Translate

Mostrando postagens com marcador Tenente João Bezerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tenente João Bezerra. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de julho de 2016

LAMPIÃO - O Metamorfo

Segundo a mitologia, Metamorfos são seres que se transformam no que querem. Começam humanos, mas mais tarde aprendem a mudar sua forma, apenas observando quem querem ser. Metamorfose, também conhecida como transformação, é uma mudança na forma ou no formato de uma pessoa, especialmente uma mudança da forma humana, de forma animal ou uma mudança na forma de aparição de uma pessoa para outra. 

Quando um Metamorfo toma a forma da pessoa que escolheu para se transformar, eles literalmente mudam a sua pele, dentes e unhas. Quando eles mudam para a pessoa que desejaram, eles acessam os pensamentos dessa pessoa que estão imitando. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração.


Alfa de Lampião
Todos metamorfos descedem de um Alfa. Existem muitas lendas sobre ele , e sem duvida é o primeiro e o mais poderoso,  capaz de transformar sem de forma imediata sem perda de pele. Seu intelecto , força , resistência e reflexos são bem maiores , sendo que ele tambem tem um vínculo psiquico com todos os seres, sendo capaz ate de sentir sua localização.


Lampião metamorfoseado
Lampião, podemos dizer, que tinha as características de um Ser Metamorfo. Se formos analisar sua vida, podemos encontrar diversos motivos para avaliarmos assim. Até mesmo podemos dizer que ele quando quis morrer, não o fez pelas próprias mãos e sim, pelo raciocínio lógico imposto por ele próprio, para isso. Deixou-se apanhar, relaxando a guarda do grupo, e com cerca de 40 nos, estava farto de viver e planejou sua morte como se planeja algo corriqueiro. Deixou-se abater e como um rei faraônico, levando para a sua sepultura, concubinas e servos seus. Que outra forma podemos explicar Angico?


Sua metamorfose iniciou muito cedo, ainda menino, quando se destacava na escola como um jovem de inteligência maior que a dos outros.

Era muito ágil, dificilmente foi acertado por um tiro ou golpe; poucas vezes o foi. Tinha a capacidade de saber se a pessoa que falava mentia ou tentava o enganar, assim como metamorfos leem a mente de outras pessoas. Era impenetrável mantendo o bloqueio em sua mente contra qualquer um que tentasse decifrar seus pensamentos. Atraia suas vitimas, com ardis e usava seu poder de metamorfose para viajar sem ser notado. Alguns diziam que fazia isso em forma de animal, como uma coruja, um lobo e ate morcegos. Usava óculos sem ter necessidade de lentes corretivas. O jornal O Povo de Fortaleza, de 5 de agosto de 1928, descreve esses óculos "com vidros esfumaçados, engastados em tartaruga e ouro, com o fim de encobrir um extenso leucoma da córnea do olho direito" - tudo bem que fosse isso,  mas podemos pensar que era para esconder as mutações que seus olhos realizavam, deformando-se pavorosamente ao olhar para as pessoas e essas não desmaiassem de pavor. 

Seu corpo esquelético sofria mutações e deformações, como a cor da pele, pés e mãos. Lampião foi aquele que Elise Grunspan-Jasmin disse que era "guerreiro valoroso, e não um homem alquebrado, que sobrevive apesar dos ferimentos". Temos vários relatos de "repentes" que Lampião tinha, inclusive criar uma mística qualidade de prever algo ou receber avisos de forças estranhas.

Em seu livro, "Lampião: o homem que amava as mulheres : o imaginário do cangaço" Daniel Soares Lins diz que "ao pesquisador do imaginário enveredar tanto no campo dos discursos quanto na estrutura das práticas históricas, buscando encontrar nos "fatos históricos" os "resíduos" colados aos personagens. O sonho, a quimera, a mística, a paixão, o "tempo mágico" e os rituais deveriam ser compreendidos como práticas racionais, respondendo, contudo, a uma outra ordem simbólica, a uma outra organização dos signos e dos imaginários."

Continuando com Daniel Soares Lins, que diz "...em síntese, ao contrário do historiador que não "ama os acontecimentos", o estudioso do imaginário reivindica, de certa maneira, sua vinculação ao campo das temporalidades e dos acontecimentos, da cultura e da subjetividade."

Isso é importante na criação do misticismo que envolveu Lampião, pois muitas estórias foram contadas e muitas foram também inventadas, por aqueles que o admiravam.

A esse respeito, o tenente João Gomes de Lira, ex-oficial das Forças Volantes, contou que um colibri um dia se chocou com a aba do chapéu de Lampião que viu nisso um mau presságio e teria dito a seus companheiros que era preciso retroceder. No dia seguinte ele teve a confirmação de que uma Força Volante lhe tinha preparado uma cilada naquele local. Sabendo que se tratava de nazarenos, ele teria feito o seguinte comentário: "Se tivesse passado por lá, teriam acabado comigo" (Pedro Tinoco, "A Superstição Ronda o Cangaço", Jornal do Commercio, 8/7/1997, p. 2).

Numa entrevista que concedeu ao Diário de Pernambuco, João Bezerra, o militar que cercou e matou Lampião e Maria Bonita, juntamente com alguns cangaceiros, evoca o recurso aos sonhos, ao sobrenatural e às premonições entre as Forças Volantes antes de iniciar um combate contra Lampião, tanto este lhes parecia ser dotado de uma dimensão sobrenatural. 

"Às vezes, noite alta, ouvia-se um rumor, o chefe da volante percorria os subordinados um a um, no escuro, passando a mão pelo rosto para conhecer seus cabras, temendo pela vida de todos, isolados na caatinga bravia, longe de homens mais humanos. Na perseguição de cangaceiros. rastejavam horas seguidas. arrastando a barriga contra a aspereza da terra, olho atento e ouvido apurado, esperando a qualquer momento o soar da fuzilaria, rezando com medo de ensopar a terra com seu sangue já que a chuva não a queria molhar..." - (Afranio Mello, "Como Correu Sertão a dentro a Noticia da Morte de Lampeão". Diário de Pernambuco 5/8/1938, p. 5). 

Só também um homem que acreditasse no sobrenatural, e usando os desígnios que o destino lhe pusera nas mãos, poderia acabar com Lampião e isso com o consentimento de uma autoridade superior. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração e isso, em sentido figurado, o militar João Bezerra recebeu dessas entidades superiores, quando acabou com Lampião.

A Saga Cangaço é muito rica e enseja inclusive a nós viajarmos nas ondas desse grande mar que se chama imaginação. A clarividência de Lampião, esse seu terceiro olho com sua capacidade de "ver" ou de "sentir" o perigo que o ameaçava, não era a única arma mágica de que dispunha para escapar aos seus inimigos. Lampião teria também o dom da invisibilidade, graças a proteções sobre-naturais, às orações fortes que trazia consigo e que podia invocar em situações extremas. E apenas essas proteções, essas entidades escondidas sobre o manto do destino, poderiam retirar dele e dá-la para outro homem, que pela força de leis que não conhecemos, foi dada ao militar João Bezerra.

Mãos compridas, que semelham garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre Cícero, escapulários e saquinhos de rezas fortes; chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgazão quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; não se esquecendo dum guarda-costa vigilante, à direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; paletó e camisa de riscado claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; tórax guarnecido por três cartucheiras bem providas; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos o fuzil e à cinta duas pistolas “Parabelum” e um punhal de setenta e oito centímetros de lâmina: esse era Virgolino Ferreira da Silva – O LAMPIÃO – duende das estradas, assombração das matas e caatingas!

LAMPIÃO - O Metamorfo

Segundo a mitologia, Metamorfos são seres que se transformam no que querem. Começam humanos, mas mais tarde aprendem a mudar sua forma, apenas observando quem querem ser. Metamorfose, também conhecida como transformação, é uma mudança na forma ou no formato de uma pessoa, especialmente uma mudança da forma humana, de forma animal ou uma mudança na forma de aparição de uma pessoa para outra. 

Quando um Metamorfo toma a forma da pessoa que escolheu para se transformar, eles literalmente mudam a sua pele, dentes e unhas. Quando eles mudam para a pessoa que desejaram, eles acessam os pensamentos dessa pessoa que estão imitando. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração.


Alfa de Lampião
Todos metamorfos descedem de um Alfa. Existem muitas lendas sobre ele , e sem duvida é o primeiro e o mais poderoso,  capaz de transformar sem de forma imediata sem perda de pele. Seu intelecto , força , resistência e reflexos são bem maiores , sendo que ele tambem tem um vínculo psiquico com todos os seres, sendo capaz ate de sentir sua localização.


Lampião metamorfoseado
Lampião, podemos dizer, que tinha as características de um Ser Metamorfo. Se formos analisar sua vida, podemos encontrar diversos motivos para avaliarmos assim. Até mesmo podemos dizer que ele quando quis morrer, não o fez pelas próprias mãos e sim, pelo raciocínio lógico imposto por ele próprio, para isso. Deixou-se apanhar, relaxando a guarda do grupo, e com cerca de 40 (quarenta) anos, estava farto de viver e planejou sua morte como se planeja algo corriqueiro. Deixou-se abater e como um rei faraônico, levando para a sua sepultura, concubinas e servos seus. Que outra forma podemos explicar Angico?


Sua metamorfose iniciou muito cedo, ainda menino, quando se destacava na escola como um jovem de inteligência maior que a dos outros.

Era muito ágil, dificilmente foi acertado por um tiro ou golpe; poucas vezes o foi. Tinha a capacidade de saber se a pessoa que falava mentia ou tentava o enganar, assim como metamorfos leem a mente de outras pessoas. Era impenetrável mantendo o bloqueio em sua mente contra qualquer um que tentasse decifrar seus pensamentos. Atraia suas vitimas, com ardis e usava seu poder de metamorfose para viajar sem ser notado. Alguns diziam que fazia isso em forma de animal, como uma coruja, um lobo e ate morcegos. Usava óculos sem ter necessidade de lentes corretivas. O jornal O Povo de Fortaleza, de 5 de agosto de 1928, descreve esses óculos "com vidros esfumaçados, engastados em tartaruga e ouro, com o fim de encobrir um extenso leucoma da córnea do olho direito" - tudo bem que fosse isso,  mas podemos pensar que era para esconder as mutações que seus olhos realizavam, deformando-se pavorosamente ao olhar para as pessoas e essas não desmaiassem de pavor. 

Seu corpo esquelético sofria mutações e deformações, como a cor da pele, pés e mãos. Lampião foi aquele que Elise Grunspan-Jasmin disse que era "guerreiro valoroso, e não um homem alquebrado, que sobrevive apesar dos ferimentos". Temos vários relatos de "repentes" que Lampião tinha, inclusive criar uma mística qualidade de prever algo ou receber avisos de forças estranhas.

Em seu livro, "Lampião: o homem que amava as mulheres : o imaginário do cangaço" Daniel Soares Lins diz que "ao pesquisador do imaginário enveredar tanto no campo dos discursos quanto na estrutura das práticas históricas, buscando encontrar nos "fatos históricos" os "resíduos" colados aos personagens. O sonho, a quimera, a mística, a paixão, o "tempo mágico" e os rituais deveriam ser compreendidos como práticas racionais, respondendo, contudo, a uma outra ordem simbólica, a uma outra organização dos signos e dos imaginários."

Continuando com Daniel Soares Lins, que diz "...em síntese, ao contrário do historiador que não "ama os acontecimentos", o estudioso do imaginário reivindica, de certa maneira, sua vinculação ao campo das temporalidades e dos acontecimentos, da cultura e da subjetividade."

Isso é importante na criação do misticismo que envolveu Lampião, pois muitas estórias foram contadas e muitas foram também inventadas, por aqueles que o admiravam.

A esse respeito, o tenente João Gomes de Lira, ex-oficial das Forças Volantes, contou que um colibri um dia se chocou com a aba do chapéu de Lampião que viu nisso um mau presságio e teria dito a seus companheiros que era preciso retroceder. No dia seguinte ele teve a confirmação de que uma Força Volante lhe tinha preparado uma cilada naquele local. Sabendo que se tratava de nazarenos, ele teria feito o seguinte comentário: "Se tivesse passado por lá, teriam acabado comigo" (Pedro Tinoco, "A Superstição Ronda o Cangaço", Jornal do Commercio, 8/7/1997, p. 2).

Numa entrevista que concedeu ao Diário de Pernambuco, João Bezerra, o militar que cercou e matou Lampião e Maria Bonita, juntamente com alguns cangaceiros, evoca o recurso aos sonhos, ao sobrenatural e às premonições entre as Forças Volantes antes de iniciar um combate contra Lampião, tanto este lhes parecia ser dotado de uma dimensão sobrenatural. 

"Às vezes, noite alta, ouvia-se um rumor, o chefe da volante percorria os subordinados um a um, no escuro, passando a mão pelo rosto para conhecer seus cabras, temendo pela vida de todos, isolados na caatinga bravia, longe de homens mais humanos. Na perseguição de cangaceiros. rastejavam horas seguidas. arrastando a barriga contra a aspereza da terra, olho atento e ouvido apurado, esperando a qualquer momento o soar da fuzilaria, rezando com medo de ensopar a terra com seu sangue já que a chuva não a queria molhar..." - (Afranio Mello, "Como Correu Sertão a dentro a Noticia da Morte de Lampeão". Diário de Pernambuco 5/8/1938, p. 5). 

Só também um homem que acreditasse no sobrenatural, e usando os desígnios que o destino lhe pusera nas mãos, poderia acabar com Lampião e isso com o consentimento de uma autoridade superior. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração e isso, em sentido figurado, o militar João Bezerra recebeu dessas entidades superiores, quando acabou com Lampião.

A Saga Cangaço é muito rica e enseja inclusive a nós viajarmos nas ondas desse grande mar que se chama imaginação. A clarividência de Lampião, esse seu terceiro olho com sua capacidade de "ver" ou de "sentir" o perigo que o ameaçava, não era a única arma mágica de que dispunha para escapar aos seus inimigos. Lampião teria também o dom da invisibilidade, graças a proteções sobre-naturais, às orações fortes que trazia consigo e que podia invocar em situações extremas. E aapenas essas proteções, essas entidades escondidas sobre o manto do destino, poderiam retirar dele e dá-la para outro homem, que pela força de leis que não conhecemos, foi dada ao militar João Bezerra.

Mãos compridas, que semelham garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre Cícero, escapulários e saquinhos de rezas fortes; chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgazão quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; não se esquecendo dum guarda-costa vigilante, à direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; paletó e camisa de riscado claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; tórax guarnecido por três cartucheiras bem providas; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos o fuzil e à cinta duas pistolas “Parabelum” e um punhal de setenta e oito centímetros de lâmina: esse era Virgolino Ferreira da Silva – O LAMPIÃO – duende das estradas, assombração das matas e caatingas!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

"Como dei cabo de Lampião" - Capitão João Bezerra

Na leitura do livro "Como dei cabo de Lampião" de João Bezerra, o militar que comandou as volantes no fogo do Angico, e que me foi presenteado com uma dedicatória de punho, pelo filho dele, o pesquisador Paulo Britto, nos mostra que tal, foi iniciado por seu pai logo após o combate de Angico, com anotações que a mente lhe trazia, para passar às pessoas, segundo ele, que estudam a sociologia do cangaço terem o conhecimento de sua visão para avaliarem juntamente com outros escritos sobre o cangaço que se abatia pelo sertão nordestino, e tirarem conclusões.

Qual o filho não teria orgulho de seu pai? E em razão mais que aceita por todos os filhos, que sentiriam-se também orgulhosos, mesmo sem o histórico de matador de onça e exterminador do ícone da violência daquela época, como foi o Coronel João Bezerra. Logo no introdutório feito por ninguém menos que um dos maiores pesquisadores da saga nordestina do cangaço, o ilustre historiador Frederico Pernambucano de Mello, autor de clássicos sobre o cangaço, hoje com mais de quarenta e cinco anos de estudos e pesquisas, abordando com segura exposição, a vida desse militar alagoano.

Mostra-nos que, desde cedo, esse personagem entrou na história brasileira e porque não dizer mundial, pois o cangaço é estudado sociologicamente em muitas universidades no mundo. Como bem disse Frederico Pernambucano, num bovarismo explicável pelo impacto da fatalidade de um destino aventureiro que desde jovem o dominava e como em uma corrida tipo "steeaple-chase" tenha vencido todos os obstáculos de sua vida até então e ter-lhe caído às mãos o aniquilamento do Rei do Cangaço.

Maktub, é uma palavra em árabe que significa "já estava escrito" ou "tinha que acontecer" - essa palavra, considerada como sinônimo de "destino", expressa alguma coisa que estava predestinada ou um acontecimento que já estava "escrito nas estrelas". Neste caso, apesar de possuirmos o livre arbítrio, as coisas que acontecem já estavam destinadas a acontecer. Coisa que não acredito muito.

Tal expressão "tinha de acontecer", poderia ter sido considerada com qualquer daqueles comandantes de volantes que perseguiam Lampião. Mas fez a ocasião que João Bezerra estivesse ali naquele cenário onde tudo conspirou contra o chefe cangaceiro. Os fatos que contribuíram para o êxito daquela investida fulminante todos sabem. Não tem necessidade d'eu entrar em detalhes.

A conspiração podemos dizer, não foi planejada por homens. Foi consequência de diversos fatores que contribuíram para o acontecimento; e todos esses atos conspiratórios foram aproveitados pelo então Tenente João Bezerra e por aqueles que comandara e participaram na mais ousada campanha militar daquela época. Alguns autores da Saga Cangaceira procuraram mostrar, os desvios da tropa, pois bebiam muito, e até mesmo a conduta do Tenente João Bezerra sobre ser amigo do cangaceiro chefe e por isso existir a versão de ter sido usado veneno para acabar com Lampião. As dúvidas se abatem até os dias de hoje. Mas pergunto: e daí? Se tivesse sido usado, diminuiria em alguma coisa aquele grandioso ato em livrar a sociedade dos tantos males trazidos pelo cangaço e por Lampião? Não seria tido como estratégia?

O Mestre Frederico Pernambucano de Mello magistralmente nesse livro que não tinha lido ainda para ter um entendimento melhor da grande questão do Angico, mostra como se diz "tin-tin-por-tintin" as causas que contribuíram para a derrota de Lampião e que incluo também as técnicas rudimentares, vamos dizer assim, da força bruta, aplicadas pelo Tenente Bezerra e seus comandados ao investigarem junto a coiteiros, onde se encontrava Lampião e seu bando.

O mais importante levantado nesse livro é que temos de reconhecer: João Bezerra obedeceu as ordens de seus superiores e cumpriu as ordens passadas. No momento que o destino "maktub" o teve "como seu agente e ponta de lança, dando-lhe a chance de virar uma das páginas mais expressivas da história do Nordeste rural" ele deu o seu voto de garantia e foi para a guerra.

Já li diversos livros tais como "Lampião, o rei dos cangaceiros" de Billy Jaynes Chandler, onde na página 249 diz que João Bezerra propôs retardar a investida contra os cangaceiros, mas o oficial Francisco Ferreira de Melo lhe disse que mesmo se Bezerra desistisse ele iria com seus homens efetuar o ataque, fazendo que o Tenente João Bezerra voltasse a concordar com o plano estabelecido, assim não tirando seu valor.

Li também os livros de homens e mulheres que saíram à cata de estabelecer um juízo mais próximo da verdade dos fatos, como por exemplo Billy Jaynes, Oleone Coelho, Luitgarde Oliveira, entre outros, que atestam o conluio de autoridades em proteger e fornecer armas e munições aos bandidos, fora aqueles que participaram no combate a Lampião, como Optato Gueiros que contou os milagres mas não disse quem eram os santos.

Luitgard que entrevistou testemunhas vivas dessa história, afirma em seu livro "A Derradeira Gesta" pg 244-245 sobre o relato do coiteiro Bié das Emendadas, fazendeiro da beira do São Francisco que foi intimado pelo então Major Lucena porque fora denunciado como coiteiro. 

Manoel Aquino, que estava com a volante de Lucena e entrevistado pela autora, fornece depoimento, coincidindo com outro depoimento, o do senhor Wilson Lucena Maranhão, sobre o mesmo acontecimento testemunhado pelo Padre Bulhões e sua mãe dona Sofia que hospedaram Bié e depois chamaram o major Lucena que repetiu o que lhes tinha sido contado, que "muitas noites Lampião e o Tenente João Bezerra, se esqueciam do mundo jogando carteado até altas horas." e que tinha amizade com Lampião ao ponto de jogarem cartas a noite inteira, apostando dinheiro. 

Nesses relatos identificam as pessoas que lhes testemunharam. Infelizmente encontramos esses relatos atestados por comprovantes testemunhais como o relatado por essa historiadora. E também tem as entrevistas dela com o senhor Francisco Rodrigues em Piranhas, que ajudou a desvelar o intricado relacionamento da família Brito de Propriá-SE com os cangaceiros.

Muitas estórias, e muitas mais iremos ouvir, mas "no trilho da causalidade histórica implacável foi ter no Angico" conforme nos diz Frederico; velhice e doença juntamente com armas bélicas modernas e o cansaço de Lampião fazendo-o mais indolente, e auxiliados pelas forças da natureza, fizeram que bastasse apenas quinze minutos de tiroteio. Pra que mais?

O livro de João Bezerra traz para nós, alguns fatores que ficam como sendo sua história e sua defesa, desses tempos em que imperava Lampião e os Coronéis. Serve também para cruzarmos informações valiosas para termos um retrato mental dos acontecimentos que levaram João Bezerra ser o escolhido dessa grande conspiração aleatória a vontades humanas, para terminar com a vida de Lampião. Valeu a pena ler o livro.