meis? 

— Hoje é 29 — informou o cabo Miguel Bezerra. 
— E 29, nove fora, 2! 

O comandante reagiu: 

— Cala essa boca, seu burro! Qué atrapaiá mias conta? 

Satisfeito com a agudeza de sua inteligência, Zé Rufino enfiou o relógio na algibeira e ordenou: — Vamo procurá os outo morto! Voltando ao ponto do início do combate, onde os cangaceiros estavam jogando cartas, encontraram dois corpos. Saberiam depois que um era o cangaceiro Pavão e o outro era o coiteiro João do Pão — o pai do garoto que encontraram no caminho. 

Zé Rufino aproximou-se e, ao notar que os bolsos dos mortos estavam revirados para fora, berrou, furioso: 

— Tem ladrão aqui! Eu só quiria sabê quem foi o cachorro qui já feis a limpal... Peguem as arma e as cartuchera do cabra! 

Enquanto os soldados vasculhavam a área à procura de outros mortos, ouviram-se uns tiros. Todos correram para ver o que estava acontecendo, e avistaram Alípio e Miguel deitados no chão, atirando em direção a uma moita, de onde também vinham tiros. Os soldados cercaram o atirador solitário. 

Encontraram um cangaceiro já baleado, e então Alípio deu o tiro de misericórdia, acertando um balaço em sua cabeça. Acabava de ser morto o cangaceiro Pai Véio. Zé Rufino fez uma verificação superficial nos bolsos e bornais do morto, e foi condescendente: 

— Pra nun dizê qui eu sou fominha, desse aí podem pegá o qui quisere... 

Os soldados voaram em cima do morto, cada um arrancando para si o que interessava ou era possível. Geralmente os cangaceiros levavam consigo tudo o que possuíam — dinheiro, joias, relógios. O momento mais esperado pelos homens das volantes era aquele — a hora do saque. Zé Rufino presenciava tudo, para evitar brigas, e também por interesse, pois se fosse encontrado algo especial ele faria prevalecer a sua autoridade, reivindicando-o para si. Na confusão, o garoto fugiu. (1590)

No início da tarde, a volante de Zé Rufino entrou triunfante em Porto da Folha, exibindo as cabeças dos cangaceiros. O comandante mandou reunir o povo na frente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e ordenou que fizessem uma festa. As cabeças ficaram expostas na prefeitura. O mais aliviado era o comerciante Zé Brechinha, que tinha recebido um bilhete de Mariano solicitando cinco contos de réis. 

Zé Rufino resolveu levar as cabeças para Jeremoabo. Ao passar por Pão de Açúcar, elas foram fotografadas por João Damasceno Lisboa. Até então, aquele era o maior feito de Zé Rufmo. Mariano não era um cangaceiro qualquer. Ele acabava de pegar um dos maiorais da história do cangaço. 

1590 Os autores não se entendem quanto à data da morte de Mariano. Frederico Bezerra Maciel diz que teria sido em 27.10.1936: ob. cit., v. IV, p. 216. Felipe de Castro, em Derrocada do Cangaço no Nordeste, indica duas datas: 29.10.1936 (p. 65, no município de "Caruaru") e 10.9.1936 (p. 221). Frederico Pernambucano de Mello, cm Guerreiros do Sol, diz que teria sido no dia 10.10.1936 (p. 240-241), porém na legenda das fotos das cabeças ele registra 29.10.1936 (p. 3921393). Iaperi Araújo aponta o dia 25.10.1936: A Cabeça do Rei, p. 201-202. Já segundo Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, teria sido no dia 26.10.1937 (um ano depois): ob. cit., p. 141/143. Alcino Alves Costa dá a entender que teria sido em 10.10.1937: Lampião Além da Versão, p. 321/328. José Anderson Nascimento situa o fato no início de outubro de 1937 (por volta do dia 2): ob. cit., p. 262/268. Também Antonio Amaury Corrêa de Araújo registrou a morte de Mariano em 1937: Gente de Lampião — Sila e Zé Sereno, p. 140. Joaquim Góis não cita a data: ob. cit., p. 1911200.A data correta é 29.10.1936, conforme telegrama passado pelo sargento José Rufino para o capitão João Facó, chefe de polícia da Bahia, transmitido de Porto da Folha, no dia 29, às 15 horas, no qual afirma: "... consegui hoje 10 horas tirotear com grupo de bandidos de Mariano. Foram mortos os seguintes bandidos: Mariano, Pai Velho e Zepelim." A íntegra do telegrama foi publicada nos jornais Diário de Noticias (Salvador), de 31.10.1936, p. 1, e O Imparcial (Salvador), de 31.10.1936, p. 8. O jornal O Estado de Sergipe (Aracaju), de 30.10.1936, p. 1, informa que as cabeças chegaram a Porto da Folha "às 10h de ontem". Esse mesmo jornal, na edição do dia 1°.11.1936, p. 1, cita o dia 20, porém mais adiante corrige: dia 29. O fato é mencionado ainda na edição do dia 10.11.1936, p. 1. O fato foi noticiado também no Correio de Aracaju, de 27 e 30.10.1936. Pensou-se inicialmente que os mortos seriam Mariano, Pai Véio e Zepelim, porém depois se descobriu que em vez de Zepelim quem morreu foi Pavão (Zepelim viria a morrer a 22.4.1937 na fazenda Arara, na região de Poço Redondo, então município de Porto da Folha). Quanto a Pai Véio (Moitintia), cumpre não confundi-lo com outros homônimos, a exemplo daquele também conhecido como Velho Faustino (pai de Arvoredo), que já havia morrido — morreu na Casa de Detenção de Salvador. Nertan Macedo afirma erroneamente que um dos mortos se chamava Devoção: Lampião — Capitão Virgulino Ferreira da Silva, p. 199. O erro foi repetido por Joaquim Góis (Lampião — o Ultimo Cangaceiro, p. 199) e Rodrigues de Carvalho (Lampião e a Sociologia do Cangaço, p. 215). 

Mariano Laurindo Granja estava com Lampião havia 12 anos, desde fugira para a Bahia, em 1928. Descendia de família de certo destaque, mas poucos o chamavam assim, só os íntimos, pois ele não gostava do apeli Era um cangaceiro comunicativo, sereno, bem-humorado, onde estava inesgotável de piadas. Tocava sanfona. E era sobretudo leal aos amigos. (1591)

Viera com ele de Pernambuco, quando o bando de Afogados da Ingazeira. Seu apelido era Cabeção, fazia todo mundo dar gargalhadas com o seu repertório inesgotável de piadas. Tocava sanfona e era sobretudo leal aos amigos.

As cabeças de Mariano, Pai Veio e Pavão (de início, Pavão foi identificado erroneamente como Zepelim) 



1591 Rodrigues de Carvalho, ob. cit., p. 211-212. Hilário Lucetti e 1v1agérbio de Lucena, ob. cit., p. 137/139. Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do Sol, p. 240.:241. 

FONTE: Livro LAMPIÃO: RAPOSA DAS CAATINGAS pag. 513 sob o tema A morte de Mariano nos ermos do Cangaleixo 

domingo, 11 de setembro de 2016

CANGACEIRO X CORDEL


O povo sertanejo nunca admirou criminosos. Algumas pessoas são enganadas por aqueles que querem "branquear" a história de bandidos e querem confundir os incautos com a admiração que o sertanejo tinha e tem por homens valentes. Isso sempre foi assim. 

A sua formação, criados de forma mais "guerreira" - digamos assim - o predispõe para reconhecer aqueles que têm coragem de enfrentar o sistema, que os explora - e que também explora não só nas relações financeiras, mas também em autoridade, quando as injustiças são sentidas. Essa é a história inventada pelos poetas cordelistas, pois sabendo que o povo admira e exalta a valentia, criam em suas mentes férteis de poetas, pedras brutas e calhaus  em jóias valiosas de ouro e diamantes

Segundo Luis da Camara Cascudo, "durante séculos, enquistado e distante das regiões policiadas e regulares, o sertão viveu por si mesmo, com seus chefes e milicianos. As primeiras sesmarias, no longínquo século XVII, trouxeram o sesmeiro com seus trabalhadores que eram, nos momentos em que a indiada assaltava, homens de armas." e isso trouxe anomalias sociais e injustiças.  

E continua dizendo que foram "os mais ricos que deram os sargentos-mores, os capitães-mores das ribeiras, títulos honoríficos mas de ação moral segura para a disciplina da região. Os fazendeiros tiveram necessidade de tropa pessoal, fiel e paga, para a defesa de propriedades visadas pelos adversários políticos." 

"A justiça, cara, lenta e rara, era vantajosamente substituída pelo Trabuco, numa sentença definitiva e que passava em julgado sem intimação do procurador-geral. Abria ensancha a uma série de lutas ferozes, de geração a geração, abatendo-se homem como quem caça nambus. Das emboscadas, tiroteios, duelos de corpo a corpo, assaltos imprevistos nas fazendas que se defendiam como castelos, batalhas furiosas de todo um bando contra um inimigo solitário e orgulhoso em seu destemor agressivo, nasciam os registos poéticos, as gestas da coragem bárbara, sanguinária e anônima."


A aura poética foi a grande culpada - digamos assim - se bem que não existe barreiras para a poesia, para o romance e nem para o cinema - mas a grande questão é como separar a inspiração irreal da verdade.

Por exemplo, um dos focos poéticos dos cantadores de feira, tanto no sertão de outrora, quanto na modernidade, faz que os poetas cordelistas enfoquem sempre que os cangaceiros tornaram-se "fora da lei" por conta de injustiças cometidas contra eles ou familiares. Lógico que em alguns casos, isso aconteceu sim. Mas em outros, esses cangaceiros antes que a "lei dura" ao combate do banditismo chegasse a eles ou seus familiares, com a sanha desnaturada de violência, já tinham cometido malfeitos.

Daí isso tornava-se indistinto para a maioria, pois como fazer distinção do cangaceiro do homem valente? No cangaço não sobrevivia quem era "frouxo". Só os valentes sobreviviam aos ataques de uma polícia que era violenta; e tornavam-se admirados, não por seus roubos e assassinatos, mas por não demostrarem medo, até que um dia eram mortos e daí se já eram cantados em vida, quando mortos viravam fontes de enaltecimento pelos poetas cordelistas do sertão.

"Raramente sentimos, nos versos entusiastas, um vislumbre de crítica ou de reproche à selvageria do assassino. O essencial é a coragem pessoal, o desassombro, a afoiteza, o arrojo de medir-se", nos alerta Camara Cascudo.

O sertão nordestino nos mostra que temos muito dos povos ibéricos, principalmente de Portugal e Espanha, e sua presença no mundo. De matriz globalmente latina, os ibéricos tiveram uma profunda influência no planeta a partir do século XV, inaugurando a expansão ultramarina europeia e espalhando as suas culturas e as suas línguas por todos os continentes, mas especialmente pela América Latina. Por sua vez, além de seus costumes, trouxeram também outros que em suas aventuras de busca de rotas comerciais adquiriram. Daí as tradições cantadas, indumentárias de couro dos vaqueiros, as armas brancas. Tudo isso veio de lá, de terras ultra-marinas.

O canto das aventuras dos heróis, onde a poética que tudo pode, transformou o cangaceiro nordestino, por sua valentia em tais. Em todos os povos existe isso. Na Inglaterra com Robin Hood, na França com Pierre de la Brosse, na Itália com Gasparone, com Bonnacchocia, com Nino Martino, com o napolitano Perella, o corso Romanetti cujo enterro, em Ajaccio, a 29 de maio de 1926, foi acompanhado por 30.000 pessoas e a polícia teve de ser recolhida, "por precaução" aos quartéis, para evitar "conflitos com o Povo". (Gustavo Barroso — "Almas de Lama e de Aço", p. 110.) 

"Não é doutra origem o halo popular que sempre cercou Ciro Annichiarico, dom Gaetano Vardareili que se fez padre ou Louis Mandrin, contrabandista e assaltador, adorado pelos aldeões franceses que o têm como herói legítimo. Como o cangaceiro é a representação imediata da coragem, o sertanejo ama seguir-lhe a vida aventurosa, cantando-a em versos."
(Luis da Camara Cascudo - "Vaqueiros e Cantadores" pg 161)
Criando Deus o Brasil, 
desde o Rio de Janeiro, 
fez logo presente dele 
ao que fosse mais ligeiro: 
O Sul é para o Exército! 
O Norte é prá Cangaceiro! ...
Antônio Silvino, o "Rei do Sertão", durante vinte anos de domínio absoluto, era tido pelos cantadores como um ser infeliz, obrigado a viver errante por ter vingado a morte de seu Pai. 

Eu tinha quatorze anos, 
quando mataram meu pai. 
mandei dizer ao cabra: 
Se apronte que você vai 
Se esconda até no inferno 
de lá mesmo você sai.
                
Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a mesma: 

Assim como sucedeu 
ao grande Antônio Silvino, 
sucedeu da mesma forma 
com Lampeão Virgolino, 
que abraçou o cangaço 
forçado pelo destino . 

Por que no ano de Vinte 
seu Pai fora assassinado 
da rua da Mata Grande, 
duas léguas arredado.
Sendo a força de Polícia 
Autora deste atentado ... 

Lampeão desde esse dia 
jurou vingar-se também, 
dizendo: — foi inimigo, 
mato, não pergunto a quem... 
Só respeito neste mundo 
Padre Cisso e mais ninguém! ... 

A exaltação dos cantadores pelas façanhas de Antônio Silvino chegara ao delírio. Subia das gargantas um hino áspero, selvagem e tremendo de glória rude, tempestuosa e primitiva. 

Cai uma banda do céu, 
seca uma parte do mar, 
o purgatório resfria, 
vê-se o inferno abalar ... 
As almas deixam o degredo, 
corre o Diabo com medo, 
o Céu Deus manda trancar! 

Admira todo o mundo 
quando eu passo em um lugar. 
Os matos afastam os ramos, 
deixa o vento de soprar, 
se perfilam os passarinhos, 
os montes dizem aos caminhos: 
Deixai Silvino passar! ... 


Assim mesmo inda há lugar 
que eu passando tocam hino, 
o preto pergunta ao branco, 
pergunta o homem ao menino: 
— Quem é aquele que passa? 
E responde o povo em massa: 
— Não é Antônio Silvino? 

Pergunta o vale ao outeiro
 o ima à exalação, 
o vento pergunta à terra, 
e a brisa ao furacão, 
respondem todos em coro: 
— Esse é o Rifle de Ouro, 
Governador do Sertão! ... 

E a Lampião afirmam, nos versos que lhe são continuamente dedicados: 

O cangaceiro valente,
nunca se rende a soldado,
melhor é morrer de bala,
com o corpo cravejado,
do que render-se à prisão,
para descer do sertão,
preso de desmoralizado...

Para Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, a história é a mesma. A exaltação dos cantadores pelas façanhas dos valentes. Preso a 28 de novembro de 1914, Antônio Silvino, o "Rifle de Ouro" tornou-se um homem digno da viva simpatia que o cercou. O Governo Federal indultou-o e, a 19 de fevereiro de 1937, o "Rei do Sertão", velho, encanecido, risonho, mas impassível, deixou a prisão. Herda-lhe a fama o sinistro Lampião, cangaceiro sem as tradições da valentia pessoal, de respeito às famílias que sempre foram apanágios do velho Silvino. 

"A gesta do Cangaceiro faz ressaltar as grandes e pequenas figuras do "cangaço". Desde o negro Vicente que confessava: 

Eu sou negro ignorante 
só aprendi a matar, 
fazer a ponta da faca, 
limpar rifle e disparar, 
só sei fazer pontaria, 
e ver o bruto embolar.
Camara Cascudo também fala de outros bandidos famosos, "... de valentia louca e não menor arrogância. Cirino Guabiraba, da Serra do Teixeira, Paraíba, sabendo que ia ser cercado por dez homens comandados pelo delegado Liberato: 

Cirino disse sorrindo: 
— Com isso eu não tomo abalo, 
dez homens contra mim só 
são dez pintos contra um galo, 
para eu matar eles todos, 
basta os cascos do cavalo! ... 

E morreu em luta, um contra dez, arrancando os intestinos varados a bala de latão e chumbo grosso.

O sertão guarda a lembrança dessas dinastias de facínoras, heróis e bandidos, e deles evocava suas gestas e valentias. Até que surgiu alguém, um cantador chamado José Patrício que em seus verso entoados nas feiras do Interior paraibano, mostrava com crueza, a ausência daqueles valentes, pois estavam mortos: 

Então, me diga onde estão 
os valentões do Teixeira? 
onde estão os Guabirabas? 
Brilhantes, de Cajazeiras? 
Aonde vivem estes homens 
que eu não os vejo na feira? 

E como o sertanejo deduz de toda luta um aspecto moral, um direito preterido, um patrimônio violado, os poetas populares dizem que é o desrespeito às minorias, que nunca se fizeram sentir ante a arbitrariedade dos governadores, um dos motivos da eterna guerra. Daí o endeusamento aos valentes, confundindo com as injustiças que alguns sofreram, com sua luta como se fosse pela justiça social.

Este governo atual Julga
que a oposição 
não tem direito ao Brasil, 
pertence a outra nação... 
Devido a isso é que o rifle
tem governado o sertão! ... 

E os cangaceiros convencem-se de seu papel de justiça social, defendendo pobres e tomando dinheiro aos ricos. Lampião confessa: 

Porém antes de eu ser preso, 
Hei de mostrar o que faço, 
dar surra em cabra ruim 
roubar de quem for ricaço. 
Só consinto em me pegar 
no dia em que alguém pisar 
em cima do meu cangaço ... 

Quando Antônio Silvino percorria o Nordeste com seu bando, os cantadores, aludiam, com uma naturalidade espontânea, ao seu "serviço" social: 

O forte bate no fraco, 
o grande no pequenino, 
uns se valem do Governo, 
outros de Antônio Silvino, 
O rifle ali não esfria 
sacristão não larga sino...
Como nos diz Camara Cascudo: "A gesta é uma poesia de ação. De luta e de movimento. Não há a sensação da paisagem da natureza e do cenário. Verso descrevendo esses elementos denuncia inteligência semiletrada e nunca a produção se destina aos lábios dos cantadores. Os cangaceiros são as figuras anormais que reúnem predicados simpáticos ao sertão. A coragem, a tenacidade, a inteligência, a força, a resistência eram elementos para a exaltação." (Luis da Camara Cascudo - "Vaqueiros e Cantadores" pg 164)

E como isso afetava de sobremaneira o povo sertanejo, esses predicados foram os preferidos dos poetas cordelistas e cabe aos pesquisadores e historiadores, desfazerem o mito criado.

Fonte maior da matéria: "Vaqueiros e Cantadores" de Luis da Camara Cascudo.

domingo, 4 de setembro de 2016

Oh Deus... que pecados tenho?

São João, Taumaturgo de Kronstadt
Assistindo um documentário (ao final do artigo) sobre a vida de São João de Kronstadt (1829-1908) uma das grandes figuras da Igreja russa, no século dezenove, ouvi sua oração que inicia assim: 

"Por setenta anos eu tenho pecado diariamente, e me arrependo diariamente... e todos os dias o Senhor me tem perdoado, esperando minha evolução... eu me arrependo, choro na medida que sou vencido, e ainda assim recebo o perdão... quantas lágrimas de tenra aflição o Senhor tem me concedido... quantas torrentes de misericórdia ele derramou sobre mim... o que darei ao Senhor por tanta misericórdia?... oh Deus, tende piedade de mim, um pecador... de novo e de novo... sede paciente comigo... e limpai-me de toda poluição da carne e do espírito. Amém."

Era conhecido com Padre João de Kronstadt, porque durante seu ministério ele trabalhou nesse lugar, Kronstadt, uma base naval e subúrbio de Petersburgo. O padre João é mais lembrado por seu trabalho como padre paroquial, visitando os pobres e os doentes, organizando trabalhos caritativos, ensinando religião para as crianças de sua paróquia, pregando continuadamente, e acima de tudo rezando com e para seu rebanho. Ele tinha uma intensa consciência do poder da oração, e quando ele celebrava a Liturgia era inteiramente arrebatado: 

"Ele não conseguia manter a medida prescrita da entonação litúrgica: ele clamava por Deus; ele gritava; ele chorava em face do Gólgota e da Ressurreição que se apresentavam para ele com um atordoante imediatismo" (Fedotov, A treasury of Russian Spirituality, pág 348). 

O mesmo sentido de imediatismo pode ser sentido em todas as páginas da autobiografia que o padre João escreveu, My Life in Christ. Como São Serafim, ele possuía o dom da cura, de percepções e entendimento e de orientação espiritual.

Padre João insistia em comunhão freqüente, apesar de na Rússia de seu tempo era completamente não usual, os leigos comungar mais do que quatro ou cinco vezes por ano. Porque ele não tinha tempo para ouvir individualmente confissões de todos que vinham para comungar, ele estabeleceu uma forma de confissão pública, como todos gritando seus pecados simultaneamente. 


Ele tornou a iconostase (biombo divisório decorado com ícones que separa a nave da igreja do santuário) num anteparo baixo, de modo a que o altar e os celebrantes ficassem visíveis durante o Oficio.

Iconastase de Igreja
Na sua ênfase na comunhão freqüente e na sua reversão para formas mais antigas de iconostase, padre João antecipou os desenvolvimentos litúrgicos da Ortodoxia contemporânea. Em 1964 ele foi proclamado Santo pela Igreja Russa, no exílio.

Para maiores detalhes de sua vida, acesse aqui A vida do padre João de Kronstadt.

Mas esse longo preâmbulo - geralmente me perco nele quando o assunto é maravilhoso, e a vida desse homem, santificado por seus pares simplesmente é incrível! - é para levantar algumas considerações a respeito do pecado humano. 

O que é pecado? 
De que forma ele altera nossa consciência? 
De que forma nos atinge, e a outros?

Pecado é qualquer ato, sentimento ou pensamento que vai contra os padrões de Deus. Quem peca desrespeita as leis divinas, fazendo o que é errado ou injusto do ponto de vista de Deus. Nos idiomas originais da Bíblia, as palavras traduzidas “pecado” significam “errar um alvo”. Bem... taí a resposta para a primeira pergunta. Vamos agora tentar responder a segunda, que a terceira está embutida.

Quem cometeu um pecado talvez sinta o peso de uma consciência culpada, fazendo que fiquemos pesarosos e muitas vezes se a pessoa é extremamente religiosa, poderá até mesmo ficar depressiva e levar ao ato extremado do suicídio. Veja o caso de Judas, que traiu Jesus. Outro exemplo, o rei Davi que escreveu: “Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia. São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza. Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne. Ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração, lanço gritos lancinantes..” (Salmo 37:5-9 Trad. Católica Ave Maria)

Vemos que a incapacidade de evitar o erro prova que o pecado é um problema mais profundo do que só agir de modo errado. E isso, o resultado dele, atinge até mesmo pessoas não religiosas, que ficam afetadas por seus erros. Será que só pessoas religiosas têm esse dom da consciência? Considere as palavras de São Paulo, o apóstolo das nações, que disse: “Quando pessoas das nações, que não têm lei, fazem por natureza as coisas exigidas por lei, essas pessoas, embora não tenham lei, são uma lei para si mesmas. Elas mesmas demonstram que têm a essência da lei escrita no coração, ao passo que a consciência delas também dá testemunho, e, pelos seus pensamentos, elas são acusadas ou até mesmo desculpadas.” (Romanos 2:14, 15 Trad. Novo Mundo) Mesmo os que não têm nenhum conhecimento das leis de Deus podem às vezes ser motivados pela consciência a agir de acordo com os princípios divinos.

Todos nós estamos sujeitos a pecados. Não podemos nos livrar dessa tendência por esforços próprios. “Quem pode, de alguém impuro, produzir alguém puro? Nem sequer um.” nos diz Jó 14:4. Mas então somos todos impuros? Em qual sentido somos impuros? Segundo a Bíblia, impureza é tudo que contamina a pessoa. Impureza é sujeira espiritual. Cada pessoa precisa ser limpada da impureza porque ela causa grandes problemas na vida espiritual. A impureza na Bíblia inclui a imoralidade sexual mas não só isso. Jesus explicou que a verdadeira impureza não é a sujeira física (terra, micróbios... etc) mas a impureza que é realmente perigosa é a impureza do coração. Jesus listou algumas das coisas que nos tornam impuros:

"Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem." - São Marcos 7:21-23 Bíblia Católica Ave Maria

Quero dizer que a humanidade está em ritmo de aperfeiçoamento, ficando cada vez mais consciente de suas imperfeições. Não acredito que chegaremos tão cedo a uma sociedade perfeita. E isso, de sociedade perfeita é defendido e usado pelas religiões que prometem para os humanos um paraíso de moldes bíblicos, restabelecido por Deus, quer seja nos céus, de forma espiritual, ou na terra, com o ser humano se tornando perfeito.

De qualquer maneira, acreditando ou não nessas teses religiosas, o importante para aqueles que querem ter uma vida sem o peso de uma consciência que lhe cobre por suas imperfeições, é tentar viver da melhor forma possível, seguindo uma regra de ouro, inclusive citada por Jesus Cristo, que é a que diz:

“Todas as coisas . . . que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles.” — MAT. 7:12 Trad. Novo Mundo

Veja aqui 

A vida de São João de Kronstadt




sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Boêmio desde menino em Fortaleza e no mundo

Sempre soube que era diferente dos meninos de minha idade. Pensa que eu era menino de andar com eles? Que nada! Eu andava com adultos. Era precoce em tudo...

Gostava do que meninos não gostavam, embora gostasse de coisas que eles gostavam. Gostava de brincar de bila (gude), de esconde esconde, de cowboy, de índios, de arraia (pipa) e nadar na piscininha ali na praia de Iracema, vizinho ao Estoril. Quando criei mais um pouco de marra, escorria de peito (jacarés) nas ondas espumantes da ponte metálica. Ia parar somente na areia, pertinho das pedras.

Mas como dizia... era precoce. Vejam que eu já fazia farras. Os namorados de minhas irmãs, jovens rapazes que faziam serenatas para elas e para as meninas da Praia de Iracema eram minhas companhias preferidas. O Fábio, o Zé Carlos, o Lucinon, o Dedé, o Chiquinho, o Silvio Carlos, o Antonino, o Braga, o Lolô, o Toinho do Violino, o Roberto Pimenta, todos jovens de mais idade, era a turma que gostava de andar. Fazia junto com eles serenatas. Mais crescido um pouco, já dedilhava violão em serenatas também.

Era um menino metido a rapaz. Frequentava o Farol com suas boites de luz vermelha com o amigo Antonino, que tinha um xodó com uma prostituta chamada Dulce, que era minha amiga e de quem nunca esqueço, inclusive quando escrevo agora, parece que ela está na minha frente. Lembro que teve um dia que bebíamos em seu cabaré e de repente alguém veio avisar que uma blitz do Juizado de Menores estava dando batida na boite vizinha e ela me escondeu em seu quarto. Depois que foram embora, continuamos a gargalhar e ouvir músicas.

Eu era mesmo um bom "filho da mãe metido a escrôto" - Fazia e aprontava quando menino de meus doze anos. Meus pais não sabiam mais o que fazer. Vinham queixas de escola, de vizinhos... da rua. Era eu um menino de rua. Com meus 13 anos já era o que brigava com qualquer um. Tinha uma família que morava perto, que tinha dois garotos e um deles era meu espelho. Brigávamos sempre. Seu apelido era Maninho. Era até boa gente... mas sabe como é né? Tínhamos que pegar corda dos com mais idade que nós. A negada passava um risco no chão e diziam que nossas mães eram representadas pelos espaços de ambos os lados. Daí a gente ficava cuspindo nesses espaços como se cuspíssemos nas madres que nos criaram. Dizendo palavrões com elas e daí o pau cantava. Que tolos éramos!

Já com meus 14 anos, frequentava as rodas de samba e chorinho do "seo" Cirilo que ficava em frente de minha casa, na rua Dom Joaquim, 36, no Seminário da Prainha, confluência com avenida Monsenhor Tabosa. Eles iniciavam a brincadeira dominical com essa música, Pedacinho do Céu:



Dona Péta, esposa de "seo"Cirilo, um caboclo idoso, avermelhado e aloirado de cabelo pixaim, taciturno e amável conosco, preparava em sua cozinha, uns quitutes de tira-gosto e uma cachacinha de "mão nos beiços", comprada no Mercado dos Pinhões, ali pertinho de onde morávamos. De vez em quando um dos coroas levantava e ia lá atrás, dar uma bicada e voltava com olhos avermelhados de satisfação. Todos eram exímios instrumentistas. Violões, Cavaquinhos, pandeiros, e caixas de fósforos roncavam badalando com seus sons característicos de uma verdadeira roda de samba e chorinhos gemendo ali na minha frente, e eu embevecido com aquilo tudo, pasmo de satisfação, assistia por horas aquelas apresentações. Quem eram os meninos de minha idade para assistir aquilo? Só eu. Só eu mesmo. Era precoce e boêmio. Ali naquela rodinha de chorinho e sambas, estava Zé Guilherme, com seu terno branco domingueiro, assim como os demais, era tio de minha amada Quinha Flor, com quem iria me casar aos dezoito anos, e até hoje faz minha alegria.

Quando antes de completar dez anos, meu pai contratou um professor para dar umas aulas de violão pra uma de minhas irmãs e eu ficava de junto. Olhos grelados nas mãos do professor. Queria aprender. Minha saudosa mãe, que Deus a tenha, ralhava comigo quando terminada a aula e o professor ia embora, eu pegava o violão e fazia aquelas posições de dedos todinhas, não errava uma. Não queria que eu aprendesse. Já sabia o filho que tinha. Era um futuro boêmio.

Interessante que depois de já estar casado, e com filhos, morando na velha e querida Bahia de São Salvador, ela gostava... ia pra toda parte conosco, bebendo todas junto comigo, em farras descomunais levadas a tira-gosto de Lambretas... mas isso já é outra, das outras histórias, desse menino precoce que menino até hoje é. Depois conto mais...


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Avalanche de informações

O universo digital já é tão vasto quanto o real e continua se expandindo. Estudo da EMC, empresa líder do mercado internacional de armazenamento de dados, divulgado em 2014, revela que já existia disponíveis no mundo quase 1 septilhão de bits de informação — ou o número 1 seguido de 24 zeros, total similar ao de estrelas conhecidas no céu, segundo a Agência Espacial Europeia. A estimativa é que, até 2020, o número de dados armazenados em computadores, servidores, celulares, smartphones e tablets seja, no mínimo, multiplicado por seis; um volume tão gigantesco, que os especialistas passaram a medi-lo em termos de distância da Terra à Lua. (1)

Estima-se que em 60 segundos são feitas cerca de 694.445 buscas no Google; 320 novas contas e 98 mil tweets são geradas no Twitter;  695 mil atualizações de status, 79.364 postagens no mural e 510.040 comentários são publicados no Facebook; 100 novas contas no Linkedin;  13 mil aplicativos são baixados para o iPhone;  600 vídeos são enviados para o YouTube, sendo mais de 25 horas de conteúdo. (2)


Já as informações com o conteúdo CANGAÇO existem aproximadamente 942.000 resultados quando se busca com a ferramenta Google. Apenas a palavra CANGACEIRO, temos 692.000 resultados. Para LAMPIÃO E MARIA BONITA 237.000 resultados. Para as palavras CANGACEIRO E VOLANTES, aproximadamente 19.200 resultados.


Como vemos, as informações são de um quantitativo muito grande apenas para esses temas. Como filtrar todas essas informações? Como ir aos posteres com conteúdo realmente informativo sobre o assunto? Estamos vivendo numa era de excesso de dados e principalmente para pesquisas com foco em edição de livros, não se pode perder muito tempo em busca. Para isso grandes autores, utilizam-se de uma equipe em que cada um tenha um foco especificado, para cair dentro do mundo dos livros, revistas e internet, coletando dados.


Todos os dias uma verdadeira avalanche de conteúdo é criado.  Estima-se que, dentro de alguns anos, as informações na internet irão dobrar a cada 72 horas. E para as pessoas que, nos dias de hoje têm como principal inimigo o tempo, gerenciar esse enorme fluxo de informação será, se já não é, um problema. 


Um dos problemas que temos, e eu tenho, e chamo isso de "labirintos mágicos" da Internet é que um mundo contínuo de descobertas surgem quando estamos estudando determinado assunto e começamos a clicar em links inicialmente combinados sobre o assunto em pesquisa e quando vemos estamos num buraco negro de informações novas, sendo algumas delas totalmente fora do foco da busca, simplesmente porque somos curiosos e cada vez mais buscamos aumentar os nossos conhecimentos. Isso de desvio de foco, já não acontece com pesquisas em livros.

Não quero dizer que "aumentar conhecimentos" seja óbice, mas quando interfere em trabalhos que precisamos concluir, problema é. E uma das melhores saídas para não se ver envolvido em assuntos fora do foco da pesquisa, é deixar uma pasta em seus assuntos favoritos, com um título que você identifique os assuntos, e deixe registrado para verificar tais dados no futuro, quando estiver terminado seu trabalho atual. É o que faço. 



(1) por André Machado 10/04/2014 - O Globo
(2) Canal do Empreendedor