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sexta-feira, 22 de abril de 2016

CANUDOS: Sobrevivência na tela

Sobrevivência na tela

Ficção e documentário, dois filmes são exemplos de como o cinema impediu que a destruição de Canudos significasse esquecimento

  • Quando as tropas militares dispararam os últimos tiros contra o arraial liderado por Antônio Conselheiro, Canudos estava arrasado. Mas simbolicamente tudo continuou bem vivo: décadas depois daquele sangrento episódio, o beato e seu povo permaneceram ressoando na memória e nos estudos de muita gente. São incontáveis as obras que surgiram sobre o tema. Entre elas estão dois filmes que merecem ser vistos e discutidos por conterem elementos fundamentais para um melhor entendimento daquele universo de confronto: Guerra de Canudos, de Sérgio Resende, e Paixão e Guerra no Sertão de Canudos, de Antônio Olavo. 
    Ambas as produções nasceram quase um século após a queda do vilarejo baiano. E trazem, cada uma, suas próprias técnicas narrativas, suas visões de mundo, seus objetivos, interesses e compromissos. Enquanto o filme de Resende, lançado em 1997, é um longa de ficção, Olavo reconstrói a história por meio de um documentário que veio a público em 1993. 
    Em Guerra de Canudos, o diretor aproveita a vida de seus personagens para contar o drama que também ficou imortalizado em Os Sertões (1902), clássico da literatura nacional produzido por Euclides da Cunha. Ao longo do filme, trechos bastante conhecidos do livro são citados, além de outros documentos do escritor, como a famosa “Caderneta de Campo” – com breves observações e ricas reproduções de fragmentos – e até um “ABC”, integralmente copiado.
    Levar para os cinemas a história de Canudos não saiu barato. Para que a produção milionária pudesse se tornar realidade, Sérgio Resende contou com fortes apoios financeiros, que vieram de patrocínios dos órgãos públicos e de empresas privadas. O resultado foi uma belíssima reconstrução daquela guerra, que contou com a contratação de renomados técnicos – havia, inclusive, um profissional de Hollywood – e artistas famosos do cinema, do teatro e da televisão nacional. 
    Uma cidade cenográfica foi erguida na região, conferindo ao longa um elevado nível de fidedignidade técnica e profissional. Assim como na vida real, terminou absolutamente destruída após a Guerra. Além dos atores famosos, como José Wilker, Marieta Severo e Cláudia Abreu, centenas de artistas locais foram escalados para interpretar os habitantes da cidade. Do início ao fim, reviveram a violenta intervenção do Exército nacional, apoiado por inúmeros batalhões de polícias militares de vários estados brasileiros. Quase cem anos depois da guerra, as câmeras lideradas por Sérgio Resende filmavam a reconstituição de uma vila que foi bombardeada, queimada, conquistada palmo a palmo e por fim devastada, para que sua imagem fosse definitivamente apagada de nossa história.
    Isso, porém, não aconteceu, como pode ser visto em Paixão e Guerra nos Sertões de Canudos. No documentário, Antônio Olavo se baseia em depoimentos de vários estudiosos, além de conhecedores da vida e da obra de Antônio Conselheiro. Ele também entrevista populares, descendentes e familiares do beato, confrontando opiniões e aproveitando as posições contrárias para discutir os vários temas que escolheu, em rigorosa cronologia.
    Para reconstruir a vida e os caminhos do líder religioso, Olavo mergulhou fundo: refez o percurso do Peregrino, viajando e filmando com sua equipe por mais de 2.400 quilômetros. Cruzou o interior dos sertões do Nordeste, foi até Salvador e Rio de Janeiro, recolhendo palavras, memórias e imagens de pesquisadores, acadêmicos, intelectuais, além de palácios e museus, todos rigorosamente autênticos para compor o seu roteiro.
    Sem os recursos dos grandes patrocinadores, muito menos a garantia de exibição em uma extensa cadeia nacional de telecomunicações – o que lhe garantiria público e recursos – o diretor teve de contar com o voluntariado de amigos e apaixonados por aquela história. A equipe não só deixou de receber, como financiou suas próprias despesas, e alguns chegaram a dar contribuições para que o trabalho se realizasse, de maneira quase inteiramente artesanal. Prova de que, mesmo arrasado, o arraial de Canudos continua de pé na memória de muita gente. 
    Sérgio Armando Diniz Guerra 1/12/2014 - Sérgio Armando Diniz Guerra é professor aposentado de história da Rede Estadual de Educação da Bahia e da Universidade do Estado da Bahia. 
    Saiba Mais:
    CALASANS, José.  Quase biografias de Jagunços: o séquito de Antonio Conselheiro. Salvador-BA: EDUFBa, 2013.
    CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009. Obra disponível em domínio público através do link: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000153.pdf 
    MONIZ. Edmundo. A guerra social de Canudos. 2. ed. São Paulo: Ed. Civilização Brasileira, 1987. 
    VILLA, Marco A. Canudos: O povo da terra. São Paulo: Ática, 1995. 


CANUDOS: Notícias do fim do mundo

Notícias do fim do mundo

Canudos foi um evento de mídia global, com ampla cobertura em jornais europeus. Leitores ingleses souberam do fim do conflito antes dos brasileiros

  • Se a Guerra de Canudos teve, como todas as guerras, traços arcaicos e bárbaros, ela também foi extremamente moderna. Não apenas pelo emprego de avançada tecnologia militar, mas enquanto guerra psicológica, orquestrada por ferrenha produção propagandística na imprensa brasileira. E também na internacional.O telégrafo instalado pelo exército entre as vilas de Queimadas, estação ferroviária mais próxima do teatro de guerra, e Monte Santo, base de operação das forças legais, a 70 km de Canudos, permitia a transmissão rápida de notícias para o país e para o mundo, mas também a censura e as restrições ao trabalho dos correspondentes de guerra: só os bem-comportados podiam se servir desse moderno e rápido meio de comunicação.
    Tudo isso é conhecido. Surpreendente é saber que aquela guerra no distante sertão brasileiro, quase fora da civilização, teve cobertura mundial. Durante meses as vicissitudes da quarta expedição estiveram presentes na grande imprensa das Américas e da Europa, com mil detalhes, fatos, mentiras e boatos, que as representações diplomáticas do Brasil tentavam manipular. As notícias saíam do sertão para as redações de Salvador, São Paulo e principalmente Rio de Janeiro, eram transmitidas para as agências noticiosas de Londres e só então seguiam para as redações de Berlim ou Paris, passando às vezes por Nova York, Lisboa e Buenos Aires.  
    O interesse da Europa por Canudos torna-se constante a partir da derrota da terceira expedição, comandada pelo coronel Moreira César, em 3 de março de 1897, e vai até a vitória final do exército, em 5 de outubro. Durante esses sete meses, o Vossische Zeitung, grande diário liberal berlinense, publica 16 artigos ou notas dedicados à guerra brasileira, e sete ganham a primeira página. No mesmo período, The Times, de Londres, produz 15 artigos direta ou indiretamente relacionados a Canudos. Enquanto isso, em Paris, o Le Temps traz 22 matérias sobre o tema.
    No Brasil, alguns poucos letrados indignaram-se diante do modo pouco civilizado com que a civilização era imposta aos sertanejos, crítica que ganharia expressão de acusação e protesto com Euclides da Cunha no livro Os Sertões (1902), mas que não teve repercussão na imprensa europeia da época. Esta refletia a visão das elites do Brasil, embora deixasse transparecer também algum respeito pela combatividade dos sertanejos. Em princípio, os três jornais europeus não contestam as afirmações e as metas do governo, torcendo claramente pela vitória das armas legais. As únicas críticas referem-se aos comunicados precipitados de vitória, aos erros de estratégia militar e às suspeitas de corrupção contra o alto comando da quarta expedição. A principal fonte dessas objeções era o carioca Jornal do Commercio, conhecido por seu ceticismo para com os republicanos extremistas e no qual escreveu, por curto período, um dos poucos correspondentes críticos em relação ao exército, Manuel Benício, obrigado pelo alto comando a abandonar o teatro de guerra em julho de 1897.
    Tratar Canudos como uma insurreição era facilitado pelo fato de as palavras messias, fanático, insurgente e rebelde serem facilmente traduzíveis. Mais complicado era explicar outro conceito-chave da imprensa brasileira, o calunioso jagunço, descartado pelos europeus. Ainda assim os conselheiristas eram desqualificados com expressões incriminadoras, como “salteadores” e “ladrões de gado”. Porém, na escrita relativamente sóbria desses jornais, não  havia espaço para cobrir o exército com um manto de heroísmo.
    Se fossem deixados em paz, talvez os conselheiristas não se tornassem tão perigosos. Esta inteligente observação sobre o caráter defensivo do movimento aparece no jornal alemão e no londrino, que retoma a mesma ideia várias vezes depois. O Times mantém-se em descrença em relação à suposta conspiração monarquista, posição nem sempre partilhada pelos outros jornais, que parecem mais próximos do governo brasileiro. Em março, o Vossische Zeitung traduziu um artigo quase inteiro do Times mas omitiu dois importantes elementos: o empastelamento de jornais monarquistas no Rio e a avaliação do correspondente de que o apoio dos monarquistas ao Conselheiro carecia de evidências. 
    Em abril, o jornal berlinense tenta explicar a espantosa derrota da expedição Moreira César sem criticar demais o seu comandante, reduzindo seus erros à subestimação do número de inimigos. O artigo exagera a quantidade de combatentes canudenses e de soldados mortos, tendência geral dos jornais brasileiros e europeus. Enquanto no primeiro artigo os inimigos figuravam apenas como fanáticos, no seguinte eles são chamados de rebeldes e insurgentes. A legitimidade de uma guerra contra meros desgarrados mentais e ideológicos pode ser posta em dúvida, mas contra insurgentes não há como hesitar, pois subvertem a ordem estabelecida, ameaçam a vida e as propriedades. O artigo evoca o perigo, na realidade nunca existente, das capitais do litoral serem invadidas pelos seguidores do Conselheiro, preocupação espalhada por alguns jornais brasileiros. 
    O maior artigo publicado sobre Canudos fora do Brasil naquela época foi provavelmente o do Times de 12 de junho de 1897. Em carta, seu correspondente no Rio recorre a uma sintaxe elaborada e a um raciocínio ora descritivo, ora analítico, para situar a guerra no contexto político e econômico nacional. Atenua as alegadas superstições dos sertanejos e refuta a tese de Canudos ser uma revolução dirigida contra o governo. Se ele é perigoso, isso se deve à repressão – mas agora que esta começou, tem que ser levada até o fim. O correspondente mostra-se preocupado com o endividamento do Brasil, agravado pelas altíssimas despesas com a guerra, o que prejudica, portanto, o crédito internacional do país.
    O grande assalto fracassado do exército, em 18 de julho, passa quase despercebido pela imprensa estrangeira, pois, devido à censura, nem os jornais brasileiros souberam explicar o que ocorreu naquele dia. Artigo do Vossische Zeitung de 10 de agosto levanta pela primeira vez a tese do comunismo como princípio de organização igualitária de Canudos, elogiando sua disciplina interna. Na primeira página de 8 de outubro, o jornal alemão noticia a tomada de Canudos em longo artigo com um balanço da guerra, mas recai em erros aparentemente já superados, como a tese da conjuração monarquista – útil talvez para explicar a longa duração do conflito e o desempenho decepcionante do exército. Os leitores alemães são informados do fim da guerra quase tão rápida e amplamente quanto os brasileiros. Já os londrinos souberam da tomada de Canudos no dia anterior, 7 de outubro, algumas horas antes dos brasileiros devido à diferença de fuso horário.
    O Vossische Zeitung ainda ignorava, porém, a total destruição do arraial. Supunha a sobrevivência de Canudos como cidade e Antônio Conselheiro mais tarde perante um tribunal. As matanças sumárias e o extermínio a ferro e fogo de toda uma comunidade não entram na imaginação do redator alemão. A biografia resumida do Conselheiro dá ênfase a seu papel de profeta, anacoreta (monges cristãos que viviam solitariamente) e messias, juntamente com o de fanático, provavelmente uma tentativa de lidar com um fenômeno social insólito inserindo-o na lógica do cristianismo. Chamar a guerra de conflito entre brasileiros e fanáticos significa, implicitamente, excluir os canudenses da nação. Por outro lado, enfocar a situação econômica como uma das causas da popularidade do Conselheiro é uma explicação quase materialista, não frequente nos observadores brasileiros da época. A cena dos fanáticos agarrando-se aos canhões atiçou a fantasia dos leitores, pois aparece em vários artigos e livros sobre a guerra – é um topos, cena emblemática inspirada pelo romance Quatrevingt-treize, do francês Victor Hugo (1874), relatada e ficcionalizada também por Euclides da Cunha. 
    Entre os três artigos do Le Temps sobre a queda de Canudos, consta a observação verídica de que o fim da guerra fora um  "massacre". Curioso é que o periódico mais citado por outros jornais, o The Times, com correspondente próprio no Rio, pouco noticiou o fim da guerra, resumido apenas em notas nos dias 7 e 9 de outubro de 1897. O órgão central das elites europeias ficou devendo um balanço da guerra, mas no geral sua cobertura foi a mais completa, ponderada e objetiva de todas, a mais confiável à luz das pequisas modernas sobre Canudos.

    Berthold Zilly 1/12/2014 
  • Berthold Zilly é professor visitante da Univesidade Federal de Santa Catarina e tradutor de Os Sertões para o alemão. 

  • Saiba mais:
    BARTELT, Dawid. Sertão, República, Nação. Trad. de Johannes Kretschmer e Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Edusp, 2009.
    CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Campanha de Canudos. Org. de Leopoldo M. Bernucci. São Paulo: Ateliê/ Imprensa Oficial do Estado, 2002.
    CUNHA, Euclides da. Canudos. Diário de uma Expedição. Org. de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
    GALVÃO, Walnice Nogueira.  No calor da Hora. A Guerra de Canudos nos jornais: 4a Expedição. São Paulo: Ática, 1977.
    ZILLY, Berthold. “Canudos telegrafado: a guerra do sertão como evento de mídia na Europa de 1897”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ano 160, n. 405, p. 785-812. Rio de Janeiro: IHGB, 1999.


CANUDOS: A mídia em campanha

A mídia em campanha

Na defesa de interesses políticos e disseminando preconceitos, imprensa ajudou a construir o massacre anunciado em Canudos

  • “Há bons seis meses que por todo o centro desta e da Província da Bahia, chegado, (diz elle,) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antonio dos Mares: o que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antonio dos Mares”. Publicada em novembro de 1874 em O Rabudo, um pequeno semanal editado em Estância, no Sergipe, esta foi, ao que se sabe, a primeira menção da imprensa brasileira a Antônio Conselheiro. Nos 23 anos seguintes, o personagem se tornaria a peça principal do grande acontecimento “Canudos”, que foi também um evento midiático nacional.
    “Opinião pública” era algo muito limitado nos primeiros anos republicanos. Cerca de 85% da população eram de analfabetos e a mídia se restringia basicamente a veículos impressos (as rádios viriam a transmitir com regularidade no país apenas a partir de 1922). Isso significa que os iletrados, os escravos e boa parte da população rural ficavam à margem das notícias da imprensa, embora também incluídos na discussão pública através da cultura oral.
    Para o pequeno grupo de indivíduos letrados existia uma grande variedade de jornais e revistas, de diferentes orientações ideológicas. Desde 1894 nos jornais baianos, e de forma rapidamente crescente nos jornais da capital nacional e de São Paulo, Canudos e Conselheiro não apenas provocaram notícias nas páginas principais como viraram título de colunas e motivo para versos de carnaval, sátiras e anúncios comerciais – como o desta loja de calçados de Salvador, já em 1897: “Por pessoas, recentemente chegadas de Canudos, ouvimos o seguinte: Que no último ataque, um grupo de valentes soldados, depois de ter esgotado a munição, lembrou-se de correr a pontapés os conselheiristas, confiados na resistência do calçado que foi comprado na popular casa O Monumento. Que feliz ideia!”.
    Num tempo em que fotografias impressas em jornais eram raridade, o retrato desenhado do Conselheiro tinha valor de mercado – a figura de barba longa, túnica, sandálias e bengala era reconhecível mesmo sem o nome ao lado. Era já um signo, no sentido expresso por um oficial do Exército, em 1896: “Antonio Maciel, Antonio Conselheiro e Bom Jesus são três nomes distintos, mas, que um só deles basta para exprimir e concretizar o inimigo do regime atual, o pregador contra os princípios sacrossantos da lei, do trabalho e da moralidade”.
    Mais do que uma “revolta” contra a República, Canudos foi um acontecimento útil para dois diferentes conflitos de poder nos tumultuados primeiros anos do regime. Com sua enorme capacidade de atração popular, o tamanho do seu mercado e seu potencial bélico, o arraial do Conselheiro desequilibrou os poderes políticos na Bahia, há tempos tensionados pela disputa entre o governador Luís Vianna e o dono das terras daquela região, José Gonçalves, aliado ao Barão de Geremoabo. Enquanto isso, na capital nacional, Canudos virava fator decisivo para outra competição acirrada: a luta entre os oligárquico-liberais, representando a elite cafeeira paulista, e os “jacobinos”, influenciados pelo pensamento desenvolvimentista-ditadorial de forte base militar. Vencer essa guerra era uma questão de sobrevivência política para o governo do paulistano Prudente de Morais. Era por isso, e não por constituir uma ameaça real à República, que o arraial tinha de ser completamente aniquilado. 
    A função “crítica” da imprensa se esgotava na defesa de posições partidárias dos proprietários, e não em prol da defesa de princípios constitucionais ou democráticos. Em Salvador, com uma população total de 200 mil habitantes (a grande maioria não alfabetizada), circulavam cinco grandes jornais. O Diário da Bahia e o Estado da Bahia eram gonçalvistas, enquanto o Correio de Notícias, o Jornal de Notícias e (com restrições) o Diário de Notícias apoiavam o governador Vianna. Depois que os seguidores do Conselheiro derrotaram as primeiras duas expedições de policiais e soldados contra eles, os jornais da oposição se engajaram numa produção de medo. Intensificaram a estratégia de criminalização aplicada desde 1893, ano da fundação do arraial, desencadeando uma verdadeira campanha, com a publicação de documentos – na sua grande maioria falsos – para “comprovar” repetidos ataques de canudenses a fazendas da região. Levantavam a suspeita de que o governador fazia de Conselheiro um aliado, usando-o para desestabilizar a região controlada por seus adversários. 
    A partir de março de 1897, no entanto, os dois campos políticos baianos viram-se encurralados juntos por um forte discurso vindo dos jornais do Rio e de São Paulo. As notícias da derrota da terceira expedição e da morte de seu líder, o famoso “herói” coronel Moreira César, causaram pânico nas capitais. No sul, os jornais reforçaram o discurso da conspiração monarquista, já introduzido pela imprensa jacobina. Agora se via toda a Bahia caracterizada como reduto monarquista – afinal, naquele estado não houvera um movimento republicano antes de 1889 e os políticos do Império transformaram-se em republicanos pelas circunstâncias nacionais. Mas a verdade é que o movimento monarquista dos anos 1890 era insignificante fora do Rio e de São Paulo. A acusação de “monarquismo” era parte do discurso dos bacharéis liberais e dos jovens oficiais “jacobinos”, que visavam instalar uma ditadura modernizadora e positivista no Brasil. 
    O Nordeste, região de primazia econômica do primeiro ciclo colonial, e Salvador, capital da Colônia, estavam em decadência econômica e política. E os discursos midiáticos sobre a guerra de Canudos reforçaram a imagem da Bahia e do “Norte” (o termo Nordeste ainda se usava pouco) enquanto espaços de coronelismo e violência bárbara (dos “jagunços”), incapazes de se modernizarem: “Só se fala em Canudos hoje em dia,/ De norte a sul, pelo país inteiro.../ E o glorioso nome da Bahia/ Amarrado ao de Antonio Conselheiro!”, rimava o Jornal de Notícias.
    Os lugares do evento midiático “Canudos” foram as capitais no litoral, mas a principal novidade da cobertura da imprensa nacional estava no sertão. Inaugurava-se a figura do correspondente de guerra, escrevendo reportagens “ao vivo” – que levavam de 10 a 30 dias para serem publicadas, após passarem pela censura militar rigorosa, ser transportadas a pé ou por jegue até Monte Santo e então transmitidas por telégrafo a Salvador (ou de trem, pela estação ferroviária de Queimadas), de onde enfim seguiam para o sul. Na época, ainda desconhecido do público fora do seu estado natal, o engenheiro Euclides da Cunha se tornaria o mais famoso desses correspondentes de guerra. 
    Quando Euclides chega a Canudos, o discurso midiático, construído de forma intensiva, diária, ao longo de um ano, já havia produzido seu efeito final, e mortal: o governo do presidente Prudente de Morais decidira destruir Canudos a todo custo. Morreram milhares de famílias sertanejas, numa das maiores chacinas da história brasileira. Mas os relatos de Euclides e de seus colegas ao menos contribuíram para uma mudança na percepção dos canudenses pela opinião pública. Enquanto durante a guerra foram considerados “inimigos da nação”, depois de mortos foram simbolicamente reincluídos. Os inimigos se tornam irmãos e são considerados vítimas por muitos.
    Já não foi a imprensa a protagonista desta mudança de perspectiva. O debate se transferiu para tratados científicos, como o de Nina Rodrigues em 1897, panfletos políticos, uma série de crônicas publicadas em livro por oficiais e civis participantes da guerra e livros romanceados, como Os Jagunços, de Afonso Arinos, e O Rei dos Jagunços, de Manuel Benicio, correspondente do diário carioca Jornal de Commercio. Os Sertões, de Euclides, foi publicado cinco anos depois do fecho da guerra. 
    Assim como Canudos propicia debates até hoje, continua atual a discussão em torno do papel da mídia no Brasil enquanto formadora de opiniões sobre como a “nação” deve tratar os que se encontram nas suas periferias social, econômica e cultural. 

    Saiba mais:
    GALVÃO, Walnice Nogueira. No Calor da Hora. A Guerra de Canudos nos Jornais, 4ª expedição. 3. ed. São Paulo: Ática, 1994.
    LEVINE, Robert. O Sertão Prometido. O Massacre de Canudos. São Paulo: Edusp, 1995.
    LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2013.

  • Fonte da matéria: Revista de História
  • Dawid Danilo Bartelt 1/12/2014
  • Dawid Danilo Bartelt é doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, diretor do escritório Brasil da Fundação Heinrich Böll e autor de Sertão, República e Nação (EdUSP, 2009).

CANUDOS: BELO MONTE - Todos perdemos

Todos perdemos

O Exército quase deixou de existir em Canudos, uma das campanhas mais sangrentas já travadas pelo Brasil, e contra brasileiros


  • A ferocidade das batalhas foi a marca da Campanha de Canudos. E o Exército não estava preparado para a magnitude da tarefa. As tropas ainda sofriam com os efeitos das recentes Revolta da Armada (1893-1894) e Revolução Federalista (1893-1895), que consumiram muito da sua capacidade. O inimigo da vez era um religioso cheio de seguidores no interior baiano.


  • O fenômeno Antônio Conselheiro era acompanhado de perto pelos líderes políticos locais. Sua capacidade de arrastar multidões foi rapidamente identificada como uma forma de obter trabalhadores e votos. Os oponentes do governador da Bahia, Luiz Vianna, interpretaram sua falta de reação diante das andanças do Conselheiro como uma estratégia: sua intenção seria tê-lo como aliado nas eleições de dezembro de 1896. Para pressionar o governador, boatos foram espalhados por todo o interior, chegando rapidamente à capital, Salvador, dando conta de que Conselheiro planejava tomar cidades vizinhas.
    Colocado em xeque, Vianna pediu ao governo federal homens do Exército, pois em governos anteriores, chefiados por rivais de Vianna, a Polícia Militar do estado já tinha travado várias ações infrutíferas contra os seguidores de Conselheiro A primeira expedição contra Canudos foi comandada pelo tenente Manoel da Silva Pires Ferreira, à frente de três oficiais e 104 soldados. A tropa seguiu de trem até Juazeiro e de lá marchou até Uauá, onde esperou pelo ataque dos homens do Conselheiro. A vila foi esvaziada pela população em pânico, e os sertanejos não demoraram a chegar: na alvorada de 21 de novembro de 1896, vieram armados com facões, lanças e armas velhas. Eram cerca de 500 homens contra os 104 de Pires Ferreira. A luta durou quatro horas, até que os seguidores do beato se retiraram, batidos pela defesa obstinada dos soldados. 
    Soldados: xilogravura de Adir Botelho traduz a epopeia de Canudos com um traço singular. (Imagem: Adir Botelho)

    Em relatório, o tenente Pires Ferreira listou uma série de empecilhos internos que teve de enfrentar: fuzis que esquentavam demais, fardas que se transformavam em farrapos e calçados que rapidamente desapareciam, deixando os soldados descalços nas longas marchas pelo sertão. Registrou também que tinham de dormir ao relento, pois não haviam sido fornecidas tendas. Seus alertas, no entanto, foram postos de lado pelas expedições seguintes, que acabaram enfrentando os mesmos problemas. 
    A segunda expedição foi preparada sob o comando do major Febrônio de Brito. Como reforço, foram convocados homens das unidades do Exército de Salvador, Aracaju e Maceió, além de 250 membros da Polícia Militar. Entre os armamentos, chegaram metralhadoras e dois canhões Krupp de 75 mm. Mas dificuldades logísticas afetaram os planos: com meios de transporte limitados, Febrônio deixou pelo caminho suprimentos que acabaram fazendo falta. Além dos jagunços, do ambiente hostil e do sol escaldante, havia agora um novo inimigo: a fome. Os sertanejos atacaram os soldados quando eles cruzavam a estrada do Cambaio, um dos montes que circundavam Canudos. Uma dura batalha se seguiu. O saldo de baixas militares foi de quatro mortos e 23 feridos, contra 115 dos conselheiristas. O monte foi conquistado, mas os soldados estavam exaustos e a comida tinha acabado. Mesmo assim a tropa foi em frente e, no dia seguinte, marchou na direção de Canudos. 
    O povoado era, de certa forma, imponente: mais de 5 mil casas em um terreno que parecia inconquistável. Os sertanejos não esperaram a aproximação dos soldados: tinham cercado a tropa de Febrônio durante a noite, e avançaram sobre os militares por todas as direções. O que era para ser ataque virou defesa, e cenas dramáticas se seguiram com sangrentas lutas corpo a corpo. Cada vez mais adeptos de Conselheiro chegavam. O major relatou ter sido atacado por mais de 4 mil inimigos. Dois dias de fome cobraram seu preço: só restava a retirada, e os militares a fizeram, com saldo de 10 mortos e 70 feridos. Entre os defensores de Canudos foram 300 mortos. A notícia da derrota foi pessimamente recebida no Rio de Janeiro. E o coronel Antônio Moreira César, que acabara de retornar de Santa Catarina após reprimir duramente os federalistas, foi convocado para liderar uma nova expedição. Rumou para a Bahia com batalhões de infantaria apoiados por cavalaria e artilharia. Além dos baianos, recebeu homens de outros estados do Nordeste, totalizando 1.281 combatentes.
    Avançando rapidamente, Moreira César contornou os montes abrindo caminho na caatinga repleta de espinhos sob sol terrível. A tropa sofria com a falta de água e de alimentos. No dia 3 de março de 1897, os soldados conseguiram entrar no povoado. Unidades inteiras desapareceram entre as pequenas casas, e o coronel foi ferido duas vezes. A tropa se retirou quando o dia terminava. A agonia de Moreira César acabou de madrugada, quando faleceu. A notícia correu entre os soldados que, no início da manhã, começaram a se retirar em direção a Monte Santo, num movimento que logo virou fuga desorganizada. Os sertanejos se aproveitaram para executar os feridos e os militares que conseguiram capturar, decapitando-os. As cabeças foram colocadas nos caminhos para Canudos, como um aviso.
    Derrota ainda maior, horror no Rio de Janeiro. O presidente Prudente de Morais (1894-1898) retornou da licença médica e se encarregou de mudar o ministro da Guerra, alçando ao cargo o marechal Carlos Machado Bittencourt. Ele organizou uma nova expedição, cuidando dessa vez de garantir o fluxo de suprimentos do Exército, uma das principais razões para as derrotas anteriores. A quarta e última incursão a Canudos foi liderada pelo general Artur Oscar, com duas colunas comandadas pelos generais João da Silva Barbosa e Cláudio do Amaral Savaget. O plano era que cerca de 5 mil soldados envolvessem Canudos e esmagassem o reduto apoiados por artilharia, em especial um canhão apelidado pelos jagunços de “Matadeira”.
    O avanço da coluna de Savaget foi cuidadoso, mas sem saber esse grupo avançou contra a principal rota usada pelos sertanejos para levar boiadas e suprimentos para o arraial. Em 25 de junho foram travados os primeiros combates, e dois dias depois a frente principal, comandada por Barbosa e com o general Artur Oscar, tomou o Alto da Favela. No dia 28, um ataque dos conselheiristas fez com que as colunas se unissem, pois Barbosa tinha sido cercado. Sob ordens de Artur Oscar, mais de 1 milhão de balas foram disparadas contra os sertanejos naquele dia. O combate resultou em mais de mil baixas à expedição. Oscar estava sem suprimentos e dependia de comboios que nem sempre chegavam, pois os locais muitas vezes se apoderavam deles.
    Em 14 de julho a tropa conseguiu estabelecer uma linha dentro do arraial. Mas não sem um altíssimo custo: 1.014 baixas, praticamente um a cada três homens. O número manchou a reputação de Artur Oscar, especialmente pela perda de oficiais. Batalhões que antes eram comandados por coronéis estavam agora sob as ordens de tenentes. A situação de desmanche impossibilitou novos ataques. 
    O impasse permaneceu até que novos reforços chegaram, no fim de agosto. No dia 1º de outubro teve início um novo ataque. A resistência foi enérgica. Mesmo sob forte bombardeio, o arraial não se rendia. Nos dois dias seguintes houve tréguas: cerca de 500 a mil sertanejos se renderam, entre mulheres, idosos e crianças. As investidas, porém, não cessaram: os jagunços eram desalojados com o uso de bombas de querosene e dinamite. O fogo se espalhou rapidamente no povoado, gerando um cenário de total destruição.
    A batalha chegou ao fim no dia 5 de outubro. O número de mortos no arraial é desconhecido – a estimativa vai de 5.500 pessoas (segundo registro do tenente Macedo Soares) até 26 mil, cálculo baseado na média de cinco pessoas para cada uma das 5.200 casas do povoado. 
    O Exército também foi destroçado. Quase metade de seu efetivo tinha servido na campanha, que deixou 4 mil combatentes mortos no solo árido do sertão. O episódio foi marcante para a instituição, que nas décadas seguintes reavaliou seu papel na política brasileira. Desde então os militares buscaram incutir na sociedade a ideia de um organismo que era forte e preparado para os desafios que surgissem. Capaz também de driblar armadilhas que pudessem implodir suas estruturas, como aconteceu em Canudos.  
    Matéria da Revista de História do Professor Sandro Teixeira Moita 1/12/2014  
    Sandro Teixeira Moita é professor de história militar na Divisão de Preparação e Seleção da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).
    Saiba mais
    McCANN, Frank. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro, 1889-1937. São Paulo: Companhia das Letras; Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2009.
    ARARIPE, Tristão de Alencar. Expedições Militares contra Canudos: Seu aspecto marcial. 2. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.
    CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo/ EGBA, 1997

CANUDOS: Viver e morrer em Belo Monte

Viver e morrer em Belo Monte

O arraial de Conselheiro tinha hierarquias e personagens estratégicos para a rotina e para a guerra


  • Xilogravura de Adir Botelho, de 1985. (Imagem: Adir Botelho)
    Ao fim de uma série de protestos contra os novos impostos republicanos, enfrentando a polícia baiana em vários lugarejos, Antonio Conselheiro e seus prosélitos instalam-se em Canudos em 1893. A peregrinação de duas décadas chega ao fim. Eles vão entrincheirar-se e fortificar-se no fundo do sertão, no alto das serranias, como se tivesse soado um toque de recolher. 
    As terras em que ficava Canudos não eram desertas e ali já existia um povoado assim chamado, à margem do Vaza-Barris, um rio intermitente. Os conselheiristas se estabeleceram e sobreviveram de uma parca agricultura de subsistência, plantando mandioca para o preparo de farinha e cana-de-açúcar para a fabricação de rapadura, criando cabras. Assim se fundou o Belo Monte, nome bíblico dado à cidadela que ergueram como baluarte contra a República instaurada em 1889, sobrepondo-se à Canudos preexistente. 
    Em pouco tempo abriu-se uma rua principal na praça das igrejas, que ficou conhecida como a rua das Casas Vermelhas, destacando-se do conjunto devido à cor das telhas. As duas igrejas defrontavam-se de dois lados da praça. A primeira era a de Santo Antônio ou Igreja Velha, consagrada em 1893 com festas e foguetório. A segunda, a do Bom Jesus ou Igreja Nova, de maiores proporções, não chegaria a ser terminada. A capelinha do povoado anterior passou a ser chamada de Santuário, preservando o altar e abrigando imagens de santos. Num quartinho anexo morava Conselheiro, e ali seria sepultado.
    Esse era o centro ao redor do qual, gradativamente, se ergueria a aglomeração de casebres. A construção em taipa ou pau a pique – barro reforçado com galhos – tornava a cidadela indistinguível, na mesma monotonia parda da caatinga. O conjunto, sem um mínimo de cuidados de urbanização – como arruamento, calçadas, esquinas e muito menos saneamento ou água encanada – viria a formar “um labirinto inextricável”, nas palavras de Euclides da Cunha. 
    Na vida cotidiana do arraial predominava a religião. Como de hábito no sertão e em geral no interior do país, era uma religião festiva, em contraste com a austeridade preconizada pelo líder, que não tolerava luxos ou abusos de conduta. Os habitantes organizavam suas vidas em torno de dois ofícios religiosos diários, à madrugada e à noitinha, e periodicamente assistiam aos conselhos do Peregrino, com data previamente marcada, para os quais vinha gente até de longe. Canudos tornou-se um centro de romaria, atraindo crentes para pedir audiência ao Conselheiro e fazer doações.
    À medida que a guerra se avizinha, começa a acorrer gente de todos os quadrantes da região. Multiplicam-se as cartas dos canudenses chamando parentes e amigos para virem em seu socorro. Muita gente pelo sertão abandona seus pagos para acudir Canudos, carregando família e agregados.
    Nem todos eram miseráveis no séquito: gente de posses havia se livrado de tudo para acompanhar o Peregrino. Embora não fosse uma comunidade exatamente igualitária – havendo distinção visível entre mais ricos e mais pobres, dada pela aparência das casas – preservavam-se ali traços de igualdade. O mais marcante era a inexistência de propriedade privada da terra. Quem chegasse podia erguer sua choça sem pagar nada a ninguém. Alimentos, roupas e dinheiro, recebidos em donativo pelo Conselheiro, eram repassados aos desafortunados. 
    Para que a comunidade fosse funcional, alguma estrutura era necessária. Seu Estado-Maior, por assim dizer, era a Guarda Católica. Constituída por 12 apóstolos, sobrepunha-se a tudo o mais porque formava o quadro de imediato apoio a Conselheiro. Os guardas andavam uniformizados, armados e municiados, e recebiam soldo. Revezavam-se como sentinelas defronte ao Santuário, onde ele residia. Em seguida vinha a Companhia do Bom Jesus ou Santa Companhia, bem mais numerosa, contando de 1.000 a 1.200 cabeças. Um grupo de beatas chefiadas por uma mordoma (Benta ou Tia Benta) cuidava da administração da residência e do bem-estar do Conselheiro. Ele quase não comia. Apenas o suficiente para manter-se vivo, mas observando total abstinência.
    Litografia do arraial de Canudos em 1897. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
    Litografia do arraial de Canudos em 1897. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
    O arraial contava com uma professora, de modo a não descurar da educação das crianças. O próprio Conselheiro frequentara escola, sabendo ler, escrever e até rudimentos de latim. Um secretário, Leão Ramos, atendia ao líder como escriba. Havia um curandeiro, Manuel Quadrado, perito em remédios silvestres e em simpatias. E José Félix, o Taramela, servia de criado e homem de confiança, como chaveiro e guarda das igrejas. Tornou-se renomado por sua fantasia sem peias, que o levava a inventar casos mirabolantes sobre a subida aos céus de tantos canudenses mortos, que afirmava ter presenciado. 
    Como a rotina incluía a guerra, destacou-se um “chefe militar”: João Abade, encarregado supremo das operações bélicas e da Guarda Católica, chamado de Chefe do Povo e Comandante da Rua. Paralelamente, havia um “chefe civil”, Antônio Vilanova, abastado comerciante responsável pela boa ordem da comunidade. 
    Houve combatentes ilustres. Como o pernambucano Pajeú, salteador negro, famoso por sua imaginação tática ao elaborar ardis guerrilheiros. Pedrão, negro imponente e hercúleo, originário dali mesmo, da Várzea da Ema, era integrante da Guarda Católica e um dos 12 apóstolos.  O historiador José Calasans ainda o conheceu, nos anos 50, e com ele teve muitas conversas, que granjearam sua admiração. Inválido das pernas, observou certa vez: “Faz pena um homem como eu morrer sentado”. Antônio Beatinho ficou conhecido porque negociou a rendição de 300 pessoas, entre mulheres, crianças, feridos e velhos, nos últimos dias dos combates. É do resultado dessa negociação a mais famosa foto da guerra, mostrando a multidão andrajosa, doente e esquelética. Tanta abnegação foi recompensada pela degola.
    Joaquim Macambira, que já residia em Canudos antes da chegada dos conselheiristas, possuía uma fazenda nas cercanias e era dono de loja. Seu filho e xará, com um punhado de valentes e as bênçãos do pai, tentou tomar a braços o canhão alcunhado de Matadeira, pertencente ao exército, tombando morto ali mesmo. É um dos episódios mais referidos da campanha, tendo despertado a admiração geral.
    Também deixou lembranças o sineiro Timotinho, que desafiava o exército insistindo em tocar o sino da Igreja Velha todas as tardes, quando a fuzilaria das tropas inimigas se concentrava nele. Um dia, dois tiros de canhão acertaram a torre, que desmoronou, jogando o sino à distância e aniquilando o heroico sineiro.
    Dentre os muitos artesãos que labutaram na arquitetura sacra do Conselheiro – que durante as duas décadas de peregrinação capitaneou a construção ou o reparo de igrejas, cemitérios, calçadas e açudes por toda aquela região – o nome mais importante que a história reteve é o de Manuel Faustino, mestre de obras e entalhador que presidiu aos trabalhos da Igreja Nova. Antônio Fogueteiro, como a alcunha indica, fabricava fogos, a que o povo do sertão em geral, e o de Canudos em particular, era muito afeiçoado. 
    Os dois irmãos Ciriaco, os combatentes negros Manuel e José, só se tornaram conhecidos décadas após o fim da guerra. Servindo de guia em Canudos ao historiador José Calasans (1915-2001), tornaram-se fonte de preciosas informações.
    Na utopia que criaram, Antônio Conselheiro substituiu o fazendeiro, o padre e o delegado de polícia, reunindo em sua pessoa o poder das três autoridades que mandavam no sertão. Por trás de sua figura estava o esforço admirável que uma população carente de tudo desenvolveu para se organizar, resistindo à opressão e à exploração, além de inventar formas alternativas de vida em comum.
    Com a guerra, o dia a dia do arraial foi totalmente degradado. Belo Monte, cujos habitantes passavam a vida em oração e penitência para “salvar a alma”, conforme diziam, foi transformado em antevisão do Inferno. Em vez do Paraíso a que todos aspiravam, com as promessas das bem-aventuranças da pregação cristã, aguardava-os o ferro e o fogo dos canhões, o incêndio do casario e a degola indiscriminada.  

    Saiba Mais:  
    ARAS, José. Sangue de irmãos. Cordel. Feira de Santana, BA: EMAGRAE, 2009. 
    BOMBINHO, Manuel Pedro das Dores. Canudos, história em versos – Relato inédito de testemunha ocular. Org. de Marco Antônio Villa. São Carlos: EdUFSCar, 2002.
    CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Coleção Memória da Bahia. Salvador, BA: EGBA, 1997.
    VILLA, Marco Antonio (Org.) Canudos, história em versos de Manuel Pedro das Dores Bombinho. (Hedra/Edufscar/Imprensa Oficial, 2002).
    Música:
    CD Canudos (Gereba)
    CD Matuto do Cocorobó (Bião de Canudos)
    CDs Toques de Canudos e Do Belo Monte ao Cocorobó (Banda de Pífanos de Bendegó)
    Filmes:
    Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964)
    Guerra de Canudos (Sérgio Rezende, 1997)
    Paixão e Guerra no Sertão de Canudos (Antônio Olavo, 1993)

Fonte da matéria: Revista de História Walnice Nogueira Galvão 1/12/2014 

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP e autora de O império do Belo Monte. Vida e Morte de Canudos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.