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segunda-feira, 14 de março de 2016

Como postar vídeo do Facebook no Site / Blog

Veja como é fácil incorporar vídeos postados no Facebook, diretamente no seu site ou blog. Dessa forma, torna-se possível partilhar os vídeos do Facebook sem redirecionar os usuários para fora do seu site, melhorando a experiência de utilização e evitando aumentar a taxa de rejeição.

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Programação do Cariri Cangaço em Floresta-PE


Programação Cariri Cangaço Floresta


Dia 26 de Maio  (Quinta-Feira)

Floresta

19:30 h Câmara Municipal de Floresta

Solenidade de Abertura

Formação da Mesa Solene e Autoridades

Apresentação do Cariri Cangaço

Entrega de Diplomas e Homenagens

Lançamento - "Manifesto de Restauração do Batalhão de Floresta"

Mesa da Conferencia de Abertura

Manoel Severo

Ivanildo Silveira

João de Sousa Lima

Leonardo Ferraz Gominho

Lançamento

“As Cruzes do Cangaço - Os Fatos e Personagens de Floresta ”

Marcos de Carmelita e Cristiano Ferraz

João de Sousa Lima

Apresentação da Obra

Leonardo Ferraz Gominho

Apresentação dos Autores

Conferência de Abertura

“As Cruzes do Cangaço - Os Fatos e Personagens de Floresta”

Marcos de Carmelita e Cristiano Ferraz

Dia 27 de Maio  (Sexta-Feira)

Nazaré


8:00 h Saída para Nazaré do Pico

Concentração em frente à Câmara Municipal de Floresta

9:00 h Hasteamento do Pavilhão Nacional e Municipal em Nazaré

9:30 h Fazenda Jenipapo

Netinho Flor e Mabel Nogueira

10:20 h Fogo do Enforcado

Zinho Flor

11:20h Fazenda Ema

Coronel Antenor Araujo Sobrinho
13:00 h Nazaré do Pico

Almoço

14:30 h Visitas em Nazaré do Pico

Campo Santo de Nazaré

Baraúna dos Revoltosos

Poço do Negro

Bustos dos Heróis de Nazaré

16:00 h Clube de Nazaré

Formação da Mesa e Entrega de Diplomas

Homenagem aos Valorosos Nazarenos

Mesa da Conferencia

Juliana Pereira

Manoel Severo

Aderbal Nogueira

Jose Tavares


Conferência

"João Gomes de Lira - O Soldado e o Pai"

Rubelvan Lira

"Genealogia dos Flor"

Netinho Flor

 18:00 h

Lanche Sertanejo e Apresentação Artística na Praça

Orquestra de Sanfônica de Carnaíba

Xaxado de Serra Talhada
Dia 28 de Maio (Sábado)

Floresta

8:30 h Saída para a Fazenda Poço do Ferro

Pertencente ao cel. “Anjo da Gia”  

Local onde morreu Antônio Ferreira, irmão de Lampião

Washington Lima ( Bisneto de Anjo da Gia)

Concentração em frente à Câmara Municipal de Floresta

10:30 h  Fogo da Varjota pelo cangaceiro Moreno

12:00 h Almoço em Floresta

14:30 h  Saída para  Fazenda Tapera

Local da Chacina dos Gilo

17:30 h Foto Histórica no Batalhão de Floresta

19:30 h Câmara Municipal de Floresta

Mesa das Conferencias

Manoel Severo

Archimedes Marques

Narciso Dias

Conferências

"A História de Floresta"

Leonardo Ferraz Gominho

"Os Punhais do Cangaço"

Denis Carvalho

"Theophanes Ferraz Torres"

Geraldo Ferraz


Dia 29 de Maio (Domingo)

Floresta

8:30 h Café com Sanfona

Floresta Hotel

Lançamento do GFEC

Grupo Florestano de Estudos do Cangaço

Marcos de Carmelita 

Discussão sobre o Projeto da Editora Cangaço

Manoel Severo

Raul Meneleu

Professor Francisco Pereira

Ângelo Osmiro

domingo, 13 de março de 2016

Zé Rufino, o matador de cangaceiros

Esse valente comandante das forças públicas que combateu Lampião e seus grupos de cangaceiros, realmente foi um dos 'cabras' mais valentes daquela época. 

Nesse vídeo em entrevista concedida pelo famoso Comandante de Volante Policial, Tenente Zé Rufino ao Jornalista Paulo Gil Soares em 1964 ele nos conta um pouco de sua vida na caatinga nordestina em perseguição aos cangaceiros e principalmente ao próprio Lampião.

Zé Rufino foi um dos mais temidos perseguidores de cangaceiros, chegou rapidamente ao oficialato na Policia Militar da Bahia.


O Cineasta e pesquisador da Saga Cangaço Aderbal Nogueira em comentário sobre Zé Rufino, em matéria por mim escrita (Cangaceiros e Volantes - Violência latente) e postada no Facebook, atestou que os cangaceiros "Vinte e Cinco, Durval Rosa, Candeeiro e outros que conheci disseram que Lampião temia os comandantes Nazarenos mas Zé Rufino era o mais perigoso. 'Vinte e Cinco' disse para mim "os Nazarenos quando avistavam a gente metiam bala, queriam sangue a todo custo, mas Zé Rufino era diferente, se ele pudesse ele entrava dentro do coito pra começar o tiroteio. Era uma cobra cascavel. Era quem nós mais temia"

Realmente "temos que destacar a figura de Zé Rufino" como bem diz Pedro Son, que foi Secretário municipal de Educação em Jeremoabo (BA):

"O implacável caçador de cangaceiros, que residiu, fez família e se tornou, por opção, cidadão jeremoabense. O matador de Corisco, página mais lida de sua história, começa a ter sua biografia destacada. Nascido José Osório de Farias, sanfoneiro afamado em seu estado natal, Pernambuco, Zé Rufino foi convidado por Lampião para integrar o bando, que sonhava com sua sanfona alegrando o bando, recusando, e entrando na volante para fugir da vingança do rei do cangaço, que não aceitava uma negativa. Meses depois José Osório engajou-se à polícia chegando a receber graduação de tenente, e a partir daí surgiu o Tenente Zé Rufino. Chegou rapidamente a oficial, alcançando a posição de coronel da Policia Militar da Bahia. Participando de inúmeros combates, Zé Rufino matou muitos cangaceiros, tendo se tornado um dos mais respeitados chefes militares na perseguição ao cangaço, tendo dado fim aos cangaceiros Pai Véi, Mariano, Barra Nova, Zepellin, Canjica, Zabelê, etc., mas Corisco, sem dúvida, foi o que mais lhe deu fama.

Mas o fato que terminou pegando Lampião de surpresa, numa emboscada que ocasionou sua morte, tem também algo a ver com Zé Rufino. Cansado de ver o estrago que o comandante fazia no cangaço, Lampião manda uma mensagem a Corisco que dizia: “Vamos dar uma lição em Zé Rufino, que está querendo passar de pato a ganso.” E acertaram um encontro exatamente na Grota do Angico para acertar uma emboscada contra o então tenente José Osório de Farias, conhecido como Zé Rufino. Para Lampião, o tenente andava ‘atrapalhando’ e era hora de tomar providências. Surpreendido pela volante, não houve tempo para colocar em prática a emboscada contra Zé Rufino.

Passados os anos turbulentos das perseguições aos cangaceiros, Zé Rufino comprou fazendas na região de Jeremoabo, e aqui viveu até seu derradeiro suspiro. Lembro-me, pequeno, de vê-lo, tranqüila e calmamente, andando pelas ruas de nossa cidade, ou sentado nas barbearias contando um pouco de suas aventuras. Ano passado, sua vida e história foi tema da Conferência de Abertura do Cariri Cangaço 2010, realizado dia 17 de agosto na cidade de Barbalha-CE, com o pesquisador Antônio Amaury Correia de Araujo."  JEREMOABO, O Cangaço e Zé Rufino 

Cangaceiros e Volantes - Violência latente

A história do cangaço é rica em acontecimentos que mostram que o sofrimento sempre estava em maior quantidade nos braços da população sertaneja, perdidas nas pequenas cidades, vilas e povoados do agreste nordestino, onde eram espremidos entre as volantes e os cangaceiros, todos sedentos de sangue e mentes fartas de maldade.

Quando Lampião andava pelo mundo, com certeza não tinha sido o Bom Deus dos Céus, que o tinha colocado por aqui, e muito menos mandado  Zé Rufino, o maior caçador de cangaceiros com suas tropas, pois eram cobras e escorpiões, quando enfezados, usavam de todo o poder de suas peçonhas para azucrinarem a vida do sertanejo das caatingas.

Muitos ocorridos terríveis foram obras das Volantes que em sua busca insana de matar e cortar a cabeça de cangaceiros, desprezavam a lógica e quando entravam nos povoados e cidadezinhas, faziam coisas piores que Lampião e seus facinorosos companheiros.

Em um relato de um desses malfeitos das Volante, temos o que se deu com a Volante de Zé Rufino, onde temos o seguinte histórico em que estavam no rastro de Lampião e seu bando, pega não pega, e o Rei dos Cangaceiros, sempre andando na frente e sabendo dos passos da volante. 

Estavam em Sergipe, onde Lampião tinha total apoio e uma grande rede de coiteiros e sentia-se muito a vontade nos coitos da região de Poço Redondo, Sergipe. Quem nos oferece esse histórico, é Alcino Alves Costa, em capítulo de seu livro "Mentiras e Mistérios de Angico" sob o título "Fogo da Laginha na Lagoa do Domingo João"

Pois bem, Zé Rufino em sua tenacidade, quando chegava nos locais que os cangaceiros haviam se arranchado, só encontrava os restos de comida e pontas de cigarro, capim deitado e amassado e isso fazia que ficasse cada vez mais desconfiado que tinha gente na frente deles "avisano os cangacero". 

Desanimados e com raiva, entraram no povoado e aborrecidos encontram um idoso de nome Trancolino, e o espancaram sem motivo nenhum, depois obrigaram dois rapazes a fazerem uma corrida e o perdedor levou uma forte sova, e não se dando por satisfeitos colocaram dois irmãos para brigarem, obrigando-os a esmurrarem-se e como recompensa cada um levou uma bofetada de cada soldado da Volante. 

Os habitantes do povoado sem compreenderem essas absurdas atitudes em que Zé Rufino nada fazia para para-los. Era assim naqueles tempos de aflição; de um lado os cangaceiros, do outro as volantes, e imprensado estavam os sertanejos.

A Verdade Sobre os cabras de Lampião - Manchete 15 de Novembro de 1969

Cristina Mata Machado escreveu um livro a respeito do cangaço e, para provar que não mentia, trouxe do Nordeste cangaceiros, seus filhos e netos.

Aos 27 anos, Cristina Mata Machado não pode ver sangue. Em criança, morria de medo quando lhe contavam histórias de cangaço. No entanto, ela acaba de escrever um livro chamado As Táticas de Guerra dos Cangaceiros e, para lançá-lo, reuniu nove remanescentes do bando de Lampião e descendentes de seu chefe. Labareda, o velhinho sorridente de 71 anos, é um desses homens que vivia pela caatinga, lutando, fugindo ou perseguindo inimigos. Entre seus pertences, há o antigo bacamarte que data do tempo de Lampião. Hoje, ele é vigia e porteiro em Salvador. Sua aparência serena e seus hábitos tranquilos vêm em apoio à tese de Cristina: "O cangaceiro não é bom nem mau. Ele era apenas um sertanejo injustiçado, que entrava na ilegalidade por falta de qualquer outro caminho."

Com Cristina, na foto à esquerda, Sila, Ana e seu marido, Criança, Dadá, Labareda, Marinheiro, Pitombeira, Volta Seca e Balão. À direita, fotografia feita por Melquíades da Rocha em julho de 1938.

PARA Expedita e Verinha, o cangaço não passa de uma notícia. A filha e a neta de Lampião e Maria Bonita cumpriram o início da vida conforme determinou o Capitão Virgulino: — Cangaço não é lugar para criar filho. Expedita foi levada, ainda um bebé, para a fazenda de Manoel Severo, um amigo de seu pai. Da mãe ela não se lembra nem vagamente. Lampião a visitou algumas vezes, de raro em raro, e nessas ocasiões percebeu que Expedita o temia. Só uma vez a beijou. Expedita cresceu e casou. 

Está viajando com a filha mais nova, Verinha, que não gosta de falar sobre cangaceiros, nem considera algo importante seu avó ter sido o mais famoso deles. Suas preocupações giram todas em torno dos estudos. Quer cursar Medicina — o irmão mais velho, Djair, quer ser engenheiro — mas vê o futuro com incerteza: acha que tanto ela quanto o irmão só poderão passar pela universidade se ganharem bolsas de estudos. 

Trinta e um anos depois da morte de Lampião, os herdeiros do cangaço estão pobres. Como diz Labareda: — No cangaço a gente tinha dinheiro mas não tinha o que comprar. Agora a gente tem o que comprar mas não tem dinheiro. A grande pretensão de Cristina Mata Machado é desmitificar, em seu trabalho, a figura do cangaceiro, restituindo-lhe uma imagem humana, de defeitos e virtudes: nem um anjo, nem um demônio. 

Cristina dá a data do atestado de óbito do cangaço no Brasil: 28 de julho de 1938. Foi numa fazenda no sertão de Sergipe, a 12 quilometros da fronteira de Alagoas. Angicos aparecia encravada entre duas serrinhas, com um córrego de muitas pedras, formando grotas bem cobertas e resguardadas. No centro dessa quase-fortaleza, espalhadas entre as moitas de xique-xique, as barracas do acampamento de Lampião, armadas há vários dias. Balão. homem de confiança de Virgulino, lugar-tenente de Corisco, estava lá e conta como foi. — Já fazia cinco dias que a gente estava em Angicos, onde chegamos numa sexta-feira. O dia do mês não me lembro, porque não tinha folhinha. Quando chegou terça-feira, o Capitão resolveu partir (a intuição de perigo iminente era o grande trunfo de Lampião). Mas de manhãzinha chegou um sobrinho dele, de nome José, para se juntar ao bando. O Capitão resolveu adiar a viagem, para equipar o menino. De tardinha chegou ao coito um homem por nome Pedro de Cândido, que foi logo contando que "tem muito macaco em Piranha", um lugar lá perto. 

Noto emoção e um brilho mais profundo nos olhos de Balão, quando se refere a Pedro de Cândido. E logo percebo que nesse homem duro persiste o mesmo horror à delação e à traição. — Foi daí que o capitão disse a ele: "Pedro, volte lá e sonde para que lado vão esses macacos." Pedro foi e voltou de noitinha, coisa assim de oito horas, e contou: "Eles foram para o sertão de Pernambuco; pode ficar tranqüilo." 

Mas ele tinha trazido a volante. Todos os macacos ficaram escondidos em volta. Até às 11 da noite ficou bebendo e conversando com a gente. Aí disse que precisava ir embora. E ainda avisou: "Capitão, amanhã eu volto, lá pelas 9 horas, para me despedir do senhor." — Naquela quarta-feira, levantamos às cinco da manhã. O capitão chamou todos para rezar o ofício, como acontecia todos os dias. E, quando terminou, pediu a Amoroso que descesse até a bica e fosse buscar água para fazer o café. Amoroso não chegou a enfiar o cantil dentro do riacho. O primeiro tiro de um macaco matou Amoroso ali mesmo. Dai foi só fuzilaria. Tinha mais de cem macacos, cercando por todos os lados e quatro metralhadoras varriam o xique-xique. 

O capitão morreu com um tiro na cabeça. A vinte metros dele morreu Maria Bonita. Nós éramos 36 e cada qual cuidava de sair vivo. Luís Pedro, o homem mais chegado a Lampião, furou o cerco, mas ouviu gritarem que o capitão tinha morrido e voltou. Ele jurou que ia morrer com Lampião e veio de peito aberto. Recebeu uma rajada de metralhadora e caiu morto. O fogo cerrado durou mais de meia hora. Ficaram mortos, no chão de Angicos, Lampião, Maria Bonita, Amoroso, Nedina, Quinta-feira, Luís Pedro, Elétrico, Mergulhão, Caixa-de-Fósforos, Jítirana e Cajarana. Eram 11 cangaceiros. Mas morreu muito mais macaco. 

LABAREDA, que está do lado, ouvindo, resolve interferir na narração. — Pois está certinho. A volante diz que só morreu um macaco no ataque, Mas chega-ram em Piranha 28 fuzis sem dono (Labareda não estava em Angicos, mas numa fazenda perto de Piranha). Faça as contas: se morreram nove cangaceiros — as mulheres não usavam fuzil — o resto tinha de ser de macaco morto, e se chegaram 28 fuzis em Piranha, morreram 20 macacos, pois o fuzil de Amoroso os companheiros conseguiram levar. 

Morto Lampião, o bando se desintegrou e nunca mais se reagrupou. Alguns foram mortos em outras ocasiões e outros se entregaram. Em 1939 o cangaço acabava de vez. Um herói que arregimenta sertanejos para uma revolta popular ou um frio e sádico assassino, que saqueia e mata por prazer: essas as duas imagens extremadas que até hoje têm sido feitas dos cangaceiros. 

As Táticas de Guerra dos Cangaceiros pretende reduzir essas duas fantasias às suas verdadeiras dimensões. Por isso, para lançar seu livro em São Paulo, a historiadora Cristina Mata Machado, de 27 anos, fez questão das singulares presenças de Dadá, Sita, Zé Sereno, Labareda, Criança, Marinheiro, Volta Seca, Balão e Pitombeira, nove remanescentes do bando de Lampião. Cristina pesquisou em mais de cem lugares e pequenas cidades do sertão nordestino e chegou à conclusão de que a verdadeira imagem do cangaceiro nunca foi divulgada: — Nem herói, nem sanguinário: apenas um sertanejo comum, forçado a desligar-se de seu lugar e de sua gente, impelido a matar para poder continuar vivo, querendo a paz e não podendo obtê-la. 

Logo no primeiro parágrafo de seu trabalho, Cristina diz que Lampião foi "um homem como todos os outros do Nordeste". 

"O fato de haver entrado para a história e de ser conhecido fora das fronteiras do país não o torna único, diferente ou original. Ele apenas surgiu na hora certa, viveu um momento histórico e morreu quando já era um mito no sertão nordestino. Lampião simbolizava e simboliza o sertanejo rebelde, desconfiado, astuto, destemido, forte e livre, capaz de viver na mais dura caatinga, capaz de sobreviver lutando, capaz de amar, capaz de seguir e perseguir um objetivo, capaz de lutar contra tudo e contra todos, no momento em que julgar isso necessário.

Muitos assim existiam e existem no Nordeste. Lampião não pode ser visto como um fato isolado, mas como resultado de uma época em que se processava uma luta surda, empreendida pelo vaqueiro contra o senhor da terra. Dai se explica, talvez, porque Lampião — "uma fera humana" segundo a imprensa da época — era quase venerado pelas populações mais pobres. Ele realizava em segundos aquilo que cada um gostaria de fazer, mas tinha medo." 

Cristina Mata Machado aponta o surgimento do cangaço como um episódio marginal ao desenvolvimento sócio-econômico do Nordeste: "A palavra cangaceiro coincide com o aparecimento da palavra coronel: em fins do século XIX, quando a estrutura do coronelismo começa a enfraquecer, o coronel tenta mante-la. Sua primeira opressão é contra o vaqueiro que, apesar de trabalhar para o coronel, era quase livre (num sistema chamado de quatriação, o vaqueiro ficava com uma entre quatro crias, formando o seu próprio rebanho, dentro de alguns anos. A primeira providência do coronel foi extinguir a quatriação e passar o vaqueiro à condição de assalariado).

Maria Cristina explica porque não havia reivindicação política no cangaço: "Eles não lutavam por uma causa, mas para vingar uma afronta" 

SEGUNDO Cristina, três motivos básicos transformavam um sertanejo em cangaceiro: — Roubo de terras, desonra ou assassínio de algum parente. Atingido por um desses dramas, o sertanejo toma uma atitude, quase sempre a de matar o agressor. Feito isso, passa a ser perseguido pela polícia ou pelos jagunços do coronel atingido. Na fuga, não lhe sobram alternativas: tem de ir para o cangaço. A grande prova desse esquema é a inexistência, em qualquer época, de uma consciência de massa, de uma visualização do problema geral: cada um via o seu problema individual, lutava por causa dele. Não havia no cangaço uma causa pela qual lutar: havia uma afronta pessoal a vingar.

Anistiados por Getúlio — depois da tragédia dos Angicos — os cangaceiros remanescentes do bando de Lampião e Corisco saíram da caatinga buscando a volta à legalidade e à paz. Temerosos, desconfiados, procuraram, em maioria, sair do Nordeste, buscando os lugares onde pudessem substituir os seus nomes de guerra pelos de batismo. Hoje, reunidos em São Paulo, êles voltam a se chamar pelos apelidos pelos quais eram conhecidos no cangaço. As lembranças dos velhos tempos estão vivas, mas todos agradecem que sejam apenas lembranças, pois querem a todo custo manter a paz que conseguiram.

Labareda — Antônio Roque, o mais velho déles — deve ter a mesma idade que Lampião teria, se fosse vivo — 71 anos. Mas insiste em dizer que só tem 58. Hoje, é vigia do Hospital do Câncer e porteiro do foro, em Salvador. Tem uma vida bem diferente daquela da caatinga: — Vivia pelo mato, bebendo água de umbuzeiro, dando carreira, levando carreira, às vezes comendo só farinha molhada com água e de outras comendo até peru com arroz. Acampado, só conversava baixinho, dormia em barracas, passava dias sem brigar e às vezes tinha cinco brigas num dia só. 

Porque Labareda entrou para o cangaço? — Foi em Quixabá, numa fazenda onde eu morava. Um soldado por nome Horácio violentou minha irmã Sabina. Depois, ele desapareceu.... Eu o matei. A policia começou a me perseguir, eu me escondi na caatinga muito tempo, até que um dia me juntei com o bando do Lampião na fazenda Arrastapé. Fiquei 17 anos com o capitão. Quando ele morreu, fiquei dois anos pelo mato, sem saber da anistia. Quando soube, me entreguei. 

Balão é o mais falante de todos. Orgulha-se de ter 17 filhos. Sete ainda moram com ele em São Paulo, onde exerce a profissão de perfurador de poços artesianos, com 61 anos de idade. Nele perdura a velha desconfiança que não lhe deixa declarar o nome de batismo, nem o endereço. Qual a sua razão para unir-se a Lampião? — Naquele tempo, não tinha escolha: ou entrava para a volante ou virava cangaceiro. 

Eu morava em Riacho do Meio. Um dia Lampião passou por lá sem maltratar ninguém. Atrás dele vinha uma volante, que perguntou para onde o capitão tinha ido. Ninguém sabia. Por isso a volante espancou todo mundo. Homem que tem natureza não apanha de rêlho na cara. Um dia Corisco passou por lá com mais sete cabras. Quando saiu, tinha mais um. Era eu. 

Criança perdeu o apelido há muito tempo. Agora ele é apenas Vitor Rodrigues de Lima, vendedor ambulante de verduras em São Paulo. Era um menino de 15 anos quando entrou para o bando. Saiu quando tinha 22 e, durante todo esse tempo, com pouco mais de metro e meio de altura, era considerado o cangaceiro de melhor pontaria. — Lá em Feira do Pau, a perseguição era muita. A gente apanhava dos macacos para contar onde estavam os cangaceiros. Mas quando Lampião passava, ele agradava os moradores. Um dia eu segui com ele. 

Foi Criança quem ajudou Sila a furar o cerco de Angicos: — Vínhamos eu, Sila e Nedina, quando uma bala de fuzil acertou Nedina na cabeça. O vestido de Sila ficou vermelho com o sangue dela, que caiu aos meus pés, Pitombeira, que os colegas da Prefeitura de São Paulo só conhecem como José Soares, foi para São Paulo em 1940. 

Foi um dos primeiros a entrar para o bando, mas sua razão foi das mais fortes. — Um dia os macacos chegaram em Esperança, onde eu morava, perguntando se Lampião tinha estado por lá. De fato, tinha, mas ninguém sabia para onde tinha ido. A volante não se conformou e começou a espancar. Um macaco montou meu irmão, queria que ele pulasse como cavalo. Meu irmão acabou todo rasgado de espora. Oito dias depois, meu irmão Luís morreu, como morreu meu tio Emídio, de tanta pancada da volante. O grupo de Diferente passou e eu fui com eles. 

Sila e Zé Sereno conheceram-se e casaram-se no cangaço. Ambos escaparam do cerco de Angicos, ao fim de nove anos de lutas na caatinga. Desde 1942 estão em São Paulo. Ele é porteiro de um colégio e ela faz o que gosta: costura e cuida dos três filhos. Sila costurava toda a roupa do bando. José Ribeiro da Silva tem o máximo cuidado em falar do passado, para não delatar ninguém. Quando lhe pergunto quem vendia as armas para os cangaceiros, Me responde: — Não, moço, isso eu não falo. Quem vendia pode ter morrido, Mas as famílias ainda estão lá. Pode haver vingança e eu não quero complicar a vida de ninguém. 

Sila se lembra de como encontrou o marido: — Eu tinha 13 anos. Estudava num colégio de freiras e estava passando férias numa fazenda, quando os cangaceiros apareceram. José resolveu que eu ia com ele e eu fui. Um pouco por medo, um pouco por aventura. 

Dadá — a Sra. Sérgia da Silva Rodrigues, casada, mãe de vários filhos — perdeu uma perna no dia em que mataram o seu primeiro marido, Corisco. Ela também não gosta que se fale da origem das armas: — Não se cospe no prato em que se come. 

Marinheiro entrou para o cangaço com menos de 13 anos de idade: — Eu sou irmão de Sila. Ela havia seguido com o Zé Sereno. Por causa disso, a volante resolveu me matar. Não tinha saída. O jeito era seguir o rumo de onde estava Lampião e me juntar a ele. Menos de dois anos depois da adesão de Marinheiro, o cangaço morreu. Andou escondido durante algum tempo, e depois se entregou. Em 1942, mudou-se para São Paulo onde se iniciou na profissão de metalúrgico. Foi vivendo sua vida de operário até que um dia se apaixonou. por uma moça do Nordeste e ela por ele. Poucos dias antes do casamento ele soube que ela era filha de um macaco e ela soube que ele era um ex-cangaceiro. Nesse ponto a paz era inevitável.

Manchete 15 de Novembro de 1969 Reportagem de FERNANDO DEL CORSO Fotos atuais de HEITOR HUI